Folha de S. Paulo
Rompimentos definitivos não fazem parte do
roteiro de políticos que compartilham interesses
Quando as desavenças são profundas, os
ressentimentos são guardados em temperatura de geleira
Rompimentos definitivos na política são
raros. Assim, de pronto, não vem nenhum à memória. Os atritos, no geral, são
resolvidos, ainda mais quando os envolvidos têm interesses comuns e em alguma
medida dependem um do outro.
É o caso do presidente Luiz Inácio da Silva e do senador Davi
Alcolumbre. Estão ambos empenhados numa recomposição
da convivência, ainda em fase preliminar, por intermédio de
mensageiros experientes na arte da pacificação, como o ministro da Defesa, o
ex-deputado José Mucio
Monteiro.
Lula precisa
do Senado não
só para dar andamento a assuntos como as PECs da Segurança e da redução da
jornada de trabalho, mas, sobretudo, ao destravamento de nova
indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).
O presidente do Congresso não quer perder espaço nem influência na máquina pública
e necessita se precaver de retaliações mais fortes, em casos cujas
investigações podem ter algum tipo de interferência do governo.
A ruptura não beneficia nenhum dos dois. Daí que o mais provável é que vejamos
em breve a consolidação de um cessar-fogo. Provavelmente não um acordo de paz,
porque os tiros abriram feridas profundas, onde ressentimentos costumam se
alojar em temperaturas de geleiras.
A retomada do diálogo atende ao instinto de sobrevivência. Entre Lula e
Alcolumbre há relativa paridade de forças. O presidente da República está longe
de ser o "pato manco" descrito em algumas análises menos
compromissadas com os fatos. Estes mostram Lula à frente do aparelho de Estado
e competitivo na eleição de outubro. Alcolumbre é dono da agenda do Senado —e
do Parlamento, no caso de manifestações conjuntas das duas Casas—, por onde
transitam decisões essenciais para o Executivo.
Além disso, movimenta-se para renovar o
comando na nova legislatura a partir de 2027.
Em jogo está a forma como vai se dar a aproximação, de modo que não haja
rendição ou submissão de um ao outro. Arquitetura delicada, mas essencial à
preservação de pontes sobre as quais se sustenta a República.

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