terça-feira, 12 de maio de 2026

Dependência mútua reaproxima Lula e Alcolumbre, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Rompimentos definitivos não fazem parte do roteiro de políticos que compartilham interesses

Quando as desavenças são profundas, os ressentimentos são guardados em temperatura de geleira

Rompimentos definitivos na política são raros. Assim, de pronto, não vem nenhum à memória. Os atritos, no geral, são resolvidos, ainda mais quando os envolvidos têm interesses comuns e em alguma medida dependem um do outro.

É o caso do presidente Luiz Inácio da Silva e do senador Davi Alcolumbre. Estão ambos empenhados numa recomposição da convivência, ainda em fase preliminar, por intermédio de mensageiros experientes na arte da pacificação, como o ministro da Defesa, o ex-deputado José Mucio Monteiro.

Lula precisa do Senado não só para dar andamento a assuntos como as PECs da Segurança e da redução da jornada de trabalho, mas, sobretudo, ao destravamento de nova indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente do Congresso não quer perder espaço nem influência na máquina pública e necessita se precaver de retaliações mais fortes, em casos cujas investigações podem ter algum tipo de interferência do governo.

A ruptura não beneficia nenhum dos dois. Daí que o mais provável é que vejamos em breve a consolidação de um cessar-fogo. Provavelmente não um acordo de paz, porque os tiros abriram feridas profundas, onde ressentimentos costumam se alojar em temperaturas de geleiras.

A retomada do diálogo atende ao instinto de sobrevivência. Entre Lula e Alcolumbre há relativa paridade de forças. O presidente da República está longe de ser o "pato manco" descrito em algumas análises menos compromissadas com os fatos. Estes mostram Lula à frente do aparelho de Estado e competitivo na eleição de outubro. Alcolumbre é dono da agenda do Senado —e do Parlamento, no caso de manifestações conjuntas das duas Casas—, por onde transitam decisões essenciais para o Executivo.

Além disso, movimenta-se para renovar o comando na nova legislatura a partir de 2027.

Em jogo está a forma como vai se dar a aproximação, de modo que não haja rendição ou submissão de um ao outro. Arquitetura delicada, mas essencial à preservação de pontes sobre as quais se sustenta a República.

 

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