O Globo
Não existe mais o Congresso com que ele lidou
em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial
Lula testou a água por três vezes. Na primeira,
emplacou seu advogado pessoal Cristiano
Zanin, que liderou com sucesso a campanha para desmonte da Lava-Jato.
Depois, veio Flávio Dino,
seu ministro da Justiça e por 15 anos um dos maiores expoentes do PCdoB.
Na terceira vez, optou por Jorge Messias, um discreto procurador da Fazenda que
se tornou conhecido nacionalmente pela confiança que Lula e a
ex-presidente Dilma
Rousseff depositavam nele, a ponto de torná-lo emissário da carta que
garantia a nomeação do líder petista como ministro no auge da Lava-Jato. O
Senado, de inclinação oposicionista, não aprovou o terceiro companheiro.
A soberba é a véspera do erro, diz o ditado, e só ela explica o fato de Lula ter ignorado avisos de aliados e as enormes diferenças que separavam essa escolha das anteriores. Messias tem trajetória jurídica menos reluzente que Zanin e Dino, mas semelhante à de Dias Toffoli ao ser indicado à Suprema Corte. Sozinha, não seria impeditivo para sua aprovação, não fossem dois fatos que o presidente menospreza desde o início do terceiro mandato: tanto a sociedade brasileira quanto os três Poderes mudaram radicalmente desde 2010, quando ele desceu a rampa apoiado por 83% dos brasileiros.
Não existe mais o Congresso com que Lula
lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial, e
os parlamentares faziam fila na porta de um subsecretário para implorar a
liberação de tostões para seus redutos. O Congresso se apoderou do orçamento
público, sem partilhar responsabilidade na gestão, e os parlamentares hoje têm
autonomia para dizer “não” ao Planalto, seja para atender a outros acordos
pouco republicanos, seja para representar legitimamente um eleitorado que
pendulou à direita.
Quando indicou Zanin e Dino, Lula ainda vivia
a trégua tradicionalmente oferecida ao vencedor no primeiro ano de mandato. No
comando do Senado, estava o moderado Rodrigo Pacheco. Ao escolher o nome para a
vaga aberta por Luís
Roberto Barroso, Lula teria de dialogar com o voraz Davi Alcolumbre e
garantir o apoio de ao menos parte de uma bancada de senadores que vota fazendo
stories para o eleitor que vai às urnas em outubro.
Lula demorou 42 dias para escolher o nome de
seu indicado e optou por alguém sem qualquer outro padrinho. Quando o
presidente do Senado anunciou que faria uma tramitação célere para a indicação,
dando pouco tempo para Messias se articular, Lula manobrou e decidiu adiar o
envio da mensagem já anunciada. Alcolumbre estrilou, mas ficou publicamente
derrotado naquela batalha. Só não esqueceu.
A lentidão presidencial fez o tema ficar
quatro meses em banho-maria, lançando a análise da indicação para o período
pré-eleitoral num país dividido, com o caso Master assombrando Brasília e num
Senado em que a oposição parte de 30 votos. Bastou Alcolumbre se movimentar sem
alarde, até participando risonho de eventos no Planalto, para garantir a
primeira rejeição de um nome indicado ao STF em 132 anos.
A visão histórica sobre o que representa a
derrota, no entanto, será definida pelo que pode significar para o futuro do
país. Nos próximos dias ou semanas, Lula deverá exercer sua prerrogativa de
indicar outro nome ao STF. Seja adotando uma estratégia de enfrentamento, seja
optando pela conciliação, não terá desculpas para deixar de se engajar
intensamente nas negociações, algo que não fez durante a busca de Messias por
votos.
Caso perca essa indicação, Lula transformará
a eleição de outubro num vale-tudo ainda maior do que já se anuncia. Os
eleitores não escolherão “apenas” quem comandará o país pelos próximos quatro
anos, mas também se liberdades individuais e políticas públicas estabelecidas
há décadas poderão ser revertidas por uma nova maioria construída pelas quatro
vagas que serão abertas até o fim de 2030 no Supremo.
A possibilidade de desmonte do Estado
brasileiro como conhecemos poderá se tornar a plataforma preferencial de
aventureiros. E a sobrevivência deste, a tábua de salvação de quem já não tem
grandes novidades a oferecer.
*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO

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