domingo, 17 de maio de 2026

Perda de vida dos espaços sociais, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A maior ameaça à vitalidade da cidadania está hoje no caos criminogênico dos clãs cuja tendência é a desvitalização

Com a proximidade das eleições, agudiza-se a preocupação com a saúde da democracia entre nós

Daniel Vorcaro: "Fala irmãozão ro (sic) na igreja, terminando te chamo". Flávio Bolsonaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!" Nesta troca de mensagens entre o maior fraudador financeiro da história do país e o candidato da ultradireita à Presidência, "luz" tem novo sentido: dinheiro. Mais precisamente, R$ 134 milhões; destes, R$ 61 milhões já haviam sido destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro e que, pelo visto, sumiram no caminho. Agora, o rachadão, farisaico: "O que tem demais?"

É outra maneira de dizer que presidir a República não requer moralidade nenhuma, nada é demais num espaço sem valor. Por isso, com a proximidade das eleições, agudiza-se a preocupação com a saúde da democracia entre nós. Exaustivo é o balanço das crises de sentido não mais assimiladas por visões de mundo supostamente hegemônicas. Fala-se do esvaziamento da representação política, da corrosão institucional, da falência do progresso como horizonte coletivo, mas nada da desvitalização do espaço-campo de todas as ações sociais. Talvez esse espaço não mais esteja sendo vivido.

É que o sentimento de ausência de vida perpassa hoje a cidadania em toda a diversidade dos segmentos sociais. A mesma falta de convicção de que se vive sob a regência concreta de um valor identificado como democracia. Valor é princípio de orientação da vida e, entre nós, construído principalmente pela razão discursiva. Mas vale atentar para João Cabral de Melo Neto: "É difícil defender, só com palavras, a vida" (em "Vida e Morte Severina").

Esse é o impasse do progressismo entregue a análises sócio-históricas com palavras esvaziadas por crises moleculares (microestruturais e psíquicas). O espaço social imediato, moldado por capital financeiro e fluxos eletrônicos, dissocia-se da esfera do possível das ações individuais, ampliando a uniformidade do vazio e da indiferença às condições vitais de existência. Depressão psíquica espreita a falta de sentido e de esperança.

Nessa conjuntura sócio-histórica, expressões antes tidas como vitais (crescimento do PIB, conquistas sociais etc.) não mais repercutem num eleitorado submerso na miséria objetiva de macrorrealizações distanciadas da vida cotidiana. A própria ideia de democracia deixa de mobilizar identificações, relegando o pleito eleitoral ao ressentimento e às fantasias compensatórias que brotam no lodaçal do extremismo de direita. A corrupção pode até ser esquecida se fizer parte do jogo.

Existe também anestesia coletiva. Mas não é lavagem cerebral que faz um zero cívico competir nas pesquisas com o atual presidente: a memória volátil dos 57% de eleitores é variável importante. Irmãozãos e corruptores contam com isso. E o Lula global ainda não encontrou o mapa de um espaço interno compatível com estabilidade social. A maior ameaça à vitalidade da cidadania está hoje no caos criminogênico dos clãs, cuja tendência é a desvitalização, senão o desmonte do Estado. Não é mais caso de "pacote" pré-eleitoral enxuga-gelo, e sim de um durável pacto nacional de classes contra o crime e seus rebentos antidemocráticos.

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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