O Estado de S. Paulo
Xi Jinping elevou Taiwan ao topo da agenda nas relações com os EUA, de forma ameaçadora. Todos os outros pontos de disputa passam pela ilha aliada dos EUA e cobiçada pela China: o acesso chinês a chips sofisticados, o acesso americano a minerais críticos, o aumento das exportações americanas e a ajuda de Xi na solução do impasse com o Irã.
“Se Taiwan for tratada adequadamente, as relações China-EUA desfrutarão de estabilidade geral”, disse Xi a Donald Trump, em Pequim. “Se for tratada de forma inadequada, os dois países poderão colidir ou até entrar em conflito, empurrando toda a relação ChinaEUA para uma situação extremamente perigosa.”
Xi também pontuou: “Todos nós precisamos
trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides”.
Eu assisti à palestra de Graham Allison no
lançamento do livro Destinados à Guerra: Podem a América e a China Escapar da
Armadilha de Tucídides, em 2018, no auditório lotado da Universidade Fudan, em
Xangai. Allison analisou 16 casos ao longo da história de nações emergentes que
contestam a hegemonia de potências. Em 12 deles, a disputa levou à guerra. O
livro, que impactou o establishment chinês, discute como evitar que isso se
repita entre China e EUA.
AMBIGUIDADE. Na menção de Xi estão embutidas
premissas incômodas para os EUA: de que a China, como Atenas, exibe um sistema
superior, que sua ascensão é inexorável e que cabe a Trump escolher se será
pacífica ou mediante uma guerra do Peloponeso com armas nucleares e
inteligência artificial.
Indagado sobre se defenderia Taiwan, Trump
seguiu a tradicional ambiguidade estratégica: “Essa pergunta me foi feita pelo
presidente Xi. Eu disse: ‘Eu não falo sobre isso. Só existe uma pessoa que sabe
disso, e sou eu’”.
Mas ele demonstrou falta de apetite para uma
guerra por Taiwan e fadiga com a guerra contra o Irã: “Acho que a última coisa
de que precisamos agora é de uma guerra a 9,5 mil milhas (cerca de 15,2 mil km)
de distância. Nós estamos a 9,5 mil milhas. Ele está a 67 milhas. É uma pequena
diferença”.
A TSMC fabrica em Taiwan 90% dos chips mais
sofisticados, incluindo os da americana Nvidia. A política industrial de Trump
possibilitou a criação de um câmpus da empresa taiwanesa no Arizona. Lá se
realizam as etapas iniciais, como litografia e gravação dos circuitos nos
wafers de silício. Mas eles precisam ser enviados para Taiwan para concluir as
etapas seguintes, como encapsulamento, integração 3D e montagem nos substratos.
A ilha contém o cluster de serviços necessários ao ecossistema dos chips. Replicá-lo levaria décadas. Daí a centralidade de Taiwan para a dominância tecnológica. É isso que está escapando das mãos dos EUA.

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