domingo, 17 de maio de 2026

O poder de uma ilha entre potências, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Xi Jinping elevou Taiwan ao topo da agenda nas relações com os EUA, de forma ameaçadora. Todos os outros pontos de disputa passam pela ilha aliada dos EUA e cobiçada pela China: o acesso chinês a chips sofisticados, o acesso americano a minerais críticos, o aumento das exportações americanas e a ajuda de Xi na solução do impasse com o Irã.

“Se Taiwan for tratada adequadamente, as relações China-EUA desfrutarão de estabilidade geral”, disse Xi a Donald Trump, em Pequim. “Se for tratada de forma inadequada, os dois países poderão colidir ou até entrar em conflito, empurrando toda a relação ChinaEUA para uma situação extremamente perigosa.”

Xi também pontuou: “Todos nós precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides”.

Eu assisti à palestra de Graham Allison no lançamento do livro Destinados à Guerra: Podem a América e a China Escapar da Armadilha de Tucídides, em 2018, no auditório lotado da Universidade Fudan, em Xangai. Allison analisou 16 casos ao longo da história de nações emergentes que contestam a hegemonia de potências. Em 12 deles, a disputa levou à guerra. O livro, que impactou o establishment chinês, discute como evitar que isso se repita entre China e EUA.

AMBIGUIDADE. Na menção de Xi estão embutidas premissas incômodas para os EUA: de que a China, como Atenas, exibe um sistema superior, que sua ascensão é inexorável e que cabe a Trump escolher se será pacífica ou mediante uma guerra do Peloponeso com armas nucleares e inteligência artificial.

Indagado sobre se defenderia Taiwan, Trump seguiu a tradicional ambiguidade estratégica: “Essa pergunta me foi feita pelo presidente Xi. Eu disse: ‘Eu não falo sobre isso. Só existe uma pessoa que sabe disso, e sou eu’”.

Mas ele demonstrou falta de apetite para uma guerra por Taiwan e fadiga com a guerra contra o Irã: “Acho que a última coisa de que precisamos agora é de uma guerra a 9,5 mil milhas (cerca de 15,2 mil km) de distância. Nós estamos a 9,5 mil milhas. Ele está a 67 milhas. É uma pequena diferença”.

A TSMC fabrica em Taiwan 90% dos chips mais sofisticados, incluindo os da americana Nvidia. A política industrial de Trump possibilitou a criação de um câmpus da empresa taiwanesa no Arizona. Lá se realizam as etapas iniciais, como litografia e gravação dos circuitos nos wafers de silício. Mas eles precisam ser enviados para Taiwan para concluir as etapas seguintes, como encapsulamento, integração 3D e montagem nos substratos.

A ilha contém o cluster de serviços necessários ao ecossistema dos chips. Replicá-lo levaria décadas. Daí a centralidade de Taiwan para a dominância tecnológica. É isso que está escapando das mãos dos EUA.

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