domingo, 17 de maio de 2026

Um dia, a verdade, por Dorrit Harazim

O Globo

Operação abafa procurou desacreditar os testemunhos por se originarem de militantes interessados em difamar Israel

O New York Times não é um grande jornal qualquer. Ainda hoje, aos 175 anos bem vividos, continua sendo leitura obrigatória pelo alcance global do que publica. Nicholas Kristof tampouco é um colunista qualquer. Sua carreira de mais de quatro décadas no jornalão já lhe valeu dois prêmios Pulitzer e reconhecida credibilidade mundo afora. Daí a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao longo artigo de Kristof publicado no domingo passado sob o título “O silêncio acompanha o estupro de palestinos”. Diante do que chamou de “uma das mentiras mais hediondas e distorcidas já publicadas contra Israel na imprensa moderna”, Netanyahu anunciou que processará o jornal por difamação.

Caso a ação judicial venha de fato a ser apresentada (poucos consideram provável), teremos um embate histórico pela verdade. As consequências de uma investigação judicial podem mudar a imagem que Israel tem de si, e a imagem que o mundo do pós-Segunda Guerra tinha de Israel. Isso porque, para rebater as alegações contidas no artigo, o país teria de abrir suas prisões, seus porões, suas práticas prisionais a inspetores independentes.

Na outra ponta do embate, estaria em jogo a credibilidade do New York Times, a biografia de Kristof e, de certa forma, o já tão vilipendiado exercício do jornalismo.

O colunista conta ter entrevistado 14 ex-detentos palestinos (homens e mulheres) que relataram ter sido submetidos a violências sexuais generalizadas por soldados, guardas prisionais, interrogadores ou colonos israelenses. Kristof diz não haver “evidência de que autoridades israelenses ordenassem estupros”, mas soma sua voz à de um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Gaza, segundo o qual autoridades israelenses montaram um “aparelho de segurança em que a violência sexual se tornou um dos procedimentos operacionais padrão”.

Anteriormente, entidades como Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Save the Children, B’Tselem, Breaking the Silence (que há 21 anos agrupa denunciantes das próprias Forças de Defesa de Israel ) e Euro-Med Human Rights Monitor têm documentado alegações de humilhações sexuais e torturas de amplo espectro. Rebatidos pela eficiente máquina de propaganda do Estado judeu por disseminar antissemitismo e ódio a Israel, esses relatórios costumavam ser minimizados. Da mesma forma que os dados sobre a dizimação da população palestina de Gaza produzidos pelo Ministério da Saúde sob controle do Hamas foram longamente tachados de fantasiosos por Israel.

Desta vez, a operação abafa colocada em marcha procurou desacreditar o valor dos testemunhos por se originarem de militantes palestinos interessados em difamar Israel. O primeiro erro dessa linha de acusação é factual: no artigo de Kristof, parte das testemunhas levava uma vida de palestino comum, não militante. O segundo erro é de natureza moral: sendo filiados ao Hamas ou militantes a favor da Palestina, merecem então qualquer tratamento ignóbil?

Tome-se o exemplo do jornalista freelancer Sami al-Sai, de Gaza, que relatou ter sido imobilizado, despido, vendado, algemado e filmado enquanto era “montado” por um cão adestrado. O fato de al-Sai ter festejado como triunfo palestino o massacre de israelenses por terroristas do Hamas no infame 7 de Outubro de 2023 justifica ele ser sexualmente humilhado por um cão, quando sob custódia do Estado?

No dia seguinte à publicação do artigo de Kristof, Israel divulgou o aguardado relatório sobre a violência sexual cometida pelos terroristas durante o 7 de Outubro. A Comissão Civil sobre os Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças trabalhou nele por dois anos e concluiu que atos de estupro e humilhação sexual de todo tipo ocorreram naquele dia, com prolongamento no período de cativeiro dos reféns. São centenas de depoimentos, vídeos e fotos que descrevem brutalidades infinitas, mas omitem identificações e limitam a transparência, em parte para resguardar as vítimas.

Há uma diferença crucial entre os dois levantamentos: o relatório da Comissão trata de crimes sexuais cometidos por uma organização terrorista (Hamas) que praticou crimes horrendos contra civis; a apuração de Kristof, somada à das entidades citadas, trata de denúncias de tortura sistemática praticada por agentes do Estado ou acobertados pelo Estado de Israel. Dois meses atrás, quando a atenção mundial se situava na guerra contra o Irã, o Tribunal Militar israelense rejeitou as acusações contra os cinco últimos soldados que respondiam por uma selvagem agressão sexual que se tornou notória em 2024. Dez soldados e um cão haviam participado da violência contra um detento, que sofreu laceração no reto, e foi captada parcialmente por uma câmera interna.

À época, 67% dos israelenses se declararam contrários ao julgamento dos acusados. Yoel Donchin, anestesista do hospital adjacente à prisão de Sde Teiman, onde teria ocorrido o crime, teve a humanidade de relatar o que viu. Coragem é a resistência ao medo, não ausência de medo.

 

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