domingo, 12 de março de 2023

Muniz Sodré* - Alienistas à solta

Folha de S. Paulo

Inferno, dizia Machado de Assis, 'é o hospício dos incuráveis'

Uma certa psiquiatria tem contas a prestar à Justiça. Não à toa, um saudoso amigo revelou-me certa vez a circunstância de sua exclusiva dedicação à psicanálise: "Uma paciente me curou da psiquiatria. Num encontro de rua, me surrou com um guarda-chuva, chamando-me de carcereiro". Esse incidente com um grande profissional do ramo, já falecido, vem à mente a propósito de um recente episódio de sequestro no bairro machadiano do Catete, zona sul do Rio.

Segundo o jornal, uma senhora de 65 anos fazia seu passeio matinal no Catete, do qual ainda se diz que é um passeio pela história, quando foi abordada por dois homenzarrões, que a enfurnaram numa ambulância. Ali começava uma absurda pequena história. Levada a uma clínica psiquiátrica em Petrópolis, foi internada num quarto exíguo, onde passou um dia sem água e alimentos. Gritou por socorro ante os olhares indiferentes de médicos e enfermeiros.

Terminou descobrindo que a filha havia pedido a sua internação até que se retratasse de uma queixa apresentada a autoridades sobre maus tratos aos netos. Transferida para outra clínica na mesma região, conseguiu comunicar-se com a polícia carioca, mais de duas semanas depois. A delegacia levou a denúncia a sério, resgatou a idosa, prendeu a filha e o marido. Ao que tudo indica, lhe cobiçavam também a pensão.

Inferno, dizia Machado de Assis, "é o hospício dos incuráveis". A vítima da abominação conheceu dias infernais, mas resta saber a quem se aplica hoje a palavra "incurável", se aos internos ou aos guardiões. É espantoso que, num século de informação exponencial sobre o ser vivo e seu psiquismo, se possa capturar e reter num hospício uma pessoa, sem qualquer avaliação racional. Disso Machado fez obra-prima, "O Alienista". Agora, são caso de polícia as clínicas e a própria "ciência" carcereira.

Nesse episódio extravagante, é esdrúxulo, embora não surpreendente, o fato de que a filha acusada portava uma arma no instante da prisão, a mesma que aparece empunhando nas redes, vestida com uma camiseta do inominável, na data seguinte à invasão aos Três Poderes. Na teia da criminalidade, um fio puxa outro, e já se começa a investigar a morte do irmão em circunstâncias suspeitas, no ano passado.

Reiteração criminosa é a designação policial para o fenômeno. Inevitável ligá-lo a outros incidentes sob o clima tóxico do passado recente, que cobrem um espectro de homicídios e destruições em surtos de fúria explosiva. A cara do inominável não é mera caricatura: ainda parece funcionar como pavio inflamável de um foco alucinatório, que trouxe de porões e cloacas a matéria criminogênica da teia incivil, normalizando o pior. Nela se juntam alienados e alienistas.

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de "A Sociedade Incivil" e "Pensar Nagô".

 

Um comentário:

Anônimo disse...

"Reiteração criminosa". Sim, é a sequência de crimes cometidos por Jair Bolsonaro e sua quadrilha (ou seu ministério), desde a posse até a fuga covarde para os EUA no último dia do mandato.