Folha de S. Paulo
A cerimônia que lançou Ronaldo Caiado como
pré-candidato do PSD à Presidência contou com um gesto politicamente relevante:
o apoio público do bispo Samuel
Ferreira. O episódio expõe a fragilidade do vínculo entre Flávio
Bolsonaro e parte expressiva das lideranças evangélicas.
Ferreira comanda uma das principais estruturas do pentecostalismo brasileiro: a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira (Conamad). Uma rede, como o bispo anunciou, com 42 mil templos distribuídos pelo país e cerca de 102 mil pastores.
Flávio perdeu o acesso a uma das maiores
organizações religiosas do país. O apoio de Ferreira a Caiado foi comunicado
diretamente aos pastores da denominação —um gesto que explicita o cálculo que
outras lideranças também fazem.
Bolsonaro, já se posicionou contra
a indicação de Flávio. Outras lideranças relevantes calam, por cálculo.
Flávio mantém uma relação distante com
Michelle Bolsonaro, hoje uma das principais
pontes com o eleitorado evangélico, especialmente entre as
mulheres.
Há também um problema de autenticidade. Jair
Bolsonaro nunca se apresentou como evangélico. Flávio tenta ocupar esse lugar,
mas sem repertório nem familiaridade com os códigos do meio. Episódios como
postagens em locais sagrados em Israel são lidos, por parte desse público, como
desrespeito e também manipulação.
Isso se conecta a uma questão central para
pastores e lideranças: a quem Flávio responde dentro do campo religioso? Ele
não está vinculado de forma clara a uma igreja ou a um pastor de referência.
Essa ausência gera uma dúvida: ele cumprirá seus acordos?
O histórico recente reforça a cautela. O
deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) pediu apoio para disputar a
Prefeitura do Rio de Janeiro em 2024, foi ignorado pelo bolsonarismo e se
afastou. Sua igreja hoje apoia Caiado como alternativa conservadora para quem
vê no bolsonarismo uma forma de idolatria.
Flávio ainda carrega passivos políticos
conhecidos, que tendem a ser explorados durante a campanha. Para pastores, o
custo de associação pode ser alto: apoiar um candidato sob suspeita tende a respingar
na reputação da
igreja.
Esse custo cresce em um contexto de mudança
no comportamento do eleitorado evangélico. Pesquisa do INCT
ReDem/UFPR indica que cerca de 75% dos evangélicos rejeitam a
presença de política nos púlpitos. Se o candidato é controverso, mais membros
tendem a se distanciar da denominação —levando seus dízimos.
Há, por fim, a sensação de que as grandes
lideranças foram traídas. Flávio tirou do páreo o governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas. Sem escândalos relevantes, com experiência executiva e
maior familiaridade com o universo cristão, ele seria um nome mais fácil de
defender nos cultos.
Com o policiamento bolsonarista, outras
igrejas devem evitar se posicionar no primeiro turno —e atuar com menos
entusiasmo caso Flávio enfrente Lula no segundo. Para a direita evangélica, a
fragmentação é real.
*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

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