terça-feira, 7 de abril de 2026

‘A Prática da Estratégia’, por Paulo Hartung

O Estado de S. Paulo

Relevante é um olhar à estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo

Um mestre do planejamento no Brasil acaba de lançar um livro de referência sobre o tema. Em A Prática da Estratégia, Claudio Porto reúne conceitos fundamentais, dicas e um passo a passo para implementação de iniciativas e estudos de caso – nacionais e internacionais –, a partir de sua experiência de mais de meio século como estudioso e consultor nessa área. Na apresentação, o autor assinala que “o livro foi escrito para pessoas que protagonizam a construção do futuro de algo de interesse comum”. Esses “agentes podem se organizar como entes privados, públicos ou híbridos, formais ou informais”, tendo um “futuro desejado em comum e não efêmero”. Nesse contexto, a estratégia “é o produto ou o instrumento dos agentes para orientar e fazer a construção do futuro que eles desejam”.

Já de começo, ao conjugar numa mesma frase verbos aparentemente tão distintos como construir e desejar – um, afeito à ação racional e o outro, vocação para a inspiração, a criatividade e a inventividade –, bem se percebe a sabedoria em forma de texto, amalgamando razão e sensibilidade. Como um convite à leitura, compartilho mais alguns trechos que ilustram a clareza e o saber que só os mestres podem alcançar. Acerca do conceito de estratégia que, nestes tempos de especialistas da internet, se multiplica tão grosseiramente quanto velozmente, Claudio Porto ensina com lucidez e perspicácia.

“Estratégia é uma tríade que articula antecipação, escolha e ação por parte de um agente intencional, inserido em um contexto mutante, para um horizonte de longo prazo e sempre sob condições de incerteza. Essa tríade, quando integrada por um esforço de gestão deliberado e conduzido por uma liderança inspiradora, focada e agregadora, tem maiores chances de produzir e entregar, por parte do agente, um desempenho superior e sustentável no longo prazo.” E ainda: “Estratégia é um instrumento humano, empregada por agentes intencionais – empresas, governos, organizações sem fins lucrativos, líderes, comunidade, partidos políticos e/ou grupos de pessoas – para influenciar a construção do futuro desejado em um determinado campo de interesse. Toda estratégia envolve um conjunto de agentes e seus contextos (ou ambientes), externo e interno, e deve ser constituída por dois ingredientes essenciais: visão de futuro e intencionalidade.”

Tenho a honra de participar do livro, generosidade que agradeço ao admirável Claudio Porto, em dois momentos. No capítulo sobre “Escolha”, o autor relata o caso “Espírito Santo: da submissão ao crime organizado a estado mais pujante do Sudeste”. Aqui, Porto conta a virada histórica que, a partir das eleições de 2002, com intensa mobilização da sociedade civil, pudemos liderar no sentido de livrar as terras capixabas dos grilhões da criminalidade que sombreava os poderes e ainda criar um ambiente de estabilidade político-institucional que fomentou um novo tempo de desenvolvimento socioeconômico na trajetória capixaba.

Também participamos no capítulo sobre “Gestão”, fator crucial no planejamento: “Sincronizar e coordenar a antecipação, a escolha e a ação – na substância e na alocação de responsabilidades (sempre especificando quem faz o quê) – em tempo hábil (determinando claramente os prazos), dedicar-se à execução da trajetória originalmente planejada, ajustá-la quando necessário e, necessariamente, manter o rumo é o que possibilitará entregar os resultados almejados”.

No caso narrado – “Paulo Hartung: Gestão de sinais e pragmatismo” –, Claudio Porto fala do nosso primeiro encontro, no início do primeiro dos meus três mandatos à frente do Executivo estadual (2003-2010 e 20152018). E considera o que se seguiu: “Uma história de sucesso construída com muito trabalho, entusiasmo, energia, foco e método”, e que “ganhou impulso e visão de futuro de longo prazo com a elaboração do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025”. Mas, com seu olhar estratégico, Porto alerta: “Nos últimos tempos, porém, o ímpeto do Espírito Santo arrefeceu. (...) O ímpeto e a agenda predominante estão presos ao século 20. Creio que um novo impulso no Espírito Santo só deverá ocorrer com uma mudança de geração e do mindset de suas lideranças. A conferir”.

A Prática da Estratégia já nasce verdadeiramente com um clássico – na definição de Italo Calvino –, aquele livro “que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Incompatível aqui é a temporalidade do instantaneísmo e que, por isso mesmo, refuta o futuro como horizonte passível de formulação e conquista.

Como o futuro é uma dimensão concreta da existência e que resiste às decretações de seu fim, diante do imperativo inclemente do agora, o planejamento estratégico mantém-se como “ruído” mais que relevante, inclusive pelo desprezo e irresponsabilidade com que esta nossa sociabilidade prisioneira do instante o trata.

Especialmente relevante é um olhar sobre a estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo e tudo o mais de prejuízo que tal desperdício enseja. Em tempos de liquidez desnorteante e inconsequência política atordoante, Claudio Porto ensina com maestria o caminho para se vislumbrar, projetar e conquistar horizontes desejados.

 

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