O Globo
Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a
janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso
e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador
Flávio Bolsonaro.
O encerramento da janela partidária provocou uma reorganização do sistema político brasileiro, mantendo, porém, a predominância de partidos da direita. Houve crescimento do PL — que está com a maior bancada, próxima dos cem deputados federais —, diminuição significativa do União Brasil e crescimento, em número de parlamentares e em influência nacional, do PSD. Este cresceu no Rio Grande do Sul, no Nordeste e em estados-chave como Minas e São Paulo. Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.
O PT manteve-se como o principal partido de
esquerda, sem perdas. Mas a esquerda perdeu parlamentares que eram do PDT. O
PSB cresceu nesse espectro partidário. Além de confirmar a tendência já
registrada de apoio ao candidato do PL, as trocas partidárias reafirmaram a
força das siglas mais estruturadas, que têm acesso aos recursos partidários e
melhores condições de enfrentar as cláusulas de barreira. O crescimento de
partidos como PL e PSD tornou o Centrão menos influente, embora continue sendo
um importante eixo do sistema partidário brasileiro.
A atração exercida pelo PL se explica por
diversos fatores, como força eleitoral óbvia na próxima campanha presidencial e
acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário. O partido busca ser o
agregador de forças conservadoras e liberais, papel disputado com o PSD, que
não por acaso tem também um candidato à Presidência de direita, o ex-governador
de Goiás Ronaldo Caiado. É um quadro de hoje, mostrando que Flávio tem uma
candidatura sólida. Isso fez com que muita gente quisesse estar no partido
vencedor. Mas é sinal também de que Caiado representa parte da direita e de que
o PSD pode fechar acordo com Flávio para o segundo turno, se é que ele será
mesmo o representante da direita — pode ser que perca força durante a campanha,
quando começar a ser atacado.
A candidatura de Caiado trabalha com a
possibilidade de vir a substituir Flávio durante a corrida presidencial, caso
ele não resista aos ataques que certamente sofrerá, e não apenas do PT. Não foi
por acaso que, ao ser anunciado candidato do PSD, Caiado fez seu primeiro
pronunciamento afirmando que dará anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a
todos os condenados do 8 de Janeiro. Com isso, quis se colocar diante do
eleitor de direita e extrema direita como alternativa viável, caso Flávio não
confirme sua liderança.
Ao mesmo tempo, embrulhou a promessa numa
pretensa “união nacional”, dando ao ato que o afasta do eleitor de centro um
caráter menos ideológico. Um retrato do PSD de Gilberto Kassab, que tem uma
perna na canoa da direita e outra na da esquerda, mantendo ministérios no
governo Lula. A ponto de alguns terem defendido que fosse o vice-presidente na
chapa de Lula.
O PL já era o partido mais forte desde
Bolsonaro e está se reforçando porque Flávio surpreendeu e está sólido na
campanha, embora complique a situação junto aos moderados de direita quando abre
a boca. Assim como disputa com o presidente Lula quem é o mais rejeitado,
também disputa quem produz mais gafes. Na semana passada, Flávio deixou de
jogar parado para defender posições absurdas numa reunião de conservadores e
direitistas nos Estados Unidos. Voltou a levantar dúvidas sobre as urnas
eletrônicas, afirmando que só perderá a eleição se houver fraude, e ofereceu as
terras-raras, objeto de desejo de Donald Trump, em troca do apoio do governo
americano à sua candidatura.
À medida que a campanha eleitoral exigir que
se posicione, Flávio terá dificuldades para confirmar seu caráter moderado. A
escolha do vice será um bom teste. A ex-ministra Tereza Cristina seria
indicação de moderação e significaria uma inserção na comunidade do agro que
abalaria Caiado. Mas o ex-governador de Minas Romeu Zema tem mais consistência
política, embora tenha postura mais radicalizada.

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