Correio Braziliense
Ao mobilizar o potencial intelectual de seus
200 milhões de habitantes, um sistema nacional público único de educação básica
faria do Brasil uma das cinco maiores economias globais
O Brasil não gosta de ideias que ameacem seu status quo social, especialmente a divisão da população entre um "andar de cima", formado pela elite rica, e um "andar de baixo", composto pelo povão. A única ideia ousada foi a abolição da escravatura sem indenização aos proprietários. Depois de 350 anos, cerca de 800 mil escravizados foram soltos, mas temia-se que a agricultura não funcionaria sem o trabalho escravo e que a elite perderia seus serviçais negros.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram
soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para
caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor
continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de
qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados
abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo
na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de
Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os
filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias
moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só
foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um
Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo
terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de
vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em
2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda
assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do
século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a
criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma
qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão,
independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende,
corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não
avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias.
Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos
abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil
se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial
intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente
de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e,
nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre
por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso
dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística;
a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica,
tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a
Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio
educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos
dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de
esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na
mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a
barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo
raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das
quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta
chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe
pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de
sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que
seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que
perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas
escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal
centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como
dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria
o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a
produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o
talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social,
pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um
país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na
tecnologia, na cultura e na diplomacia.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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