quarta-feira, 15 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Modernizar portos é essencial para segurança

Por O Globo

Quadrilhas do narcotráfico se aproveitam de atraso para exportar droga e financiar atividades ilegais

Um país acossado por organizações criminosas transnacionais que dependem das rotas do tráfico para enviar drogas ao exterior deveria vigiar melhor seus portos. Lamentavelmente, não é o que acontece. Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) publicado no mês passado ressalta que as autoridades enfrentam fragilidades tecnológicas, falhas de coordenação institucional e a falta de uma estratégia nacional integrada para combater o narcotráfico, como mostrou reportagem do GLOBO.

Padrão internacional adotado em terminais europeus e latino-americanos, o Sistema de Informações de Gerenciamento de Tráfego de Navios (VTMIS) existe apenas no Porto de Vitória. Integra radares, sensores e outros sistemas permitindo monitoramento contínuo. “O VTMIS é um plano do Porto de Santos há anos”, diz Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP). “Sua ausência deixa vulneráveis as áreas mais remotas, longe do cais.” Portos como Santos, Paranaguá, Suape ou Itajaí não dispõem nem da versão mais simples do sistema, o Serviço de Tráfego de Embarcações (VTS). Além do aperfeiçoamento tecnológico, o TCU propõe também melhor integração entre Receita e Polícia Federal (PF) para evitar sobreposição de atividades.

As quadrilhas têm diversificado seus métodos e adotado estratégias cada vez mais sofisticadas para burlar a vigilância. Chegam a prender pacotes de cocaína ao casco dos navios com ajuda de mergulhadores, içam carregamentos clandestinos em alto-mar ou inserem a droga em contêineres com cargas insuspeitas. Também têm usado com mais frequência rotas menos visadas pelas autoridades e portos fora do eixo Rio-São Paulo.

É certo que, dentro de suas limitações, as autoridades não têm deixado de agir. Somente no Porto de Santos, Receita e PF apreenderam desde janeiro mais de uma tonelada de cocaína escondida de diferentes formas: no casco de navios, misturada a carregamentos de papel, óleo de soja ou no forro do teto de um caminhão que transportava contêineres a uma embarcação. Mas as ações não são tão eficazes quanto poderiam. Não surpreende que carregamentos consigam furar os bloqueios. Em janeiro, a polícia da Espanha apreendeu 10 toneladas de cocaína num navio que fizera escala no Brasil.

É boa notícia que a instalação de VTMIS esteja prevista no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para os portos de Santos, Rio de Janeiro, Itaguaí e Itaqui, ao custo de R$ 50 milhões. Mas, diante do crescimento das facções criminosas, os sistemas já deveriam estar em funcionamento. O país precisa dispor de tecnologia de ponta para vigiar os portos. Não pode ficar para trás.

O combate ao tráfico internacional não desafia apenas o Brasil. O crime ocorre também em portos do exterior. Mas precisa ser enfrentado. O país acaba de criar uma Lei Antifacção, e uma Proposta de Emenda à Constituição com foco na atuação de organizações criminosas tramita no Congresso. É fundamental agir em todas as frentes. A exportação de grandes quantidades de droga capitaliza as quadrilhas, permitindo que comprem armas e equipamentos cada vez mais sofisticados para enfrentar o Estado. Interceptar esse fluxo, apreendendo a droga, é uma maneira eficaz de asfixiá-las financeiramente. Quanto mais bem preparado o país estiver para isso, melhor.

Sem competição, Brasil seguirá na retaguarda da indústria global

Por O Globo

País ficou na 64ª posição entre 83 países em ranking que mede expansão da atividade industrial

O Brasil fechou 2025 na vexatória 64ª posição entre 83 países no ranking global que mede o ritmo de expansão da atividade industrial, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) a partir de dados da agência da ONU para promoção do desenvolvimento da indústria. Foi a pior colocação desde 2022, quando o país ocupou o 71º lugar. O resultado não surpreende. Como a indústria local cresce abaixo da média global, o Brasil tem lugar quase cativo na metade de baixo da lista.

Empresários do setor culpam os juros altos pela queda recente no ranking. É verdade que o endividamento inibe o consumo, e o custo do dinheiro penaliza o financiamento ao capital de giro. Mas também é verdade que, além desses fatores conjunturais, a indústria brasileira enfrenta problemas estruturais faz tempo. A manufatura nos países mais avançados se baseia nos ramos de alta tecnologia, onde estão os maiores investimentos em automação, digitalização e sustentabilidade. No Brasil, esses segmentos mais dinâmicos não chegam a um terço da indústria, ante quase 50% nos países avançados.

Historicamente, a indústria brasileira investe pouco no desenvolvimento de novas tecnologias e apresenta baixa taxa de adoção de tecnologias desenvolvidas fora do país. Por aqui sempre prevaleceu a estratégia de manter tarifas alfandegárias nas alturas para proteger um parque industrial obsoleto. As barreiras podem ter motivado muitos estrangeiros interessados em explorar o mercado interno a se instalar no Brasil, mas também serviram de empecilho a que o país conectasse a produção local às cadeias globais de suprimentos.

Não surpreende que os 25 países mais pobres sejam os que adotam as tarifas mais altas, o dobro da taxa observada em economias de alta renda, segundo relatório recente do Banco Mundial. Economias de renda média-alta são pródigas em subsídios que elevam custos para praticamente todas as demais empresas e se perpetuam como distorção e ineficiência no mercado. Um agravante no caso brasileiro foi a manutenção por décadas de uma estrutura tributária bizantina. Decisões de investimentos eram tomadas levando em conta vantagens nos impostos, não a eficiência da produção.

É possível que, nos próximos anos, uma nova dinâmica ajude a transformar a realidade da indústria brasileira. A implantação da reforma tributária promete no mínimo reduzir as distorções. E o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia criará um ambiente mais propício ao aumento da competitividade. O Brasil tem de intensificar os esforços para abrir mais a economia à competição internacional. O nível baixo de concorrência garante a sobrevivência dos piores e limita o crescimento dos melhores. Claro que uma política fiscal responsável que ajude a baixar os juros também é fundamental. Mas, sem competição para valer, o Brasil seguirá na retaguarda do ranking da indústria global.

Um Supremo mais contido defenderá melhor a democracia

Por Folha de S. Paulo

Segundo o Datafolha, maioria acha que a corte é sustentáculo das liberdades, mas que acumulou poder demais

Demagogia, como a tentativa de indiciar três ministros, é o que o STF estimula quando evita reformas e protege alguns de seus membros

Denotam sabedoria popular os principais resultados da pesquisa Datafolha mais recente sobre o Supremo Tribunal Federal. Mais de 70% reconhecem o papel essencial da corte para a democracia. Maioria equivalente concorda que o colegiado acumulou poder demais.

Implícito no diagnóstico dessa amostra, representativa de dezenas de milhões de brasileiros, há de estar o valor atribuído ao tribunal como anteparo intransponível às tentativas de assalto autoritário encabeçadas por Jair Bolsonaro (PL) enquanto ele ocupou a Presidência da República.

Decerto também eleva essa conta de alta estima popular a coragem dos supremos magistrados ao julgarem e condenarem o ex-presidente e assessores civis e militares que tramaram subverter a ordem constitucional após terem sido derrotados nas urnas.

De outro lado, as derrapagens e exorbitâncias de ministros do STF tampouco passaram despercebidas pelo crivo dos cidadãos. Embasa-se em fatos a percepção de que o nível de poder acumulado ao longo dos últimos anos, em especial pelos juízes individualmente, tornou-se excessivo.

Os inquéritos abertos sem a devida provocação do Ministério Público e sustentados por anos a fio, a mistura dos papéis de investigador, vítima e julgador, as ordens de censura, as reviravoltas de jurisprudência e de balizas processuais e as canetadas que fulminaram multas por corrupção tornaram-se práticas usuais.

Quem pode muito por vezes alarga as fronteiras da própria conduta, pois crê-se imune à responsabilização. A promiscuidade de alguns ministros com escritórios de parentes e as relações impróprias com empresários interessados em julgamentos são decorrências compatíveis com a hipertrofia da corte.

A falta de empenho da maioria do tribunal na autocontenção e na autorreforma soma-se ao espírito de corpo que protege uma minoria do devido escrutínio. Isso estimula arroubos de demagogia na política, como o pedido de indiciamento de Alexandre de MoraesDias Toffoli e Gilmar Mendes pelo relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE).

Vieira faz politicagem com o tema porque seu faro de candidato à reeleição detectou sangue na água. Um relatório de 200 páginas sobre a relação entre Dias Toffoli e o Banco Master foi entregue pela Polícia Federal ao STF, mas isso não deflagrou nenhuma iniciativa investigatória da corte ou do procurador-geral, Paulo Gonet.

A população, como se vê pelo Datafolha, está consciente de que é preciso desbastar os superpoderes do Supremo Tribunal Federal para fortalecer, jamais enfraquecer, o seu papel de sustentáculo dos direitos fundamentais.

Em vez de sabotar a agenda reformista absolutamente razoável do presidente Edson Fachin, a maioria dos ministros deveria abraçá-la já. As consequências de persistir-se no encastelamento tendem a ser ruins não apenas para a corte mas para todo o país.

A caótica política peruana

Por Folha de S. Paulo

Eleições para escolher o 10º presidente em dez anos tiveram de ser prorrogadas devido a falha logística

Hipertrofia do Legislativo, incitada por dispositivo vago da Constituição, torna a permanência do vencedor no cargo incerta

Não é exagero usar o termo "caótico" para qualificar a política peruana. Não somente a população foi às urnas no último domingo (12) para escolher o 10º presidente em dez anos, como mais de 50 mil eleitores não conseguiram votar devido a falhas de logística.

Segundo autoridades, cerca de 13 pontos de votação não receberam o material eleitoral a tempo; por isso, o pleito prosseguiu no dia seguinte. Um funcionário do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, em espanhol) foi preso após assumir a responsabilidade pelo problema.

Com mais de 70% das urnas apuradas nesta terça-feira (14), Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000), liderava a corrida com 16,8% dos votos válidos. Em seguida, vinha Rafael López Aliaga (12,6%), representante da direita populista que se apresenta como um Donald Trump latino-americano.

Roberto Sánchez —ex-ministro de Pedro Castillo, presidente que tentou um golpe em 2022— chegou a aparecer em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, mas estava em quarto (10,5%). Com 11,7%, o centrista Jorge Nieto se aproximava de Aliaga.

Uma disputa no segundo turno é, portanto, inevitável.

Trata-se de um cenário de extrema fragmentação político-partidária. O pleito contou com 35 candidatos, um recorde na história eleitoral do país, dissipando votos e aproximando as taxas dos presidenciáveis. Tal fenômeno também se deu no primeiro turno do último pleito, em 2021, quando Pedro Castillo obteve 18,9%, e Keiko Fujimori, 13,4%.

Os peruanos também escolheram deputados e, pela primeira vez em 30 anos, senadores —a Casa foi recriada em 2024. E é no Legislativo que se concentra o poder. Tal desequilíbrio, aliado a escândalos de corrupção, é o responsável pela sucessão de presidentes em tão pouco tempo.

Um dispositivo vago da Constituição permite que o mandatário seja retirado do cargo devido a incapacidade moral e a partir de maioria simples no Parlamento.

Inflamando ainda mais o cenário, em 2025 o país viveu ondas de protestos, que a princípio reagiam à insegurança e, rapidamente, se voltaram contra a classe política. A violência é o tema que mais preocupa os peruanos.

A previsão é que o segundo turno ocorra em 7 de julho. Mas, sem reforma política e maior equilíbrio entre Legislativo e Executivo, a permanência do vencedor no cargo é incerta. Ainda pior, políticas públicas em prol da população perdem espaço para contendas partidárias.

Até Zema tem chance contra Lula

Por O Estado de S. Paulo

Datafolha indica que Lula pode perder no 2º turno até para candidatos hoje aparentemente inviáveis, revelando que eleitor farto do PT não depende de um Bolsonaro para derrotá-lo

A mais recente pesquisa Datafolha de intenção de voto à Presidência mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece em dificuldade no segundo turno contra todos os adversários testados – do hoje favorito Flávio Bolsonaro (PL) ao possível Ronaldo Caiado (PSD) e até ao improvável Romeu Zema (Novo). Em todos os casos há empate técnico, dentro da margem de erro.

Isso significa não só que Lula está em apuros, como também – e talvez principalmente – que o eleitorado farto do PT não depende de um Bolsonaro para derrotar Lula. Outros candidatos, muito mais bem preparados que Flávio Bolsonaro para exercer a Presidência da República, conseguem excelente desempenho no segundo turno. E todos eles têm a vantagem de ter baixa rejeição, ao contrário de Flávio, um senador medíocre que vai precisar dar muitas explicações sobre rachadinhas e milicianos ao longo da campanha, além de carregar o legado pavoroso do pai, Jair Bolsonaro, que inclui tentativa de golpe e condução irresponsável do País na pandemia de covid-19. Por tudo isso, levar Flávio ao segundo turno, como “poste” de Jair Bolsonaro, pode até mesmo aumentar as chances de Lula se reeleger, o que seria desastroso para o País.

No campo petista, é devastadora a dimensão da rejeição a Lula e ao seu governo, além do mau humor de parcela significativa do eleitorado diante de um possível quarto mandato. Quando confrontado com qualquer alternativa minimamente viável, mesmo incipiente, o presidente vê seu desempenho travado. Na prática, o Datafolha indica que praticamente metade dos brasileiros não deseja estender o mandato de Lula e está disposta a votar em quem surgir para enfrentá-lo. Diante disso, pouco importa, num primeiro momento, a densidade eleitoral do adversário. Num segundo turno, quando o voto passa a ser a escolha entre dois polos, até candidaturas hoje frágeis podem se tornar competitivas. Não por força própria, mas pela rejeição a Lula.

Esse fenômeno é parte do desgaste acumulado do governo. Como este jornal vem sublinhando, trata-se de uma administração marcada por mediocridade na entrega, incapacidade de produzir resultados consistentes e uma dependência excessiva de fórmulas já testadas – e esgotadas. A economia não se traduz em melhora perceptível no cotidiano, programas e políticas sociais se concentram em modelos do passado, o estatismo lulopetista é visto como inadequado para os anseios de autonomia e progresso dos cidadãos e a condução política permanece refém de um modelo concentrado de exercício do poder, voltado à companheirada e pouco permeável a forças políticas mais amplas. Sem esquecer o vício incorrigível de Lula e do PT de operar sob a lógica da divisão da sociedade.

Há também um elemento menos conjuntural e mais profundo: a fadiga de material. Após décadas no centro da vida política nacional, o lulopetismo dá sinais de envelhecimento. Suas ideias, antes mobilizadoras, hoje soam repetitivas. Seu modelo de Estado encontra resistência num país que se transformou social e economicamente. Isso ajuda a explicar por que Lula, mesmo na Presidência, não consegue converter sua posição em vantagem eleitoral sólida.

A eleição ainda está muito distante, mas já é possível dizer que o antipetismo está fortemente arraigado no eleitorado. Ou seja, todos os candidatos de oposição obviamente precisam explorar essa realidade. No entanto, trata-se de condição necessária, mas não suficiente: quem quiser ter sucesso na eleição precisa ir além do discurso contra o PT e Lula. Aqueles que apresentarem propostas concretas para melhorar estruturalmente a vida dos brasileiros, convidando o eleitor a pensar não no presente, mas no futuro, podem ir além da polarização e conquistar corações e mentes hoje capturados pelo bolsonarismo, que nada tem a propor a não ser o velho reacionarismo do patriarca. O Brasil não pode perder a chance de sair desta mediocridade que drena as energias dos cidadãos sem nos levar a lugar algum.

Mais uma volta no torniquete orçamentário

Por O Estado de S. Paulo

Avanço de pisos constitucionais, como o da PEC da assistência social, engessa ainda mais o Orçamento, comprimindo o espaço de decisão do governo e pressionando Estados e municípios

A Câmara aprovou, em primeiro turno, a PEC que cria um piso para a assistência social. O texto obriga União, Estados e municípios a destinar ao menos 1% da receita corrente líquida ao setor. A votação foi ampla, quase sem resistência. Ao mesmo tempo, o debate público é dominado por alertas sobre a falta de espaço no Orçamento e o risco de paralisia fiscal. As duas coisas avançam juntas.

Em ano eleitoral, esse mutirão dos deputados em prol do “social” não é novidade. Diante de demandas legítimas – assistência, saúde, educação –, a resposta padrão do sistema político é transformá-las em obrigação permanente de gasto. Em vez de disputar prioridades dentro do Orçamento, prefere-se retirá-las da disputa. A despesa já não é objeto de negociações e escolhas sujeitas a revisão periódica – é gravada na Constituição.

Vinculações à receita e mecanismos de indexação operam de formas distintas, mas produzem efeitos semelhantes: elevam a despesa por força própria. No primeiro caso, o gasto acompanha a arrecadação; no segundo, responde a indexadores como o salário mínimo. Em ambos, reduz-se o espaço de decisão e consolida-se o Orçamento num conjunto de compromissos automáticos.

Cerca de 92% das despesas primárias já estão comprometidas. Sobra menos de um décimo do Orçamento para tudo o que depende de decisão de governo – do investimento em infraestrutura ao custeio da máquina pública. Para 2026, as projeções apontam para quase R$ 2,9 trilhões em despesas obrigatórias, ante pouco mais de R$ 200 bilhões de gastos discricionários.

A tendência é de aperto adicional. Uma parcela relevante dessas despesas cresce acima da inflação, impulsionada por indexações e vinculações à receita. Segundo estudo dos economistas Samuel Pessôa e Fábio Serrano, do BTG Pactual, mantidas as regras atuais, o crescimento automático do gasto pode adicionar perto de R$ 1,4 trilhão às despesas públicas na próxima década. Mesmo períodos de maior arrecadação não produzem alívio duradouro. O aumento de receita tende a ser acompanhado por aumento do gasto.

Só na União, estima-se que a nova PEC traria um impacto de R$ 16 bilhões por ano após implementação gradual. Estados e municípios também serão pressionados. Pouco mais de mil cidades – em geral pequenas – terão de elevar significativamente seus gastos, sem transição, o que pode comprometer o equilíbrio fiscal local e ampliar a dependência de transferências federais.

Tudo isso significa mais investimentos adiados ou reduzidos. Programas encolhem e despesas básicas disputam espaço escasso. O chamado gasto discricionário inclui desde obras de infraestrutura até o funcionamento de universidades, hospitais e políticas públicas essenciais, como em ciência e tecnologia, por exemplo. Quanto mais a margem se estreita, menos o governo governa. Um estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara prevê que, sem mudanças, já a partir de 2027 os gastos obrigatórios tenderão a ocupar todo o espaço disponível.

Os candidatos continuam a distribuir promessas nos palanques, as eleições continuam a ignorar projetos e prioridades, e a capacidade de implementá-los encolhe. A execução orçamentária passa a depender menos de planejamento e mais de acomodação. A negociação política se desloca para a disputa por parcelas cada vez menores de recursos livres, frequentemente fragmentadas e de baixo impacto.

Ainda assim, os parlamentares seguem forjando novas obrigações. A cada legislatura, pavimenta-se um novo piso. Raramente se discute o conjunto. Quase nunca se revisam compromissos anteriores. O diagnóstico do engessamento é amplamente conhecido, mas não altera o comportamento que o produz. Medidas que ampliam despesas permanentes avançam com rapidez; iniciativas que exigem contenção ou reavaliação enfrentam resistência difusa e acabam postergadas.

A nova PEC insere-se nesse processo. Isoladamente, pode parecer modesta. No conjunto, reforça uma trajetória de engessamento. O Estado segue ampliando compromissos permanentes sem impor a si mesmo limites equivalentes. Os pisos vão sendo justapostos no Orçamento. O teto fica em segundo plano. Quanto mais se acumulam as boas intenções, mais se multiplicam os maus resultados.

A genuflexão da Petrobras

Por O Estado de S. Paulo

Após ameaça de Lula, companhia informa que devolverá o dinheiro extra arrecadado em leilão de gás

A diretoria executiva da Petrobras aprovou o que chamou de “neutralização dos efeitos de preço decorrente do leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP)”, palavrório utilizado em nota para justificar o injustificável: a devolução do dinheiro extra arrecadado num leilão de gás de cozinha no qual a diferença em relação ao preço de tabela da companhia superou os 100%.

De acordo com a empresa, a decisão sustenta-se em “análises econômicas e de risco”, leva em conta a “excepcionalidade” que o conflito no Oriente Médio provoca no mercado de energia e, também, teria lastro em manifestações de órgãos como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Ainda não está claro nem como a empresa fará o ressarcimento dos valores nem como tal medida beneficiará os consumidores. É cristalino, porém, que a insólita decisão atende aos desígnios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem o certame foi uma “cretinice” e uma “bandidagem”.

Lula prometeu cancelar o leilão, o que de certa forma está ocorrendo sob o arranjo pouco ortodoxo da devolução de valores previamente acordados entre o fornecedor, a Petrobras, e os compradores.

É como se alguém arrematasse uma obra de arte por um determinado valor e, posteriormente, descobrisse que terá de desembolsar menos do que se comprometeu a pagar pelo item desejado.

Não será surpresa se algum acionista da empresa optar por questionar a devolução, pela Petrobras, de recursos que clientes haviam ofertado pelo GLP distribuído pela empresa.

A medida só comprova que as reprimendas públicas de Lula geram um clima de terror na Petrobras. Antes de “neutralizar” o acertado no leilão, a empresa já havia promovido o “encerramento antecipado do mandato” do diretor executivo de Logística e Comercialização, Claudio Schlosser. Analistas ouvidos pelo Estadão alertaram que a exoneração de Schlosser, a quem estava subordinada a área responsável pelo leilão que provocou a ira de Lula, denota pressão política.

“A demissão após crítica pública do presidente é um episódio que acende um alerta muito sério. A sinalização ao mercado é clara: decisões técnicas podem estar sendo substituídas por pressões políticas”, afirmou Lígia Maura Costa, coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getulio Vargas.

Em busca de seu quarto mandato presidencial, Lula vem amargando queda na popularidade, além do crescimento de seu provável oponente, Flávio Bolsonaro, na preferência do eleitor. Em algumas pesquisas, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro aparece à frente do petista. Por isso Lula vem abusando da criatividade e anunciando medidas que, supostamente, protegerão os mais pobres. A guerra no Oriente Médio tem servido de pretexto para que o presidente da República trate a Petrobras como sua propriedade. Para ele, pouco importa que a imagem da companhia saia mais uma vez prejudicada. O que interessa é que a Petrobras faça o que ele mandar.

Trump eleva risco de pior cenário para economia global

Por Valor Econômico

Apesar do cessar-fogo frágil e temporário, os impactos da guerra dos EUA e Israel contra o Irã estão evoluindo de uma fase “aguda” para uma fase “duradoura”

A economia global corre o risco de desacelerar para o ritmo mais fraco de crescimento desde a pandemia de covid-19, em consequência da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, que provocou o pior choque na oferta de petróleo desde 1973, segundo o mais recente Panorama Econômico Mundial (WEO) do Fundo Monetário Internacional (FMI). A guerra também ameaça a estabilidade financeira global, embora os investidores se mostrem complacentes e sigam apostando em um desfecho positivo para o conflito no Oriente Médio — ignorando as vulnerabilidades no sistema financeiro que poderiam ser expostas por um choque mais prolongado. O bloqueio americano do Estreito de Ormuz, que começou na segunda-feira, adicionou mais uma camada de incerteza sobre a retomada do comércio de petróleo, gás e derivados por meio dessa via, por onde antes passavam 20% do fluxo global dessas mercadorias.

Os impactos da guerra no Oriente Médio são cada vez mais palpáveis ao redor do globo. Alguns dos países mais pobres do mundo correm agora o risco de precisar de resgates do FMI, e espera-se que solicitem apoio para lidar com a alta nos preços da energia e no custo dos fertilizantes. O Fundo estima que cerca de metade da alta nos preços dos fertilizantes se transforme em aumento nos preços dos alimentos após 12 meses.

O choque nos preços do petróleo — que saiu ao redor de US$ 70 por barril antes da guerra para em torno de US$ 100 — fez a Agência Internacional de Energia (AIE) reduzir sua previsão para a demanda global este ano para 104,26 milhões de barris por dia, uma queda anual de 84 mil b/d. Em março, a previsão era de um aumento de 644 mil b/d. Os cortes mais profundos vêm da região da Ásia-Pacífico.

“O bloqueio do Estreito de Ormuz desestabilizou as cadeias de suprimentos para a Ásia”, com os produtos petroquímicos “no centro da destruição da demanda”, segundo a AIE. “Nafta, GLP e etano foram os produtos que sofreram a destruição de demanda mais evidente. Os impactos mais severos foram observados no Oriente Médio e na Ásia, mas os efeitos colaterais se espalharão para produtores em todas as regiões”, acrescentou a agência. No comércio, o impacto estimado é uma desaceleração no ritmo de crescimento em volume de 5,1% em 2025 para 2,8% este ano, segundo o FMI, bem abaixo da taxa de 4,1% estimada em janeiro.

A escalada militar em curso no Oriente Médio coloca dezenas de milhões de pessoas em risco de cair na pobreza em 162 países, de acordo com novas projeções do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Embora os impactos estejam concentrados nos países diretamente afetados pelo conflito e naqueles dependentes de energia importada, a agência aponta danos significativos a longo prazo em países mais pobres, distantes dos combates.

Com a guerra em sua sexta semana, e apesar do cessar-fogo frágil e temporário, os impactos estão evoluindo de uma fase “aguda” para uma fase “duradoura”. Quanto mais tempo essa fase continuar, maior será o risco de aceleração do aumento da pobreza em países vulneráveis, revela o relatório. No pior cenário, mais 32 milhões de pessoas podem ser empurradas para a pobreza.

“A guerra é o desenvolvimento ao contrário. Um conflito pode desfazer em semanas o que os países construíram ao longo de anos”, segundo Alexander De Croo, Administrador do Pnud e subsecretário-geral da ONU.

“A cada dia que passa, o risco econômico aumenta cada vez mais”, disse o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, ao Financial Times.

Se as perturbações provocadas pela guerra persistirem muito, o crescimento econômico mundial poderá cair para cerca de 2% em 2026, uma taxa vista apenas durante as duas grandes crises deste século: a financeira global de 2008 e a covid em 2020. Nesse cenário, o mais “grave” do FMI, a inflação global poderia atingir 6%. Mesmo se o conflito no Oriente Médio acabar rapidamente, o estrago na economia global já está feito. Nesse cenário, que seria o “de referência”, a produção global poderia crescer 3,1% este ano, abaixo da expansão de 3,4% em 2025 e da taxa de 3,3% projetada pelo FMI em janeiro.

O Brasil, por sua vez, teve sua projeção de crescimento revisada para cima pelo FMI em 0,3 ponto percentual, para 1,9%, uma vez que, como exportador líquido de energia, o país tende a se beneficiar com o choque. Porém, para 2027, a projeção de crescimento caiu 0,3 ponto percentual em relação à projeção de janeiro, para 2%, como consequência da desaceleração da demanda global, do aumento dos custos de insumos (incluindo fertilizantes) e das expectativas de condições financeiras mais apertadas.

O governo brasileiro faria bem em aproveitar a receita extra com o aumento dos preços do petróleo para adotar uma estratégia mais conservadora, começar a arrumar a casa no lado fiscal para poder ter espaço orçamentário para absorver choques futuros. Os ziguezagues do presidente americano Donald Trump na guerra e em outros conflitos fabricados por ele apenas aumentam a incerteza no cenário global.

A lição desperdiçada na crise em Ormuz

Por Correio Braziliense

A escassez de energia fóssil que a guerra impõe agora pela força bélica será provocada, logo mais, pelo próprio esgotamento climático e ambiental do planeta

Na história das civilizações, quando um sistema entra em colapso, a dor imediata frequentemente atua como o mais poderoso catalisador para a inovação. É exatamente sob essa lente histórica que o atual estrangulamento do Estreito de Ormuz, causado ora pelo Irã, ora pelos EUA, deve ser interpretado. A situação é a prova incontestável da dependência da humanidade em petróleo e escancara a urgência da transição energética. 

A asfixia imediata da economia global, causada pelo bloqueio militar da rota por onde passa um quarto do óleo consumido no planeta, deveria servir como o ultimato perfeito para forçar a transição definitiva rumo às matrizes limpas. Em vez de tratar o caos no Golfo Pérsico apenas como uma emergência bélica a ser contornada, a humanidade tem diante de si a oportunidade histórica para decretar, de uma vez por todas, o fim da era dos combustíveis fósseis.

O fato de que a estabilidade econômica global pode ser asfixiada, em questão de dias, por ditadores, aiatolás e chefes de Estado belicosos expõe a fragilidade patológica da nossa matriz energética. Em um mundo governado pela racionalidade e pelo instinto de sobrevivência, o bloqueio de Ormuz soaria como o alarme definitivo. Seria o momento em que governos e mercados decidiriam direcionar a fortuna gasta para proteger e subsidiar rotas petroleiras rumo à transição energética sustentável e definitiva.

Ocorre que a governança global tem se mostrado míope para os perigos da crise climática e apegada a soluções de curto prazo. Longe de enxergar o gargalo no Golfo Pérsico como um ultimato para a descarbonização, a reação instintiva das superpotências ilustra o tamanho do problema.

A prioridade absoluta nos países ocidentais e nas suas periferias — incluindo  o Brasil — não é libertar a economia da dependência do petróleo, mas garantir que as bombas de combustível continuem cheias a qualquer custo. Em vez de injetar capital massivo na infraestrutura de matrizes limpas com senso de urgência, a energia política do mundo se esvai em manobras navais e manobras artificiais para conter a fúria inflacionária do eleitorado.

O fechamento de Ormuz funciona hoje como um rascunho sombrio do futuro. A escassez de energia fóssil que a guerra impõe agora pela força bélica será provocada, logo mais, pelo próprio esgotamento climático e ambiental do planeta. A crise que virá pela escassez do petróleo deveria ser o empurrão que nos faltava para pular do barco antes que ele afunde por completo.

Contudo, tudo indica que a humanidade deixará mais essa janela histórica se fechar. Quando a tensão militar eventualmente ceder, os acordos provisórios forem assinados e os superpetroleiros voltarem a cruzar o estreito, as bolsas de valores e as lideranças globais celebrarão com alívio o fim da crise. Mas, na prática, estaremos apenas comemorando o direito de voltar à exata mesma armadilha fóssil da qual, por um breve e doloroso momento, a humanidade teve a chance de escapar para criar um futuro mais sustentável e limpo — e que parece cada vez mais distante e impossível, para a tragédia das futuras gerações.

Nenhum comentário: