segunda-feira, 13 de abril de 2026

Não pode, companheiro Alexandre, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O presidente da República não tem nada que manter conversas reservadas com um ministro do Supremo

O presidente Lula deu dois conselhos ao companheiro Alexandre de Moraes, como ele mesmo se referiu ao ministro do STF. O primeiro foi direto: Moraes não pode participar de julgamentos envolvendo o caso Master. O segundo foi indireto. Disse Lula, quando sugeria mudanças no STF:

— Se o cara quiser ser milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte.

Ora, a família Moraes ficou milionária em pouco espaço de tempo. O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, recebeu nada menos que R$ 80 milhões do Banco Master em apenas dois anos de um contrato até agora pouco esclarecido. Lula não apresentou nenhum fato novo. Mas a palavra do presidente da República tem peso, sobretudo em público. Ele havia mantido conversa particular com o companheiro Moraes quando deu aqueles conselhos.

Já estava errado. Têm acontecido tantos comportamentos impróprios, que muitos passam batido. O presidente da República não tem nada que manter conversas reservadas com ministro do STF, entre outras coisas porque o ministro poderá ser chamado a votar em assuntos de interesse do governo. Como o caso Master. Mas, em Brasília, esses ritos são até motivo de galhofa. Lá, entende-se que um ministro voar em jatinho do réu não tem nada de mais. Fumar charutos e tomar uísque pagos por banqueiros passa como uma coisa de amigos do peito.

— Qual é? — dizem.

— Estão suspeitando de mim? — perguntam.

Pois é, muitos estamos. E ao grupo se juntou, publicamente, o presidente Lula. Por que Moraes não poderia participar de julgamentos do caso Master? Porque há suspeitas. E de onde vêm essas suspeitas? Dos comportamentos e amizades impróprios e, sobretudo, dos R$ 80 milhões embolsados pela sua mulher.

Lula fez uma ressalva. Disse que o companheiro Moraes salvou a democracia com o julgamento da trama golpista. Isso está gravado na biografia que, entretanto, segundo Lula, pode ser jogada fora por Vorcaro. Na verdade, já foi jogada. Por isso Moraes tem tantas explicações a dar sobre suas relações com Vorcaro, além de declarar-se impedido de julgar.

Em vez disso, que fez o ministro? Tirou da gaveta uma antiga ação movida pelo PT, que propõe limites ao instituto da delação premiada. Justo quando Vorcaro se apressa para apresentar sua delação. Com isso, o companheiro Moraes detonou o esforço de Lula de tirar o Master de suas costas. O presidente tem dito que o caso vem da gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central, no governo Bolsonaro. Está difícil de colar, já que o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse não ter encontrado nada de errado na gestão de Campos Neto.

Talvez Lula tenha se precipitado. Afinal, os pagamentos de Vorcaro recompensaram figuras dos diversos lados do espectro político. Não é um escândalo do PT. É universal, digamos. Mas Lula quis se afastar especificamente do ministro que está mais envolvido, Moraes, chamado de companheiro por ter sido avalista da vitória do presidente. Não deu muito certo.

E, quando se pensa que todos os escândalos já estão na mesa, vem o ministro Gilmar Mendes acrescentar mais um. Falando numa sessão do STF, mas como se fosse uma conversa banal num bom restaurante, Gilmar afirmou:

— Eu conversava com o diretor-geral da Polícia Federal, que dizia que 32 ou 34 parlamentares da Assembleia [Legislativa do Rio (Alerj)] recebiam mesada do jogo do bicho.

Então a Polícia Federal sabe do crime, o decano do STF é informado, e fica por isso mesmo? O ministro pediu “piedade” ao Rio de Janeiro. Justiça não? Tem mais. Há 70 deputados na Alerj, todos agora declarados suspeitos, pois nem a PF nem o ministro identificaram os mensaleiros. Pelo menos a PF certamente sabe quem são, pois a informação foi bem precisa: 32 ou 34 são criminosos.

Em vez de denúncia formal, em vez de processo nos tribunais competentes, a coisa fica ali no bate-papo. Pode isso? Não pode, ministro. Além disso, pelo menos 36 deputados não são mensaleiros, mas foram jogados no mesmo saco. Processarão o ministro? A PF? Se arriscariam a isso? Vai que descobrem outras coisas.

 

Nenhum comentário: