Cláusula de barreira reforça depuração partidária
Por O Globo
Patamar mínimo de 2,5% dos votos assegurará
recursos para menos partidos — os mais representativos
Na janela encerrada no início do mês, algo como 120 deputados trocaram de partido. O movimento reflete não apenas interesses eleitorais, mas também a consolidação mais coerente do espectro partidário brasileiro. A previsão é que a eleição de outubro tenha como resultado mais um enxugamento no número de legendas com acesso a fundo partidário e horário eleitoral gratuito. O patamar mínimo de votos para deputado federal que os partidos deverão atingir para manter tais recursos — conhecido como cláusula de barreira ou desempenho — será de 2,5%, com pelo menos 1% em nove unidades da Federação. Inicialmente, em 2018, a exigência era de 1,5% dos votos e chegará ao teto de 3% na eleição de 2030. Conjugada ao fim das coligações nos pleitos proporcionais ao Legislativo, ela tem contribuído para depuração do sistema partidário.
Em 2018, das 35 legendas que disputaram o
pleito, 21 alcançaram os requisitos. As outras 14 perderam acesso ao fundo
partidário e ao horário eleitoral. A redução da pulverização partidária
dificultou a vida das “legendas de aluguel” que funcionavam como negócios à
base da barganha de tempo de rádio e TV. A cláusula de 2,5% tornará a Câmara
ainda menos fragmentada. Entre partidos e federações — autorizadas desde 2021 —,
12 legendas disputarão a eleição com acesso ao horário eleitoral e a recursos
do fundo partidário.
Na comparação do cientista político Jairo
Nicolau, da FGV CPDOC, o Brasil voltará a um cenário semelhante ao dos anos
1990, quando havia ao redor de 15 legendas na Câmara, alinhadas em torno de uma
coalizão do governo e outra de oposição, com partidos cujo alinhamento variava.
Mais que à cláusula de barreira, Nicolau atribui a queda na pulverização ao fim
das coligações em eleições proporcionais. Elas eram um artifício que
incentivava a candidatura de puxadores de voto, funcionava sem nenhuma
coerência programática ou ideológica e costumava desmoronar logo depois da
posse. As federações ao menos têm o compromisso de funcionar em conjunto
durante toda a legislatura e são alianças mais estáveis.
É correto o princípio de dar mais recursos
públicos em período eleitoral a partidos com maior representatividade. Isso não
enfraquece a representação multipartidária. Ao contrário, fortalece aqueles
partidos que, nas palavras do cientista político Carlos Pereira, da FGV Ebape,
têm “papel importante de ser um escudo protetor contra presidentes com ambições
autocráticas”. A cláusula de desempenho progressiva, diz Pereira, também gera
maior identificação do eleitor com seu representante e partido. “Além disso, os
partidos tendem a ficar mais coesos e disciplinados, o que teoricamente aumenta
as chances do presidente de montar e de gerenciar maiorias legislativas”,
afirma.
Legendas minoritárias que lançarem candidato
e não alcançarem a cláusula de barreira, ainda que sem acesso ao fundo
partidário ou ao horário de rádio e TV, terão acesso a recursos do fundo
eleitoral para fazer suas campanhas normalmente. Com isso, todas as correntes
políticas, por menores que sejam, têm chance de plantar sua semente no terreno democrático.
Ao mesmo tempo, a cláusula de desempenho de 3% prevista para 2030 assegurará a
depuração, para que floresçam apenas as mais representativas.
É preciso atenção às deficiências auditivas e
visuais dos estudantes
Por O Globo
Cerca de 10% dos matriculados nos anos
iniciais enfrentam problemas desconhecidos dos professores
A universalização no ensino fundamental foi
atingida no Brasil, com 99,5% dos alunos matriculados, segundo o Censo Escolar
de 2025, do Ministério da Educação.
Agora é preciso centrar o foco no apoio a estudantes com dificuldades
específicas. Nem todos recebem a devida ajuda, em especial os portadores de
“deficiências invisíveis”, termo cunhado pelos pesquisadores Guilherme Lichand
e Elizabeth Kozleski, da Universidade Stanford. Eles constataram que 10% dos
alunos brasileiros nos anos iniciais de estudo enfrentam problemas
desconhecidos dos professores, como dificuldade para enxergar ou ouvir. São ao
todo 2,7 milhões de crianças e adolescentes. Pelo menos um terço dos que estão
no 9º ano, último do ensino fundamental, têm nível de aprendizado estacionado
entre o 1º e o 3º anos devido a limitações físicas, diz Lichand.
O Censo Escolar encontrou 2,4 milhões de
alunos com algum tipo de deficiência, 153% a mais que em 2016. Desse total, 43%
têm deficiência intelectual e 52% autismo. Apenas 91 mil alunos foram
recenseados com baixa visão e 41 mil com deficiência auditiva. No entender dos
pesquisadores, é flagrante a subnotificação dos casos de dificuldade de escutar
os professores ou de ler o que está escrito na lousa.
Depois de constatarem a grande incidência de
“deficiências invisíveis”, os pesquisadores analisaram um programa de
recuperação de aprendizagem da rede estadual de São Paulo, de cuja criação
Lichand participou. Um terço dos alunos no final do ensino fundamental tem
aprendizado adequado ou avançado, outro terço apresenta defasagens (de uma ou
duas séries abaixo do esperado), e o terço restante enfrenta problemas graves,
de acordo com o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São
Paulo (Saresp). Apesar de a rede estadual ter adotado várias medidas
pedagógicas indicadas, só uma parcela dos estudantes obteve algum avanço. Ao
analisar os motivos, os pesquisadores descobriram que 40% dos alunos dessas
turmas de recuperação tinham alguma deficiência, quatro vezes o constatado na
população escolar como um todo.
Realizada no âmbito da Escola de Educação de Stanford, por meio do Instituto Equidade.info, a pesquisa analisou uma amostra de 250 escolas brasileiras escolhidas para representar o ensino básico. O resultado aconselha as secretarias estaduais e municipais de Educação a investigar melhor as causas da evasão escolar. “Estudantes que não recebem apoio para suas necessidades específicas podem se sentir desmotivados e desengajados, levando ao abandono precoce da escola”, afirma Lichand. “As escolas podem adotar todas as medidas pedagógicas adequadas para as crianças e garantir professores especializados, mas, se ninguém perceber as deficiências invisíveis e encaminhá-los aos serviços de saúde para garantirem óculos e aparelhos auditivos, os alunos continuarão a ficar para trás.” A pesquisa aconselha atenção para o assunto. Nem sempre o aluno reclama de suas dificuldades.
PEC que carimba recursos assistenciais é
pauta-bomba
Por Folha de S. Paulo
Proposta estabelece percentuais mínimos de
gasto no setor, tornando orçamentos ainda mais engessados
Proteção social já é a principal despesa do
Estado brasileiro (22,8% do PIB); é preciso aperfeiçoar o cadastro e priorizar
focalização
No que pode
ser considerado uma pauta-bomba, a Câmara dos
Deputados aprovou, em primeiro turno, uma proposta de emenda
constitucional (PEC) que vincula 1% da receita corrente líquida de União,
estados, Distrito Federal e municípios ao Sistema Único
de Assistência Social (SUAS).
É mais um capítulo na crônica do engessamento
orçamentário brasileiro. Diante da realidade em que pagamentos obrigatórios já
consomem cerca de 90% da despesa, sufocando investimentos e o próprio
funcionamento da máquina pública, a proposta é um retrocesso na agenda de
ajuste.
Pela PEC, os governos deverão aplicar, de
forma escalonada, 0,3% da receita em 2027, 0,5% em 2028, 0,75% em 2029 e 1% a
partir de 2030 —o equivalente a R$ 36 bilhões em quatro anos, segundo
estimativas. Estados e municípios terão de destinar esses percentuais sem poder
computar repasses recebidos da União.
O dinheiro é carimbado para ações de proteção
social básica e especial por meio de Centros de Referência de Assistência
Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados (CREAS), para serviços e
programas variados, como acolhimento a pessoas em situação de rua, erradicação
do trabalho infantil e qualificação de jovens.
Programas de transferência de renda
—como Bolsa Família,
Benefício de Prestação Continuada (BPC) e auxílios temporários— ficam fora da
conta. Sem essas grandes rubricas, o Orçamento federal atual para assistência é
de cerca de R$ 3,9 bilhões.
A intenção da PEC é nobre: blindar a
assistência contra trocas de governo e garantir piso mínimo para a rede de
proteção. Ocorre que o Brasil já destina parcela significativa dos recursos
públicos à proteção social.
Os programas federais de transferência de
renda custaram quase R$ 400 bilhões em 2025, segundo publicou o site Poder360.
Na conta mais ampla, incluindo saúde, educação, pensões e aposentadorias, o
montante chega a 22,8% do PIB (R$
2,7 trilhões anuais).
Não faltam recursos, pois. Em vez de criar
nova vinculação constitucional, o caminho
racional seria otimizar o que existe: aperfeiçoar o Cadastro Único,
combater fraudes e priorizar focalização. Novas travas constitucionais são
indesejáveis.
Outro problema é a prática usual de Brasília de
impor novas despesas a estados e municípios com cofres combalidos, sem levar em
conta as realidades locais.
A aprovação da PEC por larga margem em
primeiro turno (464 votos a 16) mostra o apelo fácil da proposta em ano
eleitoral. Não se esperavam avanços estruturais de controle de gastos durante a
campanha, mas novamente o Congresso
Nacional se aproveita da falta de peso político do governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT).
A consequência previsível será asfixiamento
ainda maior do Orçamento, o oposto do que é necessário para equilibrar as
contas e restaurar a capacidade de investimento do Estado.
Luz amarela para a Enel
Por Folha de S. Paulo
Agência reguladora inicia processo que pode
retirar a concessão da distribuidora de energia da cidade de SP
É preciso evitar politização do caso, para
não espantar investimentos; caducidade do contrato é medida extrema e complexa
A Enel,
empresa de distribuição de energia no município de São Paulo e
em partes do interior do estado, corre o risco de perder a concessão a partir
de um processo administrativo aberto pela Aneel,
a agência reguladora do setor.
A concessionária enfrenta, desde 2023, uma
crise aguda de confiabilidade no fornecimento de energia. Tempestades severas,
classificadas como eventos climáticos extremos, derrubaram árvores e postes e
deixaram milhões de pessoas às escuras por dias na maior metrópole do país.
A rede aérea, vulnerável à arborização densa,
expôs limitações
operacionais e falhas reiteradas, que a agência reguladora
classifica como estruturais ao embasar o processo que
pode levar à caducidade da concessão.
A Enel terá 30 dias para apresentar defesa
antes da recomendação da Aneel ao Ministério de Minas e Energia —o poder
concedente a quem cabe a decisão final.
A agência identificou insuficiência na gestão
operacional: tempos de recomposição persistentemente abaixo da média setorial,
baixa produtividade de equipes, redução de efetivo noturno e descumprimento do
convênio de poda de árvores com a prefeitura. O plano de recuperação assinado
em 2024 não teria revertido a inadimplência contratual.
Já a Enel, em parecer técnico, sustenta que
cumpriu indicadores operacionais. A peça vê uso de dados equivocados e criação
retroativa de exigências, classifica os eventos como de força maior e afirma
que a fiscalização ignora as especificidades de São Paulo.
A caducidade é medida extrema e complexa, com
risco de indenização e possível longo litígio. Outro caminho seria uma solução
negociada, com troca de controle acionário. Há potenciais compradores de porte,
mas qualquer nova operadora enfrentará os
desafios urbanos paulistanos.
Em meio à controvérsia, o essencial é
garantir a continuidade do serviço, com rigor regulatório e previsibilidade
contratual. Tudo indica que a empresa não atuou com tempestividade para evitar
danos mais graves ao fornecimento depois dos primeiros episódios climáticos.
Futuramente, os contratos devem ser mais específicos quanto aos procedimentos
preventivos e reativos para lidar com tais eventos.
Qualquer decisão precisa ser rigorosamente técnica. A politização do caso —por pressão dos governos municipal e estadual após apagões que viraram símbolo de ineficiência— é perigosa, pois ameaça enfraquecer a credibilidade do marco regulatório, afastar investidores e comprometer a segurança jurídica.
Judiciário insaciável
Por O Estado de S. Paulo
Magistrados e promotores reativam a usina de
penduricalhos um mês depois que o STF lhes permitiu ganhar acima do teto
constitucional. Cabe ao Congresso pôr um freio nessa indecência
Eles estão descontrolados. Não passou nem um
mês desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) erigiu um requintado rooftop acima do teto
remuneratório constitucional para acomodar, a um tempo, seus anseios de
apaziguar uma população irritada com os desmandos de seus ministros e os
privilégios dos juízes mais bem pagos do mundo, e magistrados e promotores já
reativaram sua usina de penduricalhos. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o
Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) violaram a decência – de novo.
Violaram a Constituição – de novo. Violaram decisões frescas do Supremo. E tudo
com o aval de seu presidente, Edson Fachin.
Juízes e promotores não estão no topo da
pirâmide social brasileira, estão acima dele. O teto de R$ 46 mil já os
colocaria na prateleira do 0,6% a 1% mais rico. Mas mais de 90% dos magistrados
ganham mais, rotineiramente duas a quatro vezes mais. Alguns chegam a faturar
R$ 400 mil e até R$ 1 milhão num único mês. Segundo levantamento do República.org,
os 25% mais bem pagos ganham mais que qualquer juiz de países desenvolvidos.
Nenhuma outra corporação tem a prerrogativa de definir a própria remuneração,
criar benefícios por decreto, reinterpretar a natureza das verbas – em outras
palavras: legislar, executar e julgar a própria folha de pagamento.
Com a credibilidade em queda livre, o STF fez
estardalhaço prometendo disciplinar a bandalheira, mas, na prática, só a
reacomodou e a legitimou. Fabricou um teto premium para a magistratura de 70% acima do limite
constitucional e ressuscitou privilégios, como um acréscimo de 5% na renda a
cada cinco anos, uma vantagem remuneratória classificada como indenizatória –
isentando-a do teto e do imposto. Para manter as aparências, excluiu algumas
rubricas mais grotescas.
Mas os togados são insaciáveis. Nas tribunas
e redes sociais, camuflaram sua chantagem com uma litania vitimista. Teve juiz
reclamando de que vai ganhar menos que “vendedor de sorvete”. Outros cancelaram
audiências. Os magistrados insistem que precisam burlar a Constituição para não
serem corrompidos, sugerindo que sua honestidade tem um preço – embora nunca
saibamos qual é, pois o noticiário não para de estampar juízes multimilionários
vendendo sentenças. Comparam-se às grandes bancas de advocacia – embora, na
média, um advogado ganhe dez vezes menos que um juiz. Dizem que a carreira não
é atrativa – embora não haja um único dado comprovando o êxodo dos juízes e as
filas dos concursos engrossem ano a ano.
O STF declarou inconstitucional o auxílio-moradia.
O CNJ e o CNMP o recriaram. O STF extinguiu a assistência pré-escolar. Sem
problemas, a resolução conjura um nome virtuoso – “gratificação de proteção à
primeira infância” – e a mágica acontece. O STF listou um rol restrito de
verbas indenizatórias. A resolução não só criou novas, como metamorfoseou
benefícios remuneratórios em indenizatórios. O STF abriu a porta. A corporação
a arrombou.
A população não aguenta mais ser saqueada
pelo Judiciário e o Ministério Público. O Poder que deveria zelar pela
aplicação da lei de forma igual a todos é campeão em violentá-la para
enriquecimento próprio. É a corrupção institucionalizada. Não se trata de
acusar individualmente juízes e promotores – embora os escândalos criminais se
proliferem. Este jornal quer crer que muitos, plausivelmente a maioria, são
profissionais honestos e competentes. Mas suas corporações são corruptas.
Perpetuam um sistema que normaliza o desvio de finalidade, o locupletamento e a
apropriação de recursos públicos sob uma aparência fraudulenta de legalidade.
O Congresso há muito está prevaricando. Não
são necessárias negociações “complexas”, consensos “difíceis” e “reformas”
grandiosas. Distinguir com clareza o que é verba remuneratória (salário mais
adicionais permanentes ao alcance do teto e da tributação) de verbas
indenizatórias (ressarcimentos eventuais, comprovados e transitórios) já
eliminaria a maior parte do problema. É tão simples quanto isso. Os magistrados
se provaram incorrigíveis. Por si sós, jamais assumirão esse compromisso
elementar com a decência e a Constituição. Se os atuais representantes eleitos
não são capazes de assumi-lo, então são maus representantes. É preciso
trocá-los. As eleições estão aí para isso.
Os ‘esqueletos’ de Flávio Bolsonaro
Por O Estado de S. Paulo
Não demorou para que o passivo do senador –
sobre rachadinhas e milicianos – começasse a aparecer. E o candidato, ao dizer
que não sabia de nada, escolheu ofender a inteligência do eleitor
Até aqui, o senador Flávio Bolsonaro estava
muito confortável na condição de principal candidato da oposição à Presidência.
Ungido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, dono de invejável potência
eleitoral, Flávio nem precisou se mexer muito para alcançar excelente pontuação
nas pesquisas de intenção de voto, a ponto de instaurar o pânico nas hostes
petistas e de alimentar prognósticos exageradamente otimistas sobre suas
chances de vitória.
O problema, para o senador e seus animados
cabos eleitorais, é que a eleição ainda está distante, e em algum momento o
candidato começaria a ser questionado sobre seus projetos, suas qualidades e,
não menos importante, seus esqueletos no armário. E nem demorou muito: em
entrevista ao podcast Inteligência
Ltda., no dia 6 passado, Flávio foi questionado sobre as
investigações que apontaram a prática de “rachadinha” em seu gabinete na
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) quando era deputado estadual.
Ao contrário do que o nome pitoresco pode
sugerir, “rachadinha” não é prática desimportante. O Ministério Público do Rio
de Janeiro (MPRJ) ofereceu denúncia contra o senador sob a acusação de que ele
seria o líder de uma organização criminosa dedicada à apropriação de salários
de assessores. Calcula-se que a “rachadinha” tenha desviado R$ 6 milhões em
recursos públicos para os bolsos de seus beneficiários. No centro do esquema
criminoso estava, segundo o MPRJ, o notório Fabrício Queiroz, principal
assessor de Flávio na Alerj, ex-policial militar e longa manus do clã Bolsonaro.
Tudo isso está fartamente documentado,
conforme revelou o Estadão quando
trouxe o caso à luz, em 2018. Mesmo assim, Flávio Bolsonaro preferiu
classificar as investigações como “espuma” destinada a “destruir” sua
reputação. O senador insistiu na tese de que Queiroz agiu por conta própria, ou
seja, sem seu conhecimento ou anuência.
Ora, se verdadeira, essa versão é um atestado
de incapacidade de Flávio para a administração pública. Se falsa, a alegação
reforça ainda mais a suspeita de que Flávio participou diretamente de um
esquema de peculato, entre outros crimes.
Para piorar, durante a entrevista, o senador
se jactou de não ter sido réu em ação penal, dando a entender que teria sido
inocentado. Trata-se de uma distorção da realidade factual. Os procedimentos
criminais abertos contra ele não foram suspensos ou encerrados por reconhecimento
de sua inocência, mas por decisões de natureza estritamente processual.
Noutras palavras: assim como o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva não pode dizer que foi “inocentado” das acusações que
o levaram à cadeia no âmbito da Lava Jato, porque seu processo foi apenas
anulado em razão de erros processuais, Flávio Bolsonaro também não foi
“inocentado” de nada, pois ele nem sequer foi julgado, também graças a
filigranas jurídicas.
Mas há outros esqueletos relevantes no
armário do sr. Flávio Bolsonaro, relembrados na entrevista. Por exemplo, sua
perturbadora relação com milicianos do Rio de Janeiro. Em discurso em 2007, o
então deputado estadual qualificou a milícia como “novo tipo de policiamento”,
em que “um conjunto de policiais (...), regidos por uma certa hierarquia e
disciplina”, busca, “sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de
pior: os criminosos”. E acrescentou: “Eu, por exemplo (...), gostaria de pagar
R$ 20, R$ 30, R$ 40 para não ter meu carro furtado na porta de casa, para não
correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, de ter um filho
empurrado para as drogas”.
Em outras palavras, Flávio Bolsonaro
considera legítimo que policiais se juntem para cobrar de moradores de favelas
pelo serviço de segurança que eles já recebem salário do Estado para executar.
É o elogio à máfia.
Não bastasse isso, Flávio condecorou diversos
policiais suspeitos de pertencerem às milícias e aboletou em seu gabinete na
Alerj a ex-mulher e a mãe de um dos mais cruéis milicianos do País, Adriano da
Nóbrega.
Assim como no caso das “rachadinhas”, o hoje
senador negou qualquer relação com milicianos, dizendo-se vítima de “falsas
narrativas”. Pode até ser, mas parece claro que a zona de conforto de Flávio
Bolsonaro é bem menor do que ele imaginava.
A boia do FGTS
Por O Estado de S. Paulo
Governo quer liberar o fundo para a quitação
de dívidas, em nova distorção de finalidade
Incumbido pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva da missão de reduzir os elevados índices de endividamento da população, o
ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo estuda permitir que
os brasileiros utilizem recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
(FGTS) para abater dívidas.
Dados variados, sejam do Banco Central ou de
entidades como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
(CNC), têm sistematicamente apontando para um quadro de comprometimento de
renda, endividamento e inadimplência crescentes.
Mesmo num cenário de nível de emprego e
rendimento médio do trabalho recordes, milhares de brasileiros têm tido
dificuldade para chegar ao fim do mês ou pagar contas básicas.
O governo, que esperava colher votos com a
isenção de Imposto de Renda para trabalhadores formais que recebem até R$ 5 mil
por mês, agora tenta encontrar, antes das eleições de outubro, meios de conter
o endividamento que tortura a população.
A ideia é envolver o FGTS em um novo programa
de renegociação de dívidas, menos de dois anos após o encerramento do
Desenrola, que também tinha por objetivo salvar o brasileiro endividado. Como
se vê, não deu certo.
Não deixa de ser curioso que um governo que
gasta demais e incentiva a população a fazer o mesmo, forçando o Banco Central
a apertar a política monetária, cogite agora permitir que o brasileiro acesse
seu sub-remunerado FGTS para quitar dívidas contraídas a juros altos.
As tentativas de instrumentalização do fundo,
por sinal, não são de hoje. Desde que o governo Temer liberou, em 2017, o saque
de contas inativas do FGTS para “reaquecer” a economia, não param de surgir
ideias de utilização desses recursos para fins que nada têm a ver com a função
para a qual eles foram concebidos.
No ano passado, o governo Lula tentou
negociar com os bancos um modelo de crédito consignado privado com garantia do
FGTS. Caberia aos bancos cumprir um teto de juros, enquanto o trabalhador teria
o “direito” de contrair dívidas usando os recursos que forçadamente acumula no
fundo.
Como daquela vez a ideia não prosperou, o
governo agora inverte o sinal. Sai o FGTS como garantia para a tomada de
crédito e entra o FGTS como recurso para abatimento de dívida.
Não será o FGTS que resolverá o grave
problema do endividamento do brasileiro, que passa pelos juros altos, pelo
custo de vida elevado e por questões ainda não plenamente compreendidas pelos
especialistas, como potenciais efeitos colaterais do aumento da bancarização no
Brasil.
Ademais, as finalidades do FGTS são: 1) constituir e preservar a reserva financeira do trabalho; e 2) fomentar investimentos em habitação, saneamento e infraestrutura para a melhoria da qualidade de vida da população. A primeira seria mais bem cumprida se o brasileiro pudesse dispor dos recursos do fundo como bem quisesse. Já a segunda vem sendo sacrificada por governos com baixa popularidade.
Com crise global, força dos fundamentos é a
melhor defesa
Por Valor Econômico
Kristalina Georgieva, diretora-gerente do
FMI, ressalta que boas políticas públicas podem ajudar a reduzir o impacto da
guerra no Oriente Médio nas populações
O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o
Banco Mundial (Bird) abrem seu encontro de primavera hoje em Washington sob uma
grande incerteza provocada pela guerra de EUA e Israel contra o Irã. A
diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, foi incisiva na quinta-feira
(9/4): essa guerra provocou um clássico choque negativo de oferta e é
inevitável um ajuste da demanda, o que trará algum sofrimento aos países.
Georgieva ressaltou que boas políticas públicas podem ajudar a reduzir o
impacto desse choque nas populações, mas ela alertou que os governos devem ter
cuidado para não piorar a situação. E fez um apelo para que os governos
nacionais rejeitem ações isoladas (populistas), como controles de exportação e
de preços, que podem desestabilizar ainda mais o cenário global. “Não joguem
gasolina no fogo”, disse ela, recomendando que o apoio fiscal deve permanecer
direcionado e temporário.
No caso do Brasil, o governo optou por dar o
sinal errado, com medidas que mascaram a alta dos preços — cortes de impostos,
subvenções ao diesel e ao gás de cozinha e crédito subsidiado às empresas de
aviação —, o que adiará o necessário ajuste da demanda à nova realidade, com
risco de prolongar o sofrimento e aumentar a conta fiscal lá na frente. Entre
as críticas dos analistas ao pacote de “bondades” do governo brasileiro está
exatamente a opção por medidas que distorcem os preços, que deixam de refletir
o seu valor real de mercado, e levam a gastos maiores. Gabriel Leal de Barros,
economista-chefe da ARX Investimentos, observou ao Valor (7/4) que seria muito
mais barato e efetivo no caso do diesel dar uma bolsa-caminhoneiro. “Haveria um
custo definido e a medida seria de fato para quem realmente é afetado. Seria
cirúrgico e focalizado.”
Os impactos da guerra estão se disseminando
rapidamente na economia real. Dados de inflação divulgados na sexta-feira, no
Brasil e nos EUA, revelaram uma aceleração maior que a estimada pelos analistas
na pressão dos preços. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)
subiu para 0,88% em março, de 0,70% em fevereiro, segundo apurou o IBGE.
Trata-se da maior taxa para o mês de março desde 2022 (1,62%) e ficou acima do
teto das projeções dos analistas e instituições ouvidos pelo Valor Data. Em
março, o preço da gasolina subiu 4,59% e foi a principal causa da alta do IPCA,
com um impacto de 0,23 ponto percentual. No acumulado em 12 meses até março, o
IPCA subiu para 4,14%.
Nos EUA, o índice de preços ao consumidor
atingiu 3,3% ao ano em março, seu nível mais alto em dois anos e bem acima da
taxa de 2,4% de fevereiro e da meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco
central americano). A aceleração na inflação é resultado da forte alta nos
preços da gasolina, que por sua vez derrubou a confiança do consumidor a
mínimas históricas.
O FMI e muitos economistas privados alertam
que isso é apenas o começo. Os efeitos da guerra na economia continuarão nos
próximos meses, mesmo com um eventual acordo de paz no Oriente Médio — o que
ontem se tornou mais distante, com o fracasso das negociações entre EUA e Irã.
O aumento recorde nos preços da gasolina foi acompanhado por custos mais
elevados de fertilizantes e diesel, que encarecem passagens aéreas, bem como os
preços dos alimentos e transporte. Essa alta reflete os danos significativos na
infraestrutura e interrupções no fornecimento que mudaram o cenário no lado da
oferta de petróleo, gás e derivados. Um exemplo disso é o complexo de Ras
Laffan, no Catar, produtor de 93% do gás natural liquefeito (GNL) produzido no
Golfo Pérsico. Cerca de 80% dessa produção era destinado aos países da
Ásia-Pacífico, que agora enfrentam grave escassez de combustível. Ras Laffan
está praticamente paralisado desde 2 de março, sofreu impactos diretos em 19 de
março e pode levar de 3 a 5 anos para retornar à plena capacidade. “Mesmo na
melhor das hipóteses, não haverá retorno imediato e sem complicações ao ‘status
quo’ anterior”, disse Georgieva.
Esse novo cenário poderá obrigar os bancos
centrais a ajustarem mais rapidamente suas políticas. Nesse ponto, a
diretora-gerente do FMI também foi enfática: se as expectativas de inflação
ameaçarem sair do controle e desencadear uma espiral inflacionária, os BCs
devem intervir firmemente com aumentos nas taxas de juros. Isso irá frear ainda
mais o crescimento, “mas é assim que [os juros elevados] funcionam e esse é o
preço certo a pagar pela estabilidade de preços”, acrescentou ela.
Não fosse por esse choque da guerra, o FMI estaria melhorando as projeções de crescimento da economia global. Em vez disso, o Panorama Econômico Mundial (WEO) que será divulgado nesta terça-feira (14/4) trará números revisados para baixo e uma série de cenários, dadas as incertezas em torno do conflito no Oriente Médio. “O que sabemos é que o crescimento será mais lento — mesmo que a nova paz seja duradoura”, disse Georgieva, ressaltando que a lição mais importante aos governos é: boas políticas fazem a diferença e a força dos fundamentos é a melhor defesa quando ocorrem os choques — e eles acontecem.
Mundo precisa de mais esforços para acabar
com a guerra
Por Correio Braziliense
A geopolítica do petróleo afeta a vida dos
cidadãos e a dinâmica das nações. Prolongar essa guerra significa espalhar cada
vez mais instabilidade pelo mundo
Depois de semanas de combates e do fracasso
das negociações mediadas pelo Paquistão, a guerra no Oriente Médio pode entrar
em nova fase crítica. No último domingo, Donald Trump publicou, em sua rede
social, que a Marinha dos Estados Unidos bloqueará totalmente o Estreito de
Ormuz e interceptará qualquer navio que pague "pedágios" ao Irã. Após
o anúncio, na última terça-feira, de um cessar-fogo que já demonstrou ser
frágil, a falta de acordo em Islamabad e a mais recente ameaça de Trump elevam
a tensão pelo mundo. Se confirmada a medida sobre a artéria por onde fluem
cerca de 20% do petróleo global, a diplomacia novamente perde espaço e os
reflexos tendem a ficar ainda mais complexos.
Também ontem, a Casa Branca divulgou que o
principal ponto de discórdia na mesa de discussões em território paquistanês
foi a questão nuclear. O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação dos
EUA, afirmou que o impasse ocorreu como resultado de Teerã se recusar a aceitar
os termos de Washington para abandonar o desenvolvimento de armamento atômico.
Do lado oposto, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf,
disse que seu país atuou com "boa-fé e a vontade necessária", mas não
confia na outra parte devido a experiências anteriores. Ele garantiu também que
o Irã reagirá a qualquer investida do inimigo.
Essa ruptura, com um possível cerco naval
norte-americano, eleva a preocupação internacional. Na Ásia, potências como
China e Índia veem seu suprimento energético vital ser transformado em moeda de
troca de guerra. Na Europa, os fantasmas da inflação alta e do crescimento zero
tornam-se uma realidade palpável à medida que os custos de transporte e energia
corroem o poder de compra das pessoas.
Nesse jogo de xadrez, Donald Trump parece
continuar apostando que a força levará a um acordo nuclear definitivo. Mas a
resistência de Teerã também segue mostrando seu poder. Fato é que uma escalada
do confronto em Ormuz pode reduzir a distância para a recessão global. A
estabilidade do estreito é uma necessidade, e manobras militares em suas águas
podem provocar o estrangulamento da economia global.
Em termos de combate, é de conhecimento que o
Irã tem minas navais, drones e lanchas rápidas projetadas especificamente para
atacar embarcações — arsenal com potencial de subir os custos para os
norte-americanos. Além disso, a intensificação do bloqueio naval, com a entrada
dos EUA no cenário, agrava a situação da população iraniana, que sofre com
milhares de mortes e todas as demais consequências dos ataques. Sem contar o
perigo iminente de o conflito se expandir para outros países da região.
A geopolítica do petróleo afeta a vida dos
cidadãos e a dinâmica das nações. Prolongar essa guerra significa espalhar cada
vez mais instabilidade pelo mundo. O fracasso no Paquistão e o anúncio de Trump
aumentam os desafios para os negociadores, porém não podem enfraquecer a busca
por um acordo de paz definitivo.
As vidas perdidas e o preço pago na bomba de gasolina, e no mercado em geral, precisam falar mais alto. Andar por muito tempo sobre a corda bamba econômica desse conflito pode ser fatal em diversos sentidos. Acabar com a guerra é uma questão de autopreservação global. Quanto mais tempo e mais severo for o confronto, mais perto o mundo chega de um colapso logístico e financeiro, do qual levará anos para se recuperar.
Os amores, as rupturas e as vozes dos 300
anos de Fortaleza
Por O Povo (CE)
Que os 300 anos inspirem um futuro justo,
acolhedor, seguro e feliz para todos os fortalezenses que amam Fortaleza apesar
de tudo, e por causa de tudo
Anualmente O POVO se encontra no desafio de
comemorar o aniversário de Fortaleza. Em 300 anos, o jornal cobriu inúmeras
facetas da Cidade. Desde 1996, foram 30 abordagens que desenharam uma Fortaleza
transformadora e transformada, mutante, desigual e acolhedora. O que falar da
Capital após tantos parágrafos escritos? Como comemorar um marco tão singular
como os três séculos? Talvez fossem necessárias mais de 300 vozes — e assim foi
feito.
O POVO apostou na Fortaleza que existe nos
retalhos de memórias e sentimentos de quem nasceu ou foi adotado, mora ou morou
por e nesta Cidade. Uma Fortaleza que pode ser definida por praias, vento e
sol, mas também vive na metafísica do amor, na risada das crianças, no suor do
trabalhador, na esquina de casa. Por meio de um formulário eletrônico e saídas
a campo, os jornalistas do O POVO+ recolheram mais de 300 relatos que tentavam
responder, em uma palavra, à pergunta: "Qual é sua razão para amar
Fortaleza?".
Como quase todo sentimento que transborda,
para muitos uma palavra era impossível. Precisavam de várias. Precisavam de
parágrafos, de poesia, de músicas, de mapas e de linhas temporais. Todas elas
foram aceitas e delas surgiram quatro reportagens e quatro crônicas, publicadas
no O POVO+ e disponíveis gratuitamente até hoje, 13 de abril, como um presente.
Na grandiosidade do especial, O POVO queria
mais do que resumir 300 anos. A decisão foi de reconstituí-los e analisá-los em
15 rupturas, a partir do olhar dos estudiosos, escritores e jornalistas Lira
Neto e Paulo Linhares. Os fascículos colecionáveis serão publicados
semanalmente neste mesmo impresso até 25 de julho, em uma ampla biografia de
Fortaleza.
Todos os dias, as páginas deste jornal retratam as complexidades de Fortaleza, no exercício constante do jornalismo de qualidade, aprofundado e crítico. O amor, a raiva, a felicidade e a tristeza; a destruição e a reconstrução, o esquecimento e a memória traduzem-se nos parágrafos do O POVO, sempre na tentativa de capturar todos os detalhes seculares da formação da Capital mais populosa do Nordeste e a quarta do Brasil. Que os 300 anos inspirem um futuro justo, acolhedor, seguro e feliz para todos os fortalezenses que amam Fortaleza apesar de tudo e por causa de tudo.

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