segunda-feira, 13 de abril de 2026

Geração atual não se identifica com referências políticas consagradas, por Preto Zezé

O Globo

Jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência

Os números chamam a atenção, mas o erro começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos, o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.

Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.

Essa geração cresceu num ambiente de desconfiança permanente, não só sobre a política, mas sobre as instituições. Chega à vida adulta num tempo em que a política é tratada como suspeita, associada a escândalo, conflito e desgaste, enquanto a atividade empresarial passa a ser vista com desconfiança generalizada, muitas vezes reduzida à ideia de má-fé ou ilegalidade. A agenda pública ora é capturada pela polarização algorítmica, ora anexada aos interesses do gestor de plantão, aprofundando o distanciamento e desorganizando referências básicas de confiança.

O jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência para discursos que não dialogam com a vida concreta. Passa a testar, filtrar e desconfiar de tudo, enquanto vive uma realidade de renda instável, trabalho precário e sensação de futuro travado.

Parte da análise pública escorrega ao explicar o afastamento como simples virada ideológica. A ideia de migração automática para a direita pode confortar alguns diagnósticos, mas não dá conta da complexidade do fenômeno, em que o mais evidente não é adesão plena a outro campo, e sim um deslocamento de confiança em relação ao que já está posto.

Essa mudança exige outro tipo de resposta, que não se resolve com troca de slogan, ajuste estético ou tentativas artificiais de falar a língua do jovem. O problema é mais profundo e envolve presença, experiência e pertencimento — dimensões que só se consolidam quando a política deixa de ser discurso e passa a ser vivida no cotidiano.

Em diversos espaços, surgem experiências que ajudam a entender o momento por operarem na vida real, e não só na narrativa. São iniciativas simples na forma, mas com impacto concreto, construídas com presença, acompanhamento cotidiano e participação efetiva de quem vive o território, sem escuta protocolar ou participação decorativa.

A comunicação então deixa de ser peça e passa a ser voz; a representatividade deixa de ser simbólica e se transforma em poder concreto; e a política deixa de ser anúncio para se tornar experiência. Isso altera a percepção: em vez de perguntar se é de direita ou de esquerda, passa-se a avaliar se funciona e melhora a vida.

Ao mesmo tempo, consolida-se uma crise geracional de identificação com referências políticas tradicionais, somada à dificuldade crescente dos veículos de comunicação em produzir leitura crítica com profundidade. Muitas vezes, eles reproduzem o enredo dominante, com pouca abertura a reflexões e contradições. Isso reforça a sensação de repetição e gera desconfiança entre essa geração.

O que está em disputa hoje, portanto, não é só o voto, mas o significado e a capacidade de ocupar, de forma concreta, o imaginário do futuro — um espaço que já não está garantido para ninguém.

 

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