sábado, 9 de maio de 2026

Dinheiros degradados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Brasil insiste em piorar uma das principais invenções humanas, a moeda que é o meio de troca universal

Vales refeição e FGTS são formas pioradas de dinheiro que só beneficiam lobbies específicos

dinheiro é uma das mais importantes invenções da humanidade. Ele pode ser descrito como uma realidade imaginária, abstrata e contável, que funciona como meio de troca universal, com o qual todos os membros de uma sociedade podem intercambiar as coisas que produzem e os serviços que prestam por aqueles de que têm necessidade.

Sem o dinheiro como intermediário, se eu quisesse levar um filé para o jantar da família, teria de encontrar um pecuarista ansioso para adquirir colunas de jornal, o que quase certamente me condenaria à inanição. A economia tem uma escala com a existência desse meio de troca e teria outra se dependêssemos só do escambo.

No Brasil, uma combinação de lobbies com paternalismo tem nos levado a tentativas de piorar o dinheiro. Destaco duas que ganharam o noticiário.

A primeira são os vales refeição e alimentação. A pretexto de assegurar que o trabalhador se alimente bem, inventamos esses famigerados vales que não passam de uma forma degradada de dinheiro. Só podem ser recebidos por estabelecimentos específicos como restaurantes e supermercados credenciados, que precisam pagar altas taxas às administradoras pelo "privilégio" de aceitá-los.

Perde o trabalhador, que fica com menor agência sobre seus proventos, perdem os comerciantes, que têm de aceitar condições às vezes draconianas, e perde o contribuinte, já que há subsídios tributários no esquema. Só ganham os intermediários.

A segunda é o FGTS. A pretexto de criar uma reserva financeira que proteja o trabalhador em tempos difíceis e para financiar a construção civil, criou-se um parassalário em moeda degradada. O sujeito não pode dispor livremente do dinheiro que está em seu nome, e o pecúlio ainda é remunerado a taxas muito inferiores às de mercado. Nada contra a construção civil, mas é sacanagem financiá-la à custa do trabalhador. Se ela é uma prioridade, que caia na conta do Tesouro, concorrendo com outras prioridades.

Não será piorando uma invenção tão boa como o dinheiro que chegaremos a algum lugar.

 

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