Correio Braziliense
O litígio entre os dois se
acirrou com a rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF,
articulação liderada pelo próprio presidente do Senado
A ausência do presidente do Congresso, Davi
Alcolumbre (União-AP), no lançamento do programa “Brasil Contra o Crime
Organizado”, no Palácio do Planalto, frustrou as expectativas do presidente
Luiz Inácio da Silva de que pode haver uma agenda de colaboração entre o
Palácio do Planalto e o Senado, que cicatrize as feridas da rejeição do nome do
advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Essa
foi a maior derrota Lula no Congresso.
Durante o lançamento, ao lado do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), Lula não deixou por menos: “O dia que o Senado aprovar a PEC da Segurança, nos próximos dias, nós criaremos Ministério da Segurança Pública neste país”, afirmou. Lula mencionou, também, que sempre se opôs à criação de um Ministério da Segurança Pública sem que antes fosse definido o papel do governo federal na área.
A PEC é o coração do programa “Brasil Contra
o Crime Organizado”, iniciativa do governo federal voltada ao enfrentamento das
organizações criminosas no país. A Constituição de 1988 concentrou a
responsabilidade da segurança nos estados como reação ao período em que a
política de segurança era conduzida pelo governo federal sob comando militar.
“Agora, nós estamos sentindo a necessidade de
que o governo federal volte a participar ativamente, mas com critério e com
determinação, porque nós não queremos ocupar espaço de governadores nem o
espaço da polícia estadual. Mas o dado concreto é que se não trabalhar junto, a
gente não consegue vencer. E o crime organizado se aproveita da nossa divisão”,
argumentou Lula.
O texto da PEC aguarda despacho de Alcolumbre
para início da tramitação na Casa. Porém, enfrenta uma disputa política que se
traduz em diferentes narrativas sobre o enfrentamento do problema. A violência
é a principal preocupação do brasileiro urbano, inclusive nas médias cidades, e
está no centro do debate eleitoral. Parlamentares e governadores de estados da
oposição se opõem à PEC, com o argumento de amplia de forma excessiva as
atribuições do governo federal.
A PEC prevê, entre outros pontos, maior
integração entre União e estados e a constitucionalização do Sistema Único de
Segurança Pública (Susp). Com razão, o Palácio do Planalto avalia que medidas
isoladas adotadas por estados não são suficientes para enfrentar estruturas
criminosas que atuam de forma interestadual e internacional. Com o lançamento
do programa, ontem, Lula tenta destravar as negociações com estados e o
Centrão, para acelerar a adoção de medidas mais amplas de combate ao crime
organizado.
No lusco-fusco da queda de braço, a chamada
“bancada da bala” não perde a iniciativa. Ontem, a Comissão de Segurança
Pública da Câmara aprovou um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviços (FGTS) para comprar armas de fogo. Apesar do absurdo, o
projeto foi aprovado em cerca de um minuto, sem discussão dos parlamentares.
A proposta agora seguirá para as comissões de
Finanças e Tributação, de Trabalho e Constituição e Justiça. De autoria do
deputado Marcos Pollon (PL-MS), o projeto foi relatado na comissão pelo
deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que se posicionou favorável à proposta. O
valor do saque deverá ser igual ao preço da arma, da cota anual de munições
correspondentes à arma adquirida e acessórios essenciais à sua guarda segura do
armamento.
Rota de colisão
Com Lula e Alcolumbre em rota de colisão, a
PEC da Segurança Pública naufragará. O litígio entre os dois se acirrou com a
rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF, articulação liderada
pelo próprio presidente do Senado, insatisfeito com a não indicação do senador
Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para o cargo no Supremo, como gostaria.
Há outras agendas conflituosas. Alcolumbre
aliou-se ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na derrubada dos vetos de Lula à
mudança na dosimetria das penas dos condenados da tentativa de golpe de Estado
de 8 de janeiro de 2023, o que sinaliza um desembarque do projeto de reeleição.
Após a derrota, porém, o governo evitou demitir aliados de Alcolumbre, como o
ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes.
Como presidente do Senado, Alcolumbre se
colocou numa posição de força. Seu jogo bruto também tem a ver com o Caso
Master, cujas investigações pretende circunscrever ao escândalo financeiro. Por
essa razão, bloqueou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito
sobre o banco. Segundo relatos, Alcolumbre acertou com a oposição o
arquivamento da CPI em troca da votação de outras prioridades dos
bolsonaristas, como o veto à dosimetria.
Investigado pela PF, o caso Master envolve
suspeitas de irregularidades financeiras que agora chegaram a um dos principais
aliados de Alcolumbre, o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do
Progressistas. O nome de Alcolumbre constaria na lista de contatos de Daniel
Vorcaro, dono do banco. Investigações apontam que a Amapá Previdência, cujo
comando era ligado a Alcolumbre, investiu milhões em papéis do Master, o que
levantou suspeitas sobre a relação entre o senador e o banqueiro, que está
preso.

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