O Globo
Presidente atira para todos os lados em busca
de popularidade, mas pacote improvisado terá de vencer cansaço mais profundo
demonstrado pelo eleitor
Com a água subindo perigosamente ao casco do
navio, Lula resolveu acelerar ideias que estavam tempo demais em gestação para
turbinar simultaneamente a avaliação de seu governo e suas chances eleitorais.
No curso de pouco mais de uma semana, saíram o novo Desenrola, um plano de
combate ao crime organizado com injeção de R$ 11 bilhões e, como bônus, o fim
da “taxa das blusinhas”.
São medidas que apontam para todo lado, diferentemente do receituário de última hora adotado por Jair Bolsonaro em 2022. Este apostou quase unicamente em iniciativas populistas de repasse de renda e concessão de benefícios tributários, furando o teto de gastos e contrariando até vedações da lei eleitoral (que proíbe alguns repasses em período de campanha) — depois, trechos da PEC Kamikaze, que aprovou a derrama com votos até da esquerda, foram considerados inconstitucionais.
No caso de Bolsonaro, as benesses de última
hora — que incluíam o aumento do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 só até
dezembro de 2022, redução de impostos dos combustíveis, aumento do vale-gás e
um abono para caminhoneiros — não foram suficientes para levar à reeleição, mas
as pesquisas mostraram melhora de sua competitividade à medida que o dinheiro
era colocado na praça.
O arsenal de Lula é mais variado, além de
incluir medidas coerentes com o que ele pregou na campanha e com iniciativas já
adotadas desde o início do mandato, como a reforma do Imposto de Renda e a
segunda edição do programa de refinanciamento de dívidas. Mas a decisão de
atirar em várias direções, e tão tardiamente em muitos casos, evidencia alguns
dos problemas estruturais deste terceiro mandato, apontados, muitas vezes, por
integrantes do próprio Executivo.
A dificuldade de o Planalto coordenar as
ações das demais pastas, arbitrar divergências de visões e definir a linha a
seguir foi uma tônica desde 2023. Rui Costa, agora fora da cadeira, era
frequentemente criticado pelos colegas por não deixar que as coisas andassem.
Todas as medidas que saem do forno agora estavam marinando havia meses, algumas
havia anos.
O diagnóstico de que o governo precisaria ser
mais presente no tema da segurança pública vem da campanha. A disputa entre os
que defendiam a manutenção da área no guarda-chuva do Ministério da Justiça e
dos que pressionavam pela criação de uma pasta específica nunca foi devidamente
arbitrada por Lula. Nos estertores do mandato, ele diz que pode optar pela
cisão do ministério caso a PEC da Segurança passe no Senado. Fazer isso agora
segue uma lógica unicamente eleitoreira. Pouco ou nenhum resultado efetivo dessa
mudança poderá ser apresentado ao cidadão/eleitor.
A razão dos anúncios parece ser menos atender
às demandas específicas e mais compor um pacote robusto o suficiente para criar
a percepção de um governo em plena atividade. Os estrategistas acreditam que o
volume de ações, devidamente propagandeadas, pode fazer diferença nas
pesquisas. Mas ainda é cedo para colher algum fruto. Qualquer mudança, para
melhor ou para pior, que seja detectada na nova pesquisa Quaest que sai hoje
será devida a fatores anteriores à máquina de soltar medidas.
O cansaço detectado por diversos institutos
com Lula e sua administração parece algo mais profundo e espalhado por
diferentes segmentos de renda, escolaridade, religião e por boa parte do país.
A reversão desse sentimento pode passar, sim, pela constatação de que o governo
age para melhorar a vida da população, mas, num cenário polarizado, é na
comparação com o outro candidato que reside a decisão de voto.
O embate direto com Flávio Bolsonaro é a
parte 2 da estratégia lulista, até aqui entregue a aliados do presidente, antes
que ele próprio entre no ringue. Tanto para as entregas de governo quanto para
esse confronto com o bolsonarismo, o tempo exíguo contribui para tornar o
desafio de Lula mais complexo.

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