quinta-feira, 21 de maio de 2026

Capa de celular e filme B no debate, por Julia Duailibi

O Globo

Decisão sobre manutenção da candidatura de Flávio será única e exclusivamente de Jair Bolsonaro

Os tentáculos do Master atingiram Flávio Bolsonaro e agora começam a dar voltas pelo seu pescoço, a ponto de integrantes de seu partido, o PL, saírem falando por aí que em 15 dias decidirão se mantêm a candidatura de pé ou não. A cúpula do PL pode até causar nos bastidores, mas pouco tem a fazer diante da decisão que será única e exclusivamente de Jair Bolsonaro, como foi dele o projeto de lançar o primogênito à Presidência, e não Tarcísio de Freitas, nome preferido dos chefões da sigla. Depois da repercussão ruim, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, veio a público dizer que o deadline de 15 dias, estabelecido numa reunião interna, não dizia respeito à manutenção da candidatura do senador, mas sim à retomada de seu crescimento nas pesquisas eleitorais.

É irrelevante o que ele diga em privado ou em público. Valdemar terceirizou o partido para Bolsonaro, e é Bolsonaro quem decidirá se Flávio fica ou não. O presidente do PL fez essa concessão ao clã de olho no que realmente importa para ele: eleger grandes bancadas no Congresso. Quanto maior a bancada, maior a fatia de dinheiro público que pinga nas contas do partido, via fundo eleitoral. Somente neste ano, Valdemar terá em mãos R$ 880 milhões para tocar a eleição. Comprar briga com os Bolsonaros agora não parece ser bom negócio.

Bolsonaro tende a manter Flávio na disputa por uma questão simples: a candidatura dele não foi lançada para ganhar, mas para manter a base bolsonarista coesa em torno do clã, evitando a dispersão dela em direção a outro candidato que, uma vez eleito, se tornaria o novo líder da direita, engolindo Bolsonaro. Se não fosse por isso, Tarcísio teria sido o candidato. O bom desempenho de Flávio nas pesquisas, antes da parceria cinematográfica com Vorcaro, não estava precificado. Sua candidatura passou a ter perspectiva de vitória à medida que ele vestiu o figurino do “Bolsonaro que toma vacina”, e parte do eleitorado resolveu passar o pano para os detalhes do currículo, como rachadinha e ligações com milicianos. Além disso, mesmo com o enrosco do “Dark Horse” e o que mais aparecer em eventuais delações e afins, Bolsonaro não tem o perfil de quem passará recibo para as denúncias e substituirá o filho, mandando um recado para o público de que o Zero Um tem mesmo culpa em cartório.

Do lado do PT, a manutenção de Flávio na corrida é o melhor dos mundos. Lula enfrenta um adversário enfraquecido não só pelas denúncias, mas pelas mentiras contadas para rebatê-las. O governo assiste de camarote ao senador ser engolido pelos tentáculos de Vorcaro e, paralelamente, toca seu pacote eleitoreiro, na esperança de que não só a qualidade do adversário, mas as entregas às vésperas da eleição fortaleçam Lula. Ontem foi crédito para motorista de aplicativo comprar carro, lembrando o auxílio-taxista de Bolsonaro em 2022.

O eleitor que se prepare para uma campanha em que os temas centrais passarão por eventuais desvios num filme B sobre a vida de Bolsonaro e pelo fato de “capinhas de celular e canetas” serem consideradas pelo governo itens básicos da população, como chegou a dizer um ministro palaciano ao defender o fim da taxa das blusinhas.

 

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