quinta-feira, 21 de maio de 2026

O BC no meio do redemoinho, Por Míriam Leitão

O Globo

O Banco Central vive dias de pressão por causa pelo Banco Master. A situação do BRB é motivo de preocupação e sem solução a curto prazo

O problema do Banco de Brasília (BRB) não está resolvido. Longe disso. O controlador resiste à venda de algum pedaço relevante da instituição que poderia ajudar a enfrentar a crise. Desde o fim de março, o BRB já está pagando multa diária pela não publicação do balanço. A cada solução apresentada, a governadora Celina Leão faz uma pesquisa com a Câmara Distrital e sondagens de opinião pública para ver como a proposta impactaria sua popularidade. Se houver uma queda brusca de liquidez, será difícil evitar o pior.

O governo federal não quer ajudar, porque seria abraçar um desgaste que não foi criado por ele, pelo contrário, foi obra do centrão e do ex-governador bolsonarista, Ibaneis Rocha. O governo do Distrito Federal tem insinuado que, se acontecer algum incidente, terá sido porque a União não ajudou.

Desde 2025, o Banco Central já liquidou 13 instituições: Master, Master BI, Letsbank, Master DTVM, Reag, Advanced Corretora de Câmbio, Will Bank, Pleno, Pleno DTVM, Dank SCD, Entrepay IP, Creditag Cooperativa e Frente Corretora de Câmbio. Se o pior cenário se confirmar em relação ao BRB haverá um grande impacto porque há desdobramentos delicados. O BRB não representa um risco sistêmico, mas pode gerar um problema sistêmico para o poder público. Presta mais de 35 serviços e projetos para o DF e tem em depósitos o dinheiro dos Tribunais de Justiça de vários estados. É mais significativo para os governos do que para o mercado financeiro.

Ao impedir a compra do Master pelo BRB e, em seguida, liquidá-lo, o Banco Central enfrentou todo o tipo de pressão. Ainda enfrenta. Foi acusado de ter demorado a agir, e também de ter se precipitado. Enfrentou ameaças e pressões do Congresso, do Tribunal de Contas da União e do Supremo quando a relatoria do caso estava com o ministro Dias Toffoli. No dia em que apareceu uma proposta sendo votada, de emergência, que dava poderes ao Congresso de demitir o presidente e os diretores da autoridade monetária, o Banco Central não só não se intimidou como liquidou o banco de Daniel Vorcaro no dia seguinte.

Esta semana, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado houve mais uma batalha. O senador Renan Calheiros quis acusar o Banco Central de conivência com o Master e de estar cometendo com o BRB o mesmo erro que teria cometido com o Master. Indiretamente estava dizendo que o BC está atrasando a liquidação. O Banco Central não pode deixar de agir quando um banco entra em quadro de crise irreversível, nem pode fechar um banco por pressão política.

O senador Renan Calheiros tenta a reeleição em Alagoas, enfrentando os deputados Alfredo Gaspar e Arthur Lira numa disputa acirrada. Renan tem razão de dizer que o Centrão pressionou o Banco Central. O ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus, que ameaçou o BC, é do Centrão e indicado por Arthur Lira. Mas Renan acusou Gabriel Galípolo de não ter reagido às pressões, o que não faz sentido. O que o presidente da instituição explicou no debate é que o BC não pode entrar na briga política, nem na disputa de redes sociais. Tem que preservar sua missão que é garantir a estabilidade do sistema financeiro, a estabilidade da moeda e tomar decisões técnicas e na hora certa. No debate acalorado, Galípolo respondeu.

– O Banco Central está respondendo até agora ao Tribunal de Contas da União uma acusação por não ter autorizado ( a compra do Master). O Banco Central e seus servidores foram expostos e caluniados sistematicamente porque não toparam. Coincidentemente, na semana em que o Banco Central rejeitou a compra pelo BRB foi colocada uma proposta de voto para mandar embora o presidente do Banco Central e os diretores. O Banco Central não tem que ir para a televisão, gravar Instagram ou Tik Tok. Não é palanque. Toma a decisão correta independentemente de quem está jogando pedra ou fazendo barulho.

Galípolo disse que, nos bancos que foram liquidados na década de 1990, a técnica foi separar o “banco bom” do “banco ruim” e vender o que era viável. No caso do Master, disse ele, “não havia banco bom”.

O Banco Central se defende de ataques de lados diferentes, fiscaliza um mercado no qual ainda há pelo menos um banco em situação de fragilidade, mantém o aperto monetário contra inflação crescente e continua tentando aprovar uma PEC que possa fortalecer seu quadro de servidores. O projeto que trata do assunto foi novamente adiado.

 

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