segunda-feira, 29 de maio de 2023

Edu Lyra - Lição da maior ONG do mundo

O Globo

Entidade conta com 50 mil funcionários, desenvolvendo projetos em países como Bangladesh, onde nasceu

Será que uma ONG pode mudar um país? Olhando para o trabalho da Brac em Bangladesh, é inevitável concluir que sim.

A Brac é hoje a maior ONG do mundo. Seu orçamento anual é de US$ 1,5 bilhão, e ela conta com 50 mil funcionários, desenvolvendo projetos em países como Bangladesh, onde nasceu, mas também AfeganistãoRuandaSerra LeoaFilipinas e vários outros. Seu fundador, Fazle Hasan Abed, é provavelmente o maior empreendedor social deste século.

Eu sonhava havia anos conhecer a Brac, para aprender com sua expertise. Recentemente o sonho se realizou. Passei uma semana em Bangladesh fazendo uma imersão na ONG e firmando parcerias que potencializarão o trabalho da Gerando Falcões aqui no Brasil.

Minha primeira surpresa positiva foi perceber que a Brac e a Gerando Falcões compartilham a ideia de que a missão do terceiro setor não é passar uma demão de tinta na vida do pobre, mas estudar e construir saídas permanentes, estruturadas, para a pobreza.

A Brac desenvolveu um programa pioneiro chamado Ultra-Poor Graduation. Sua premissa é incrivelmente simples: quem vive na extrema pobreza tem capacidade suficiente para se sustentar, mas tal capacidade é suprimida pelas circunstâncias sociais.

Logo, é preciso transformar esse contexto inteiro, de forma holística, com uma visão 360°, e não se ater somente às ações de transferência de renda. Se oferecemos aos mais pobres uma saída real, eles terão muito mais chances de permanecer “de pé” com autonomia.

O programa de Graduação da Brac atende 70 mil pessoas por ano em Bangladesh, com resultados impressionantes: 95% dos participantes conseguem sair da extrema pobreza, e quase todos (93%) continuam a sentir benefícios advindos do programa por até sete anos. São estatísticas apresentadas não só pela Brac, mas corroboradas por órgãos como a Comissão Independente para o Impacto dos Programas de Ajuda (Icai, na sigla em inglês), do Reino Unido.

Com isso, a Brac está ajudando a revolucionar o panorama social de Bangladesh. O país, que já foi um dos dez mais pobres do mundo, cresce hoje 7% ao ano, resultado de 2022. O contingente abaixo da linha da pobreza, que há três décadas correspondia a 80% da população, hoje está estimado em 10,5%, embora o número real possa ser um pouco maior, dado o impacto da pandemia.

Gradualmente, Bangladesh sai da miséria para se tornar um país de renda média, e não é exagero dizer que a Brac teve papel decisivo nessa transformação.

Esse contexto ajuda a explicar o acordo de cooperação mútua que ela acabou de firmar com a Gerando Falcões. Incorporaremos tecnologias do programa Graduation ao nosso Favela 3D, aperfeiçoando nossas estratégias de superação da pobreza, de monitoramento de qualidade e de escalabilidade. Graduation e Favela 3D, afinal, compartilham o mesmo DNA de combate à pobreza por múltiplas frentes.

A Brac, diante do avanço econômico e social de Bangladesh, precisa “aprender” a combater a pobreza num país emergente, especialmente a pobreza urbana. O conhecimento construído nesses três anos de Favela 3D, com geração e publicação de dados objetivos, quantificáveis, é fundamental, portanto, para que a Brac planeje suas próximas ações e mantenha sua capacidade de inovação neste novo Bangladesh.

A pobreza é um problema global e globalizado. Enquanto existir em um único lugar, o desenvolvimento sustentável da humanidade toda está em risco. Minha visita a Bangladesh serviu, acima de tudo, para reforçar a crença de que só venceremos a pobreza com soluções igualmente globais e globalizadas.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Boa sorte!