quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O alerta de Toffoli para Bolsonaro - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

‘O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais vão deixar um capitão assumir o poder?’

No dia 19 de dezembro de 2022, Jair Bolsonaro participou de um jantar, em Brasília, na casa do então ministro das Comunicações, Fábio Faria. Mas quem pediu para que Faria organizasse o encontro foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. Preocupado com a relutância de Bolsonaro em admitir a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Toffoli chamou o então presidente para uma conversa reservada após o jantar.

“O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais quatro estrelas vão deixar um capitão assumir o poder?”, perguntou o ministro do STF.

A poucos dias do fim do mandato, o presidente ficou em silêncio. Depois, negou que estivesse planejando um golpe. Admitiu, porém, que temia a prisão e a perseguição política, principalmente contra seus filhos. Afirmou, ainda, que jamais passaria a faixa para Lula.

Além de Fábio Faria, o anfitrião, e de Toffoli, compareceram ao jantar o governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o titular da Casa Civil à época, Ciro Nogueira, o procurador-geral da República, Augusto Aras, entre outros.

O objetivo era convencer Bolsonaro a fazer um pronunciamento reconhecendo a eleição de Lula para desmobilizar os acampamentos diante dos quartéis. Nada feito.

O jantar era para ter ocorrido em 14 de dezembro. Na véspera, Bolsonaro telefonou para Toffoli e desmarcou o compromisso.

As datas, agora, se cruzam com a trama descoberta nas investigações da Polícia Federal.

No dia 16 de dezembro, um interlocutor político do presidente ligou para Toffoli bem cedo. Estava no Palácio da Alvorada com Bolsonaro e outros auxiliares e avisou que a situação ali continuava difícil.

As diligências da PF indicaram que o dia anterior, 15 de dezembro, era a data escolhida pelos “kids pretos” para pôr em prática a execução de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro do STF Alexandre de Moraes. Mas o plano foi abortado.

Ao que consta, a reunião do dia 16, no Alvorada, foi para pressionar Bolsonaro a assinar a “minuta do golpe”. Por volta de 15 horas, o interlocutor de Bolsonaro foi à casa de Toffoli, que ganhou o apelido de Rivotril. Disse que, mais do que nunca, era necessário organizar o jantar com o presidente. E assim foi feito.

Um áudio captado pela PF mostra que, no dia do jantar, 19 de dezembro, o coronel Reginaldo Abreu disse ao general Mário Fernandes, hoje preso, que Bolsonaro deveria ter “coragem moral” para avisar os apoiadores que não queria mais o jogo. Para a PF, o capitão tinha um decreto pronto para destruir a democracia. O plano só não foi adiante porque os generais do Alto Comando não aderiram ao golpe.

 

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