O Estado de S. Paulo
Ter uma Casa Alta composta pelos melhores nomes de cada Estado é uma pauta, uma necessidade, da sociedade
Este artigo tem um objetivo concreto. Advertir para a importância do Senado – de como temos em nossas mãos um instrumento incrível, que pode ser muito útil ao Brasil – e para a nossa responsabilidade, enquanto sociedade, de proporcionar que a Casa Alta possa funcionar à altura de suas atribuições constitucionais. Penso que não é uma utopia ter um Senado composto por pessoas sérias e competentes, lideranças reais em seus Estados, capazes de pensar e de realizar o Brasil. Depende de nós.
É entusiasmante ver o aumento, nos últimos
anos, de projetos da iniciativa privada em prol do interesse público. Inquietos
com o País, profissionais de diversas áreas têm contribuído com sua
experiência, seu tempo e seus recursos financeiros para essa necessária
empreitada de prover mais educação, mais segurança, mais saúde, mais cultura,
mais oportunidades de trabalho – enfim, melhores condições de vida – para
todos.
Não obstante – e sem colocar nenhuma ressalva
sobre as iniciativas privadas, que merecem todo apoio –, penso que existe um
projeto de interesse público, já em funcionamento há muitos anos, que demanda
especial cuidado da nossa parte. O Senado Federal.
Precisamos ver o Senado de forma pragmática.
Trata-se de um projeto já implementado, não exige inventar nada, tem incrível
capilaridade sobre todo o território brasileiro, custa caro à sociedade (e vai
continuar custando) e já mostrou, em diversos momentos críticos, que é capaz de
oferecer contribuições significativas ao País. Ou seja, vale muito a pena
cuidar dele.
O Senado é um grande think tank do País. É o espaço
por excelência de reflexão, diagnóstico e debate sobre os grandes temas
nacionais. O mandato de oito anos propicia a perspectiva mais ampla, o olhar de
longo prazo. Ele é também um potente action
tank. Transforma os estudos e propostas em decisões, articulando
atores, construindo maiorias, viabilizando a implementação das políticas
públicas aprovadas.
Mas com o que nós, enquanto sociedade,
podemos contribuir para que o Senado cumpra bem sua missão?
Eu diria que a grande ajuda ao Senado por
parte da sociedade civil organizada é trabalhar para que, em cada Estado da
Federação, haja três ou quatro bons e competitivos candidatos ao Senado:
pessoas sérias e competentes, lideranças reais da sociedade, com visão ampla e
responsável dos problemas e das soluções, com conhecimento do setor público e
do setor privado.
É um trabalho de articulação: identificar e
entusiasmar lideranças competentes, formar potenciais talentos, reunir apoio,
dar visibilidade a quem tenha condições. Certamente, tudo isso é papel dos
partidos políticos, mas não deve ficar restrito a eles. Eis o ponto: ter um
Senado composto pelos melhores nomes de cada Estado é uma pauta, uma
necessidade, da sociedade. De que adianta cuidarmos primorosamente dos nossos
conselhos e think tanks, se
descuidamos da instituição que, por designação constitucional, lida, articula e
modula a atuação de todo o Estado brasileiro – do Executivo, do Judiciário, da
Câmara, das agências reguladoras, dos postos diplomáticos?
Imaginemos a potência de um Senado formado
por gente séria e competente, que sabe dialogar. No entanto, paradoxalmente,
essa ideia encontra resistência. Por exemplo, há quem queira fazer do Senado um
anti-Supremo Tribunal Federal (STF), promovendo nomes cuja única bandeira seja
o impeachment de ministros do Supremo. Esse é o atalho para amesquinhar o papel
do Senado. Eleger candidatos que tenham pauta única, seja ela qual for, é
limitar o debate, é reduzir de cara a capacidade cognitiva, reflexiva e
negocial da Casa Alta.
Logicamente, um Senado sério zela por suas
atribuições constitucionais. Entre elas está a de processar e julgar as
acusações de crime de responsabilidade contra ministros do Supremo. Mas não faz
nenhum sentido colocar por oito anos no Senado alguém que não tenha outra ideia
a não ser a de remover ministros do STF. E o restante dos temas? E no restante
dos anos?
Essa ajuda da sociedade – formando e
promovendo, com os partidos, nomes para o Senado – leva tempo para dar frutos.
Por isso, é fundamental trabalhar desde já. E, se não for possível dar ao
Senado uma configuração ideal nestas eleições, que seja ao menos uma melhora, e
não um retrocesso. Assim, estaremos em melhores condições para a legislatura
seguinte, e a seguinte... É um trabalho de longo prazo. Contraproducente é
achar que bons candidatos surgem por magia.
Em todos os Estados há pessoas muito
competentes, de diversas orientações ideológicas. Não falo aqui de fazer um
Senado com determinada cor político-ideológica. Isso seria ignorar o estatuto
do Senado dado pela Constituição. Ele é órgão de representação dos Estados, que
são, sim, diferentes.
Trata-se de assegurar que essa instituição
brasileira, que tem tanto poder – com tanto a contribuir para uma política mais
séria, para um Executivo mais responsável, para um Judiciário com mais
autoridade –, esteja composta por lideranças reais em suas regiões, que sejam
genuinamente exemplares. Que sejam senadores.

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