O Estado de S. Paulo
A designação do PCC e do CV como grupos
terroristas beneficia o crime organizado, Flávio Bolsonaro e Donald Trump, e
cria riscos para os brasileiros, as Forças Armadas, a polícia, o Ministério
Público, a economia, a soberania e a democracia. O regime adotado pelos EUA no
combate ao terrorismo aumenta o sigilo e diminui o compartilhamento das
informações com as polícias e o MP estaduais e federais.
O FBI investiga o terrorismo doméstico. Já os
grupos designados terroristas fora do território americano são objeto da CIA e
das forças armadas.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, as ações antiterroristas passaram a tramitar em tribunais secretos, que suspendem os direitos dos cidadãos estrangeiros.
O controle de atividades financeiras,
viagens, tráfico de drogas, armas e pessoas pode ser – e tem sido – imposto no
âmbito da cooperação entre EUA e Brasil. A caracterização do crime organizado
como terrorismo não acrescenta eficácia a essas ações de inteligência. Ao
contrário.
Corta os vasos comunicantes entre os órgãos
de investigação capazes de se infiltrar, reunir provas, interrogar, prender e
levar criminosos à Justiça. A doutrina americana de combate ao terrorismo no
exterior substitui policiais e promotores treinados para esse combate por
militares que não têm essa expertise. Militares são treinados para matar o
inimigo e destruir o alvo, não para investigar criminosos.
CORRUPÇÃO. Operações militares em áreas
densamente povoadas, como é o caso das favelas brasileiras, já levaram no
passado a mortes de inocentes. Diferentemente do terrorismo, o crime organizado
é uma atividade altamente lucrativa que corrompe policiais, juízes e políticos.
Essas categorias agem com autonomia e a corrupção tende a ser localizada.
Militares são dotados de espírito de corpo e
hierarquia rígida, sem os quais não obedeceriam ordens que podem levar a sua
morte. O contato com o crime organizado pode corromper toda uma corporação
militar.
Com a designação, toda negociação entre os
governos americano e brasileiro se dará sob a ameaça de sanções financeiras e
ações militares a título de defesa da segurança nacional dos EUA. O Pix, que
concorre com os cartões de crédito americanos, por exemplo, pode servir de
pretexto de bloqueio do acesso dos bancos brasileiros ao dólar.
AUTORITARISMO. A designação aumenta o poder dos EUA e a insegurança jurídica dos negócios no Brasil. Na eventual eleição de Bolsonaro e adoção dessa doutrina por seu governo, militares adeptos dessas visões podem entrar pela porta da segurança pública para atropelar direitos civis e assumir poderes que só tiveram durante a ditadura.

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