Folha de S. Paulo
Assunto ficou esquecido por contenção de
reajustes de Petrobras, subsídios e pressão sobre empresas
Mesmo que crise continue a esfriar, o que é
otimismo, aumento de custos vai durar por meses
O preço médio do diesel no Brasil parou
de subir desde a semana encerrada em 28 de março até a semana finda em 11 de
abril, dado público mais recente da estatística da Agência Nacional
do Petróleo (ANP).
O da gasolina ficou praticamente estável. Na média nacional, favor prestar
atenção.
Ainda assim, o aumento do diesel por causa da guerra foi o maior desde que a ANP publica estatísticas semanais de preços. Ainda assim, vamos repetir, o tamanho da alta foi a metade daquela que se viu nos EUA. Pressões altistas permanecem. O risco de desabastecimento sumiu do noticiário (e da vida?), mas é problema em muito lugar do planeta, da Ásia à Europa, com problemas mais imediatos com o combustível para aviões.
Esquecemos do assunto, pois a dita opinião
pública passou a se ocupar de dívidas das famílias e da final
do BBB, por exemplo.
O que houve? Para usar um eufemismo, houve
moderação da Petrobras,
que diz não estar perdendo dinheiro. A redução de impostos deve ter tido algum
efeito. A pressão do governo federal sobre distribuidoras talvez tenha
intimidado essas empresas. Importante, os preços americanos de referência para
o Brasil deram uma acalmada também. O jornalista ouve explicações variadas, mas
não tem meios de verificar de modo independente o que ocorreu —faltam dados
públicos.
A calmaria relativa vai durar? Como tem se
dito de modo enfadonho, mas inevitável, depende do que vai ser desse desastre
que Donald Trump criou no Irã. Ou desse
cessar-fogo "sujo", com bloqueio americano, ato de guerra econômica,
ou com tiros de iranianos contra navios mercantes. Nesta
quarta (22), atiraram contra o Euphoria, o Epaminondas e o Francesca. Sim,
são os nomes das embarcações, uma gota de pitoresco nesse mar de horrores.
Além disso, a calmaria depende do ritmo de
reabertura de Hormuz e do que vai ser possível produzir de petróleo e gás, dada
a destruição dos bombardeios. Apesar das aparências, do noticiário de guerra
mais frio e da animação de quem negocia dinheiro grande nos EUA, essa
crise vai longe, mesmo arrefecendo. Por aqui, é preciso saber se a Petrobras
vai aguentar o tranco dos preços e se o governo federal vai prorrogar os
subsídios —difícil que Lula 3 se arrisque a mexer nisso antes da tentativa da
eleição de Lula 4.
Da semana encerrada em 21 de fevereiro (a
anterior ao do início da guerra) até a finda em 11 de abril, último dado
público disponível, o
preço médio nacional do diesel aumentou 24,3%. Em períodos de sete semanas,
foi a maior alta desde 2004, início da série de dados da agência reguladora.
Apenas em setembro de 2023 houve salto semelhante. Parte dos impostos sobre
combustíveis voltaram a ser cobrados; a Rússia encrencou a venda de seu diesel
barato.
Convém notar: volta de cobrança de impostos.
Vai acontecer de novo, talvez em 2027. Lembrete: o preço do diesel americano de
referência para o Brasil aumentou 55% no mesmo período.
O preço da gasolina aumentou menos, na média
nacional, 7,4%. No mercado americano de referência, o aumento foi de 49,9%.
Em resumo, alguém está pagando essa diferença
de variação de preços —a Petrobras, outros exportadores de petróleo, o Tesouro
federal e o dos estados
que aderiram ao subsídio. A dita defasagem entre o preço internacional de
referência e o preço doméstico diminuiu bem, decerto, mas ainda é relevante. A
conta da guerra está longe de ser fechada e vai custar para alguém aqui dentro.
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