Folha de S. Paulo
Apelidado de grupo de WhatsApp de um homem
só, americano emprega tática que dificulta as conversas
Já Teerã ataca navios, apostando também de
forma perigosa que os EUA irão piscar primeiro novamente
Após o avassalador ataque nazista à Polônia de
1939, a Segunda
Guerra Mundial entrou em um período de estranha calma. Por oito meses,
houve apenas batalhas esporádicas e muitas preparações, sem nenhuma paz à
vista.
Em sua encarnação como um senhor da guerra
virtual, que ataca e recua por meio de postagens, Donald Trump ensaia
a versão 2026 do que foi apelidado pela imprensa britânica de 1940 de
sitzkrieg, ou "guerra sentada" em alemão, em oposição à blitzkrieg
("guerra-relâmpago") da abertura do conflito.
O presidente americano optou por recuar mais uma vez no seu embate com o Irã, deixando agora em aberto o prazo para que Teerã apresente uma proposta de negociação. Enquanto isso, ambos os rivais mantêm suas posições no teatro de operações navais do estreito de Hormuz, sem ceder.
Os
EUA mantiveram o bloqueio a portos iranianos, imposto para forçar a
abertura da via vital ao mercado de energia mundial. Parece e é contraditório,
mas o Irã também adota ambiguidade: num dia anuncia a liberação do tráfego, no
outro o veta, usando o embargo como justificativa.
Sobressai a posição de Teerã, cujo regime
teocrático tornou-se
um protetorado militar da Guarda Revolucionária. A questão da
reabertura de Hormuz é simbólica: ela foi anunciada também numa postagem pelo
chanceler e negociador Abbas Araghchi na sexta-feira (17).
No dia seguinte, a Guarda já
havia revogado a ordem, que havia sido celebrada em uma torrente de
postagens de Trump, alternando elogios e ameaças ao Irã. A confusão metódica
sugere o americano jogando com as divisões no rival, mas também sem
interlocutor certo.
É uma aposta de risco. É fato que a teocracia
teve boa parte de sua elite morta e suas forças ofensivas manietadas. Isso
dito, ainda controla Hormuz, e o medo de uma retaliação que destrua boa parte
da capacidade do golfo Pérsico de produzir petróleo guia os
sucessivos recuos de Trump.
Para o regime iraniano, é uma luta
existencial. Para o americano, uma corrida contra o cronograma que o colocará
diante de um eleitorado crescentemente hostil nas eleições congressuais de
novembro. Deixar o conflito em banho-maria é uma opção, mas ela favorece Teerã.
A
tática errática do republicano também dificulta a construção de
confiança mínima. Chamado pela diplomacia iraniana de "grupo de WhatsApp
de um homem só", Trump parece que terá de ceder se quiser ver uma solução
mais rápida, ainda que provisória, para a crise.
As conversas
em Islamabad deverão ocorrer, mas é improvável que Teerã aceite termos
restritivos demais a seu programa nuclear. Na prática, tudo sugere que Trump
terá de rever sua rejeição ao acordo de 2015, do qual se retirou em 2018.
O bode adicional na sala é Hormuz. O
prolongamento dos bloqueios só tenderá a ampliar a crise global e pressionar
Trump, e a esta altura o Irã não parece tão preocupado com o impacto na sua já
devastada economia. Não é um nó que se desata em duas reuniões.
É um jogo para ver quem pisca primeiro, não
muito distante da falsa calmaria de há quase 90 anos na Europa. O
problema é que, no mundo ultraconectado atual, do qual Trump é um sintoma agudo,
oito meses podem virar oito horas.

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