Hora da verdade para o BRB
Por Folha de S. Paulo
Banco de Brasília abriga indícios mais
claros, até o momento, de corrupção de autoridades pelo Master
Assembleia de acionistas aprovou aumento de
capital de até R$ 8,8 bi; governo distrital precisa arcar com os custos sem
socorro federal
Enquanto as suspeitas de maior repercussão
política e institucional se concentram no Supremo Tribunal Federal, foi no
Banco Regional de Brasília (BRB) que se
encontraram, até aqui, os indícios mais palpáveis de corrupção de autoridades
pelo Banco Master.
O ponto de partida do escândalo, afinal, foi
a tresloucada tentativa de compra do Master pela instituição controlada pelo
governo do Distrito
Federal, em março do ano passado —que despertou desconfiança
imediata e levou a Polícia
Federal e o Banco Central a
aprofundarem investigações sobre o caso.
Descobriu-se que o banco de Daniel Vorcaro vendera ao BRB uma carteira de cerca de R$ 22 bilhões em créditos, dos quais mais de R$ 12 bilhões se mostraram fraudulentos. Neste mês, foi preso o então presidente do banco brasiliense, Paulo Henrique Costa, e nesta quarta (22), a Segunda Turma do STF começou a julgar se a prisão será mantida.
Mensagens obtidas pela PF revelam que Costa
tratava Vorcaro como amigo e prometia se empenhar em questões de seu interesse,
além de relatar que o então governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), pedira
argumentos para defender a compra do Master. De acordo com a apuração policial,
Costa, de quem se cogita uma delação premiada, teria recebido seis imóveis como
propina.
Em paralelo ao avanço da coleta de
evidências, resta tapar um rombo bilionário no BRB —cujas dimensões exatas são
desconhecidas porque a instituição
distrital até hoje não publicou o balanço de 2025. Mas há pistas.
Também nesta quarta, o banco estatal aprovou
em assembleia de acionistas um aumento de
capital de até R$ 8,8 bilhões. Trata-se de uma enormidade diante do
capital atual, de R$ 2,3 bilhões.
Se isso dá uma ideia do estrago resultante
das relações com Vorcaro, muito mais incerto é como o governo do Distrito
Federal, que detém 53,7% das ações, poderá cumprir sua parte na operação e não
perder a condição de controlador —a privatização, lamentavelmente, é opção
descartada pelas forças políticas locais.
Por ora, só se conhecem paliativos. O BRB
começou a vender o que pôde da carteira comprada do Master, mas não espera
conseguir mais do que algo entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões à vista. O governo
distrital tenta um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões do Fundo Garantidor de
Crédito (FGC), mantido pelo sistema bancário, mas não tem garantias confiáveis
a oferecer.
Não espanta, pois, que a governadora Celina
Leão (PP)
tenha procurado o bom e velho socorro do governo federal, solução histórica
para bancos públicos em apuros financeiros. Felizmente, no entanto, as portas
do Tesouro parecem fechadas desta vez.
Que assim permaneçam. Não se justifica jogar
sobre o contribuinte os custos da gestão temerária, para dizer o mínimo, de uma
instituição estatal. O BRB precisa estar submetido às regras de mercado e do
Banco Central.
Trump se enreda na guerra com o Irã
Por Folha de S. Paulo
Pressionado por economia e queda de
popularidade, americano estende indefinidamente o cessar-fogo
Ao contrário de Washington, Teerã não precisa dar satisfações à opinião pública interna; lá, manifestantes são tratados à bala
Donald Trump busca
desesperadamente uma saída para a guerra contra o Irã, na qual
embarcou ao lado de Israel no
fim de fevereiro.
Reprisando mais um episódio de Taco, a sigla
em inglês para "Trump sempre se acovarda", o americano decidiu, na
terça-feira (21), estender
por tempo indeterminado o cessar-fogo com Teerã —mesmo após ter
sido esnobado pelos iranianos nas negociações em curso no Paquistão.
Inebriado pelo sucesso da captura do ditador
venezuelano Nicolás Maduro, no início deste ano, o republicano achou que
poderia repetir o feito no Irã. O regime, entretanto, sobreviveu.
Teerã fechou o estreito de
Hormuz, causando
alta global nos preços de petróleo, gás, fertilizantes e seguros
marítimos. Desde então, a guerra se tornou uma disputa sobre a capacidade de
resistência. E aí o americano perde para os novos líderes iranianos.
Não que o país persa tenha sofrido pouco. A
Força Aérea e a Marinha foram quase destruídas. Mais de duas dezenas de
autoridades políticas e comandantes militares foram assassinados, sem mencionar
os milhares de civis mortos nos bombardeios. A situação econômica, que já era
dramática, deteriorou-se ainda mais.
Contudo, ao contrário de Washington, o Irã
não precisa dar satisfações à opinião pública interna. Lá, manifestantes
são tratados à bala. Ademais, a economia do
país está habituada ao estresse, convivendo com diferentes graus de sanções e
embargos do Ocidente desde 1979.
Já Trump é duplamente sensível. A guerra
prejudica a economia dos Estados
Unidos, e os índices de desaprovação do seu governo atingem 62%.
Dinheiro e aplauso são os dois fatores que sempre fazem o republicano recuar.
Vale observar que, desta vez, até o eleitor
irredutivelmente trumpista está descontente com o conflito —já que o presidente
violou sua promessa de não envolver o país em novas guerras.
Pela lógica da redução de danos, o mais
sensato, para EUA e Irã, seria deixar que a diplomacia encontrasse uma fórmula
que permitisse aos dois lados cantarem vitória e cessarem as hostilidades. Mas
Trump sabota essa possibilidade, expelindo diuturnamente postagens hiperbólicas
que dificultam as negociações.
Para tornar o quadro mais complexo, haverá eleições legislativas nos EUA em novembro. A desaprovação à gestão Trump poderá levar o Partido Republicano a perder a maioria que mantém nas duas Casas, o que limitaria um pouco a capacidade do presidente de agir por capricho e impor reveses ao mundo.
Críticas e sátiras não podem ser incluídas no
inquérito das fake News
Por O Globo
Se Gilmar ou outros ministros se sentem
ofendidos por vídeos de Zema, deveriam processá-lo por calúnia e difamação
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema,
pré-candidato à Presidência pelo Partido Novo, antes mesmo do início da
campanha eleitoral, escolheu ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)
como alvo de ataques. Publicou vídeos jocosos contra os ministros Gilmar
Mendes, Dias
Toffoli, Alexandre
de Moraes e Nunes Marques, representados por fantoches. Trafegam na
fronteira entre humor, liberdade de expressão e ofensas em torno da crise do
Banco Master e outros temas que desembocaram em crise política. O limite é
tênue, mas uma coisa é certa: nada autoriza Gilmar a enviar notícia-crime a
Moraes, pedindo que Zema seja investigado no inquérito das fake news.
No pedido, ele diz que o conteúdo
“vilipendia” a honra e a imagem do STF e sua própria pessoa. Zema voltou à
carga dizendo que, “se um teatro de fantoches é visto como ameaça por Gilmar e
Moraes, é sinal de que a carapuça serviu”. “O humor é usado para criticar o
poder desde que o mundo é mundo”, afirmou.
É certo que deveria haver maior comedimento
de alguém que postula a Presidência da República. Mas, no passado, o próprio
Supremo decidiu que o humor político é protegido pela garantia constitucional.
A crítica frequentemente se dá por meio da sátira, e o tipo de vídeo usado por
Zema é comum noutros países.
É compreensível que Gilmar e talvez outros
ministros tenham se sentido ofendidos e busquem reparação. O problema está no
caminho que ele escolheu. O correto não é recorrer a um inquérito heterodoxo
que tramita em sigilo há anos e já deveria ter sido encerrado. O certo seria
entrar com representação no Ministério Público ou constituir advogado para
processar Zema por calúnia e difamação na primeira instância, já que ele
renunciou ao cargo para disputar a eleição.
Foi o que fez o próprio Gilmar mais de 15
anos atrás, ao processar na primeira instância quatro jornalistas que
considerava o terem ofendido. Na ocasião, nem se cogitou o STF. Mesmo que Zema
ainda estivesse no cargo, o caso deveria ir para o Superior Tribunal de Justiça
(STJ), não para o Supremo. Gilmar ainda poderia, se quisesse, pedir indenização
por danos morais a Zema na esfera cível, também na primeira instância.
A inclusão de Zema no inquérito das fake news
é apenas mais uma prova da natureza intrinsecamente opaca e descabida dessa
investigação. Desde 2019, quando foi aberta, ela tem sido usada para garantir
ao STF poderes excepcionais que não se justificam. Ao longo dos anos, as
decisões tomadas no âmbito desse inquérito têm sido amplamente contestadas no
meio jurídico. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) manifestou recentemente
“extrema preocupação institucional com a permanência e conformação jurídica de
investigações de longa duração”.
O Supremo vive momento de tensão, e a reação
exagerada a um vídeo de humor não é a melhor forma de aliviá-la. Se Zema passou
dos limites, que se busquem os instrumentos adequados para julgá-lo. Quanto ao
inquérito das fake news, passou da hora de encerrá-lo.
Revisão de programas sociais deveria ser
prioridade do governo
Por O Globo
Economia pode chegar a R$ 22,3 bilhões
anuais, só com medidas que não dependem do Congresso
A ampla rede de programas sociais foi uma das
principais conquistas da sociedade brasileira desde a redemocratização. Poucos
países se comparam ao Brasil na prioridade que o Estado tem dado à população
mais pobre. Infelizmente, os programas sociais também têm sido infestados por
irregularidades, fraudes, abusos e falhas de formatação. Cada real que escapa
sem atingir os objetivos enfraquece um Orçamento já em frangalhos.
O vencedor das eleições presidenciais de
outubro terá pela frente um ambiente de restrição fiscal, despesas engessadas e
o compromisso de cumprir promessas de campanha. Ante tantos desafios, será inescapável
buscar mais eficiência na gestão das despesas sociais. O potencial de ganho é
considerável. Sem aval do Congresso, apenas com medidas do Executivo, o futuro
governo teria condição de economizar até R$ 22,3 bilhões por ano, segundo
estudo recente do Insper.
De 2018 a 2023, o gasto com o Bolsa Família
quadruplicou. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), saiu de 0,4% para
1,6%. Com objetivos eleitoreiros, o governo anterior elevou o valor do
benefício e expandiu o programa sem manter o foco nos mais necessitados.
Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2023, com verificação
domiciliar numa amostra aleatória de famílias, identificou que dois em dez
domicílios recebiam o benefício mesmo tendo renda familiar acima dos critérios
do programa. Ainda que o governo atual tenha aumentado o rigor das exigências,
manteve o mesmo patamar de gasto.
Para resolver o problema, é essencial um
pente-fino no Cadastro Único (CadÚnico), base que reúne os brasileiros em
situação vulnerável. Embora haja portaria prevendo checagem in loco de 20% dos
integrantes do CadÚnico, ela mal alcança metade disso. O governo deveria
ampliar a busca por inconsistências, cruzando dados de diferentes instituições
públicas, concessionárias de energia e telefonia. O ganho potencial é estimado
em R$ 4,2 bilhões.
Também seria possível economizar R$ 2,3
bilhões no Benefício de Prestação Continuada (BPC), programa voltado a idosos e
deficientes de baixa renda que se expandiu sem controle no atual governo.
Auditorias do TCU mostram que cerca de 10% dos beneficiários não atendem ao
critério de renda.
A Previdência também
exige atenção. A revisão de perícias em benefícios por incapacidade temporária
e permanente tem potencial de economizar quase R$ 10 bilhões, segundo o Insper.
Outro alvo devem ser as aposentadorias rurais irregulares. Para reduzir as
fraudes, o estudo recomenda cruzar dados de bases como eSocial e notas fiscais
eletrônicas. É necessário também expandir o georreferenciamento, para medir a
atividade agrícola nas áreas com mais beneficiários. A economia anual poderia
chegar a R$ 5,32 bilhões.
Nenhuma dessas medidas extinguiria direitos ou retiraria benefícios de quem precisa. Apenas acabariam com desvios, garantindo melhor uso do dinheiro público.
A criminalização da democracia
Por O Estado de S. Paulo
A PGR tem o dever de rejeitar a inclusão de
Romeu Zema entre os investigados no inquérito das fake news. O que ameaça o STF
e a democracia não são os discursos políticos, é o abuso de poder
Neste exato momento, a saúde da democracia
brasileira está submetida a um exame decisivo. A qualquer hora, a
Procuradoria-Geral da República (PGR) opinará sobre uma notícia-crime
apresentada pelo ministro Gilmar Mendes ao colega Alexandre de Moraes contra
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais. A depender do parecer do
procurador-geral Paulo Gonet, saberemos se o aparato persecutório do Estado
ainda faz uma distinção nítida entre discursos políticos – legítimos, mesmo que
mordazes ou satíricos – e condutas penalmente reprováveis.
A eventual inclusão de Zema entre os
investigados no inquérito das fake news, como quer o decano do Supremo Tribunal
Federal (STF), será mais do que outro desdobramento da eterna investigação
relatada por Moraes. Será um novo marco definidor da liberdade de expressão no
Brasil. Até que ponto a PGR e a mais alta corte do País estão dispostas a
proteger a liberdade de expressão como pilar do Estado Democrático de Direito?
Se Zema passar à condição kafkiana de investigado sem ter cometido crime algum,
restará evidente que tanto a PGR como o STF estão dispostos a sacrificar o mais
cívico dos direitos individuais sob o altar dos interesses particulares de Suas
Excelências.
Zema, como se sabe, publicou vídeos satíricos
em suas mídias sociais nos quais bonecos de animação caricaturam os ministros
Gilmar Mendes e Dias Toffoli, valendo-se não só de fatos públicos e notórios,
como também de decisões judiciais efetivamente tomadas por ambos. Ou seja, Zema
não inventou fatos. Ridicularizou-os. E desde tempos imemoriais a sátira é uma
das formas mais usuais de criticar os poderosos. Ademais, sátira, por
definição, exagera, expõe, distorce. Submetê-la ao crivo penal, além de inútil
e descabido, diz muito sobre o mau humor dos satirizados, sem falar no pendor
para o autoritarismo.
Ao alegar que o conteúdo “vilipendia” sua
honra pessoal e a imagem do Supremo, Gilmar Mendes reforça a confusão entre a
crítica a indivíduos e o “ataque” à instituição. Nos últimos anos, essa
mixórdia tem servido para blindar alguns ministros do Supremo da devida
responsabilização por sua má conduta. Como quaisquer servidores públicos, Suas
Excelências devem satisfações à sociedade por eventuais malfeitos e conflitos
de interesses nos quais se deixam enredar. Colocar-se acima desse escrutínio é
colocar-se acima das leis. Logo, um comportamento incompatível com a ordem
constitucional democrática em vigor.
Eis aí a missão precípua da PGR: defender a
ordem jurídica, o regime democrático e os interesses individuais e coletivos
indisponíveis. Paulo Gonet está a serviço da sociedade brasileira, não do
Supremo nem muito menos de alguns de seus ministros, razão pela qual não só
deve opinar contra a inclusão de Zema no inquérito das fake news, como pugnar
pelo encerramento da investigação – seja com o arquivamento do feito, seja com
o envio dos autos para as eventuais denúncias a serem oferecidas pelo parquet.
Há ainda um problema elementar de
competência. Desde que deixou o cargo de governador para disputar a Presidência
da República, Zema não dispõe de foro especial por prerrogativa de função.
Ainda que se admitisse, em tese, alguma ilicitude nos vídeos que ele publicou,
seu julgamento não caberia ao STF, mas à primeira instância. Ao insistir em
atrair o caso de Zema para o inquérito das fake news, a Corte não disfarça mais
que esse famigerado inquérito se tornou um instrumento de perseguição judicial
a seus críticos.
O resultado é a erosão sistemática da
credibilidade institucional do Supremo, um mal de consequências imprevisíveis,
sobretudo eleitorais, que se espraia a olhos vistos. Já dissemos nesta página
que a democracia não pode prescindir de um árbitro visto como imparcial por
todos os cidadãos para dirimir a miríade de disputas sociais em jogo numa
sociedade plural e dinâmica. Mas, quando o STF age para proteger seus membros
em vez de proteger a Constituição, vai no sentido diametralmente oposto,
tisnando a confiança que alicerça sua autoridade.
Gonet tem uma excelente oportunidade de
defender a sociedade contra os arroubos autoritários do STF. Ao examinar o
caso, a PGR deve rejeitar a inclusão de Zema no inquérito das fake news, pois
não há crime a apurar, e sim um discurso político a ser resguardado.
De boas intenções, Brasília está cheia
Por O Estado de S. Paulo
Os projetos sobre a escala 6x1 são
politicamente oportunistas, economicamente contraproducentes e socialmente
regressivos – além de desviarem o foco das prioridades do mercado de trabalho
Em ano eleitoral, poucas coisas são tão
previsíveis quanto a súbita descoberta de soluções simples para problemas
complexos. Simples e erradas. As propostas na Câmara para acabar com a escala
6x1 e reduzir a jornada de trabalho de 44 horas semanais se encaixam em cheio
nesse padrão: sedutoras no slogan, frágeis no conteúdo, açodadas no método – e
deletérias nas consequências. Não se nega o mérito da aspiração. Trabalhar
menos e viver melhor são objetivos legítimos. O problema é o caminho para
chegar lá.
O debate público tem sido tocado como se a
questão fosse apenas moral ou política, quando é, antes de tudo, técnica.
Confunde-se “jornada” com “escala”, como se o número total de horas e sua
distribuição no tempo fossem intercambiáveis. Não são. A primeira pode ser
objeto de limites gerais; a segunda depende da natureza de cada atividade – do
hospital que não pode parar ao campo que segue o ritmo da colheita. Encaixotar
essa diversidade numa regra uniforme, petrificada na Constituição, é substituir
arranjos complexos por um formato rígido que ignora o dinamismo do trabalho.
As propostas partem da fantasia tecnocrática
de que é possível decretar, por lei, um ganho que, nas experiências
bem-sucedidas do mundo, foi conquistado ao longo do tempo, com muito trabalho.
Jornadas menores são o resultado de economias mais produtivas, não seu ponto de
partida. Sem produtividade, reduzir horas mantendo salários significa apenas
elevar o custo do trabalho – em alguns casos, de forma abrupta. Não há milagre:
a conta não fecha nem desaparece. Ela se traduz em preços mais altos, menos
contratações, mais informalidade ou substituição por tecnologia. É o efeito
bumerangue do populismo.
O mais lamentável é que a solução já existe,
em boa medida, onde deve existir: nas negociações coletivas entre trabalhadores
e empregadores. Por esse caminho, jornadas já vêm sendo reduzidas – hoje a
média gira em torno de 38 horas –, com adaptação às condições de cada setor,
empresa ou atividade. O que se propõe em Brasília é substituir um mecanismo
flexível e funcional por uma imposição uniforme. Em vez de fortalecer a
capacidade de ajuste do mercado de trabalho, opta-se por engessá-lo.
Planalto e Câmara disputam o protagonismo de
uma pauta de forte apelo popular. A pressa na tramitação e a simplificação do
debate não são acidentes, mas parte da lógica. Em vez de um cálculo de custos e
benefícios, reduz-se a discussão a um teste de virtude, no qual qualquer
ressalva soa como insensibilidade. O debate é empobrecido, dominado por slogans
e analogias fáceis, que convenientemente obscurecem as consequências reais das
propostas.
E essas consequências tendem a ser
regressivas. Em um país onde grande parte da força de trabalho já está fora do
emprego formal, elevar o custo da formalidade significa restringir ainda mais o
acesso a ela. Protege-se quem já está dentro; dificulta-se a entrada dos
demais. O risco não é apenas de perda de empregos, mas de aprofundamento de um
mercado de trabalho dual, em que direitos se multiplicam para alguns – no papel
– e a exclusão cresce para muitos – na realidade. Nesse jogo de perde-perde, só
os demagogos ganham.
Enquanto se discute, com urgência e carga
simbólica, a redução da jornada por decreto, permanecem em segundo plano os
fatores que de fato determinam a qualidade do trabalho: produtividade,
qualificação, investimento, ambiente de negócios, adaptação tecnológica. São
esses elementos que permitem, de forma sustentável, trabalhar menos e ganhar
mais. Ignorá-los em favor de atalhos legislativos é correr para uma miragem de
costas ao progresso real.
No fim, a proposta revela mais sobre o
funcionamento da política do que sobre o futuro do trabalho. Ela combina boas
intenções, cálculo eleitoral e negligência da realidade econômica em uma
fórmula simplista para consumo imediato. O risco não é apenas de frustração. É
de produzir exatamente o oposto do que promete: um mercado de trabalho mais
caro, mais rígido e mais excludente. E um país ainda mais distante das
condições que tornariam possível – e não apenas desejável – o objetivo que deu
origem a tudo isso.
Farra nas asas da FAB
Por O Estado de S. Paulo
Auditoria do TCU aponta diversos abusos e
descontrole no uso de jatos por autoridades
Técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU)
analisaram, a pedido do Congresso, as 7,4 mil viagens realizadas por
autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário em aviões da Força Aérea
Brasileira (FAB) entre janeiro de 2020 e julho de 2024. O resultado, a partir
de uma amostra de 266 viagens que foram verificadas de maneira mais detida, é
preocupante: os auditores encontraram vários sinais de abusos e de potenciais
irregularidades. Entre os achados estão: 194 viagens feitas sem a devida
justificativa para os voos oficiais mesmo tendo a possibilidade de voos
comerciais; o embarque de passageiros não identificados; o descarte prematuro
de documentos de voos; o sigilo indevido em lista de passageiros; e a baixa
taxa de ocupação. Eis o receituário mais bem acabado do patrimonialismo brasileiro.
A auditoria do TCU radiografou como os
poderosos de Brasília se apropriam da coisa pública. Dos 194 voos oficiais que
poderiam ter sido feitos em aviões de carreira, 29 foram realizados sem que as
autoridades envolvidas apresentassem agenda oficial.
A baixa ocupação também é gritante. Em 111
voos, por exemplo, havia apenas um único passageiro a bordo, numa evidente
demonstração de descaso com o dinheiro público e falta de planejamento, já que
poderia haver compartilhamento com outras autoridades. Na iniciativa privada,
essa ociosidade significa prejuízo para a empresa aérea; no setor público, é
dinheiro do contribuinte que vai pelo ralo.
Segundo a auditoria do TCU, numa estimativa
conservadora, as viagens custaram R$ 285 milhões ao longo de todo o período
analisado. Os técnicos fizeram ainda, a título de comparação, um levantamento
de preços de passagens na aviação comercial em 2024, e a economia seria da
ordem de nada menos do que R$ 36 milhões em apenas sete meses. O TCU informou
que o custo de uma viagem em jato da FAB foi em média seis vezes o cobrado na
aviação comercial. Essa diferença chegou a 20 vezes em um terço dos casos.
A auditoria do TCU revelou, a um só tempo, a
violação em série de princípios da administração pública. Foram viagens VIPs
que afrontaram a supremacia do interesse público, a transparência, a eficiência
e a impessoalidade. Além dos recursos públicos, perderam-se a decência e a
moralidade. O ministro relator da auditoria, Benjamin Zymler, afirmou que a
ausência de regras “proporciona a existência de um ambiente aparentemente
permissivo, sem compromisso com a priorização do princípio da economicidade”.
Em bom português, as autoridades sentem-se liberadas para dispor de bens
públicos como bem entendem.
A implementação de normas claras, segundo o ministro, poderia “robustecer a legitimidade e a economicidade” nos deslocamentos com aviões militares. Por isso, o TCU cobrou do governo de Luiz Inácio Lula da Silva um plano de reformulação da estrutura regulatória para o uso das aeronaves da FAB. A Casa Civil, o Ministério da Defesa e a Aeronáutica têm 30 dias para apresentar uma resposta. Ao Executivo não resta alternativa senão endurecer as regras para o uso dos aviões militares pelas autoridades de Brasília.
A diplomacia vale o que custa
Por Correio Braziliense
A diplomacia demanda reflexão, esforço
discreto e persistência. Exige, igualmente, gastos e investimentos. Mas, os
números sugerem: eles são infinitamente inferiores aos de uma guerra que se
aproxima ainda dos 60 dias.
Os vaivéns de Donald Trump em sua guerra
contra o Irã, entre acenos a um acordo e ameaças apocalípticas, dão poucos
elementos seguros para qualquer previsão em torno do conflito. Se pode estar
próximo de solução ou se tende a se prolongar sem horizonte à vista,
verdadeiramente: nenhum analista ou observador com alguma dose de seriedade
associaria o próprio nome — e a reputação — a qualquer tipo de previsão.
Mas, a poucos dias de completar dois meses, a
guerra no Oriente Médio acumula algo mais além de um punhado respeitável de
milhares de vítimas — sobretudo no próprio Irã e no Líbano, alvos preferenciais
dos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel. Um apanhado parcial
indica 3,5 mil iranianos mortos. No Líbano, mais de 2 mil, além de 1,2 milhão
de civis deslocados do sul e leste do país — algo como um entre cinco ou seis
habitantes.
Desde que ocupou, pela primeira vez, a Casa
Branca, entre 2017 e 2021, Donald Trump acostumou-se a espezinhar o sistema
criado para reger as relações internacionais depois da Segunda Guerra Mundial,
o conflito armado mais letal da história da humanidade. Em especial no retorno
à presidência dos EUA, em 2025, o magnata republicano vem atacando
sistematicamente a ONU: alega que é "cara demais".
O Centro de Estudos Internacionais e
Estratégicos (CSIS), sediado nos EUA, porém, calcula que Trump gastou US$ 3,7
bilhões apenas nas primeiras 100 horas da guerra — pouco mais do que quatro
dias. O orçamento das Nações Unidas para todo o ano de 2026 prevê gastos de US$
3,5 bilhões.
Às vésperas de completar dois meses, a guerra
de Donald Trump e do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, acumula prejuízos
não apenas para os respectivos países e para seus alvos. O Irã contabiliza,
inicialmente, prejuízos da ordem de US$ 71 bilhões para sua infraestrutura. O
Líbano, ainda que o inimigo declarado seja a milícia pró-iraniana Hezbollah,
não tem um cálculo de perdas materiais.
Na ausência de um horizonte minimamente
nítido para o desfecho, a guerra no Oriente Médio se perfila como pesadelo para
a economia mundial. A diretora-geral do Fundo Monetário Mundial (FMI), a
búlgara Kristalina Georgieva, alerta para o risco de uma recessão global.
Os economistas lutam com lápis e calculadoras
para determinar o impacto global do impasse no Estreito de Ormuz, via marítima
incontornável para 20% do petróleo negociado no mercado internacional. Desde o
ataque inicial americano-israelense ao Irã, a cotação do petróleo saltou do
patamar de US$ 70 e passou a oscilar em torno de US$ 100 o barril.
Para o Brasil, que em 2024 importou
diariamente 280 mil barris, o custo adicional pode chegar à ordem de US$ 8,5
milhões por dia. Mas os impactos econômicos do conflito têm alcance mais
vasto e imediato.
As companhias aéreas, sobretudo na Europa,
disparam o sinal de alerta. De um lado, pela escassez de querosene de aviação.
De outro, pela disparada dos preços. A caminho da temporada de turismo do verão
no Hemisfério Norte, as tarifas disparam e a oferta de viagens se reduz. A
alemã Lufthansa cancelou mais de 20 mil voos considerados menos
rentáveis.
A perspectiva de prolongamento do conflito
emana ondas de choque, com impacto tanto mais duro e dramático para as
economias mais vulneráveis. Projeta, para o curto e médio prazo, o risco de
tensões sociais e políticas com potencial explosivo, como observou o papa Leão
XIV na recente visita à África.
Por vezes, soa conveniente ou adequado
investir contra as Nações Unidas, até pela impotência que demonstra. Mas é na
diplomacia que pode residir, ainda, alguma esperança de conter as forças de
destruição que se acumulam mundo afora.
A diplomacia demanda reflexão, esforço discreto e persistência. Exige, igualmente, gastos e investimentos. Mas os números sugerem: eles são infinitamente inferiores aos de uma guerra que se aproxima ainda dos 60 dias.

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