O Globo
É muito bom trabalhar menos. Mas
continuaremos no baixo crescimento. Tirando o agro e sua intensa tecnologia
Começando pelo óbvio: a redução da jornada de
trabalho, sem redução do salário, aumenta o custo da mão de obra. Quanto?
Depende do perfil da empresa. Numa fábrica automatizada, o impacto será
pequeno. Num hospital ou data center, o custo do trabalho terá peso
significativo na rentabilidade. Em resumo, quanto mais empregados tiver uma
empresa, maior será o aumento de custos com a redução da jornada.
Considerando as propostas em andamento no Congresso, parece que o resultado mais provável será o seguinte: jornada máxima de 40 horas semanais, com escala de cinco dias trabalhados por dois de descanso. Hoje, são 44 horas semanais (desde a Constituição de 1988), admitindo a escala 6x1.
Em ano eleitoral, a proposta deve ser
aprovada por ampla maioria. A questão, portanto, é saber como as empresas farão
para produzir com menos trabalho e com o inevitável aumento de custos. Muitos
setores da economia já trabalham no regime de oito horas diárias, cinco dias na
semana. No comércio e nos serviços, especialmente, empresas ainda funcionam na
escala 6x1, com as 44 horas semanais.
Como reagirão às novas regras?
Há diversas possibilidades. A empresa pode
contratar mais empregados. Mas isso, obviamente, aumenta ainda mais o peso da
mão de obra no custo de produção. Quem paga? O consumidor, pelo aumento de
preços, ou a própria empresa, pela redução da margem de lucro. Aumentar preços
é difícil num setor muito competitivo. Absorver o custo também é difícil para
companhias que, devido mesmo à concorrência, já funcionam com margens
apertadas. A única saída, portanto, é buscar uma combinação de aumento de
preços com redução de margem. E abrir as portas por menos dias.
Associações empresariais já pleiteiam medidas
compensatórias, como desoneração de impostos para empresas que contratarem
novos empregados. Ou financiamentos baratos para o período de transição. Pelo
que se ouve do governo, não há nada disso em cogitação. As contas públicas
apresentam déficit todos os anos, de modo que é mesmo complicado renunciar a
qualquer receita.
Na verdade, o governo Lula espera que as
empresas se virem. E muita gente repete: a melhor resposta para as empresas e
para a economia em geral é o ganho de produtividade. Faz sentido: com mais
eficiência, é possível manter a produção ou mesmo aumentá-la com a mesma força
de trabalho. Na prática, porém, o que se vê por aqui é uma economia estagnada
na baixa produtividade.
Ainda na semana passada, saíram novos dados
do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de
Economia (FGV Ibre). No ano passado, a produtividade do trabalho cresceu 0,4%
em relação a 2024. É um resultado muito baixo, especialmente para um país
emergente. Além disso, o dado é enganador. Dividindo por setores, verifica-se
que só houve ganhos na agropecuária. E ganhos espetaculares. Em 2025, a
produtividade do agro aumentou 13,2%, compensando as perdas dos demais setores.
Na indústria, a produtividade caiu 0,3%. Nos serviços, foi pior ainda: recuo de
0,6%.
O estudo mostra que não foi um ano diferente.
Ao contrário, a regra tem sido essa. De 1996 a 2025, a produtividade da
economia brasileira cresceu em média 0,8% ao ano. Mas o agro responde por 0,5%,
ou mais da metade do ganho. Convém reparar: indústria e serviços (incluindo
comércio) representam 90% das horas trabalhadas. Tirando o agro, resta uma
economia presa ao padrão de crescimento intensivo em trabalho, com baixa
produtividade. A jornada de 40 horas semanais, com escala de 5x2, não destruirá
a economia. Mas também não acelerará o crescimento, muito menos a
produtividade.
Eis o ponto: uma economia intensiva em
trabalho trabalhará menos horas. E nem dá para aumentar as contratações, pois a
taxa de desemprego está em nível recorde de baixa. É muito bom trabalhar menos.
Mas continuaremos no baixo crescimento. Fora o agro e sua intensa tecnologia.
Faltam reformas. Isso mesmo, aquelas de que falamos tanto.

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