segunda-feira, 27 de abril de 2026

Manifesto do PT omite casos Master e INSS; partido quer atrair centro

Gabriel Hirabahasi, Danielle Brant Alvaro Gribel / O Estado de S. Paulo

Congresso Nacional da legenda de Lula abandona defesa de reforma do sistema financeiro e inclui proposta de reformas agrária e da comunicação, em aceno à esquerda

Versão final, desidratada a pedido do Planalto, exclui citações diretas a Bolsonaro e recua em defesa de reforma do sistema financeiro.

O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou ontem seu manifesto com diretrizes do partido para este ano. A versão final do texto foi desidratada a pedido do Palácio do Planalto, como revelou o Estadão, excluindo mais de dez citações diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e também retirando um parágrafo que fazia a defesa da reforma do sistema financeiro e mencionava o caso do Banco Master.

O documento final foca a comparação da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a de Bolsonaro, mas se referindo ao governo anterior e sem citar o nome do ex-presidente. Lula não participou do congresso, conforme previsto. O presidente passou por procedimentos de saúde na sexta-feira, dia 23, e permanece em repouso.

Na cerimônia, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, sentou-se ao lado direito do presidente do PT, Edinho Silva. Para contornar a ausência de Lula, o PT retransmitiu um discurso dele em encontro global de líderes progressistas em Barcelona.

O manifesto foi aprovado por unanimidade pelos militantes presentes no congresso. O texto é mais sucinto que as diretrizes para o programa de governo. O programa será discutido nas próximas semanas pelo diretório nacional do partido.

Um dos principais pontos retirados do manifesto foi a defesa de uma reforma do sistema financeiro, com menção específica à necessidade de mudanças em razão do escândalo envolvendo o Banco Master.

O presidente do partido, Edinho Silva, justificou que o caso Master foi debatido durante o congresso, assim como o do INSS. Mas os dois temas não são citados no texto final.

Edinho repetiu o discurso do governo de que foi a gestão Lula que instaurou investigação sobre o Master e também sobre as fraudes com aposentadorias do INSS. Uma CPI investigou o caso e chegou a pedir o indiciamento de Fábio Luís, o Lulinha, mas o relatório final não foi aprovado.

FLÁVIO. Durante o encontro, o marqueteiro Raul Rabelo divulgou um vídeo que, sem apresentar provas, vincula o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, ao caso Master. O locutor usa a expressão “bolsomaster” e afirma que o senador teria recebido uma “mansão de R$ 6 milhões em Brasília” como parte do esquema.

Procurado, o senador não se manifestou até ontem à noite. Flávio Bolsonaro não é investigado no caso e não há informações de que a mansão comprada por ele em 2021, com financiamento do BRB, tenha relação com o esquema do banqueiro Daniel Vorcaro.

O escândalo do Master levou petistas e bolsonaristas a se acusarem mutuamente. O banco foi autorizado a operar em 2019, durante o governo Bolsonaro, mas foi no período Lula que atingiu o seu maior tamanho, em 2024.

O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega prestou consultoria a Daniel Vorcaro no valor de R$ 14 milhões e o levou para uma reunião com o presidente. Lula, contudo, chamou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e afirmou a Vorcaro que a análise de compra do Master pelo BRB seria estritamente técnica.

“O manifesto tem de ser a centralidade de falar com o País e chamar o centro para compor com o Lula, isso que é fundamental”

José Guimarães (Ministro da Secretaria de Relações Institucionais)

O partido manteve outros pontos no manifesto. Foi preservada a linha de três eixos centrais do projeto nacional de desenvolvimento — reconstrução do papel do Estado como indutor do desenvolvimento (marca da esquerda), retomada do crescimento econômico com distribuição de renda (marca dos governos petistas) e transição produtiva, tecnológica e ambiental (adotada com mais ênfase a partir da campanha de 2022).

O manifesto trata como “eixo central da tática política” a reeleição do presidente Lula. Também propõe sete reformas essenciais — duas delas acrescentadas ao longo do fim de semana para atender a outras alas do partido. Constavam no documento desde sexta-feira, dia 24, a defesa de uma reforma política e eleitoral; uma tributária; uma tecnológica; uma reforma do Judiciário; e uma administrativa.

MUDANÇA. A cúpula do partido acrescentou ontem no rol de reformas essenciais, a agrária, “garantindo soberania alimentar”. Também foi incluída a reforma do setor de comunicação. O texto justifica a medida citando que a Constituição deve ser cumprida. O documento fala que a reforma deve proibir “monopólios no setor”.

Apesar da inclusão desses dois temas que não são bem recebidos pelos partidos de centro e de direita, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse que o objetivo do manifesto é “chamar o centro para compor com o Lula”, evitando polêmicas que possam afastar setores que não são da esquerda da candidatura petista.

“O manifesto tem de ser a centralidade de falar com o País e chamar o centro para compor com o Lula, isso que é fundamental”, disse Guimarães.

Uma versão preliminar do texto citava a necessidade de o partido buscar apoios eleitorais também à direita, mas esse trecho foi suprimido.

TERRAS RARAS. O manifesto cita como um dos desafios a disputa pelo controle de recursos estratégicos, em meio ao debate no Congresso sobre terras raras e ao interesse do governo americano por esses recursos.

“É imperativo que o Brasil assuma o protagonismo sobre suas reservas de terras raras — um conjunto de 17 minerais críticos essenciais para a indústria de alta tecnologia, para a produção de baterias, lasers, turbinas eólicas e componentes de defesa”, diz o texto.

O documento também defende mudança no regime de emendas parlamentares, acabando com a impositividade, reduzindo o volume e o modo de funcionamento. Atualmente, o governo é obrigado a destinar recursos indicados por deputados e senadores, e a aplicação do dinheiro é obrigatória.

Um ponto mantido é a defesa de uma “permanente transição geracional” no próprio partido, com limite no número de mandatos (no máximo dois no mesmo cargo e três no total de participação na mesma instância). A versão final também fala em garantir “no mínimo 50% de mulheres nos espaços de deliberação”. A proposta de programa não falava nem em garantir a renovação interna no partido nem a equidade de gênero nos postos de decisão da legenda.

O presidente Lula se envolveu na construção do manifesto. Veio do governo o pedido para que o documento fizesse mais comparações entre as gestões de Lula e de Bolsonaro.

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