Valor Econômico
Pré-candidato do PL reúne 184 mulheres num
hotel de luxo em São Paulo
“Pra ser petista, das duas uma, ou faltou
proteína ou falta caráter”. A médica Claudia Leite estava entre amigas que
aguardavam a abertura do salão para o encontro “Brasil de Ideias Mulher -
Eleições”, o primeiro de uma série com os candidatos à Presidência, com o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no hotel Tangará, zona sul de São Paulo.
A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.
Quando o salão abriu, os scarpins se puseram
em marcha, mas o senador chegaria quase uma hora depois do horário marcado,
acompanhado da esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro. Ele de terno azul, sem
gravata, ela de tailleur areia com debrum preto.
Na mesa do pré-candidato, além de Karim
Miskulin, do grupo Voto, promotor do evento, ficaram Raquel Reis, CEO da
SulAmérica Seguros de Saúde, Loren Spíndola, executiva da Philip Morris, e Misa
Antonini, CEO do grupo G4 Educação. Nas mesas do salão tomaram assento de
dirigentes de empresas, como Claudia Cohn, CEO da Alta Diagnósticos, a
diretoras de Assuntos Corporativos, como Juliana Marra, da Unilever, passando
por donas de restaurantes, como Sophia Lins (La Cuisine), joalheiras, como
Lydia Sayeg (Casa Leão), e integrantes de grupos como o “Clube da Lu”, fundado
por Lu Chelegao, especialista em “psicologia positiva” e coordenadora do livro
“Mulheres curadas que curam gerações”.
Anette Rivkind, diretora comercial da Breton,
fábrica de móveis com 22 lojas por todo o país, oferece a cadeira ao seu lado.
Mostra sua foto com Jair Bolsonaro, quatro anos atrás, quando o ex-presidente
levou 135 mulheres ao evento que, nesta segunda, atrairia 184. Preferia o pai,
mas Flávio é o que se tem à mão para enfrentar “o outro lado que rouba muito e
não deixa a gente trabalhar”.
Três mulheres precederam a fala do senador. A
primeira foi Misa Antonini, que chegou ao cargo de CEO da G4 Educação depois
que Tallis Gomes, fundador e ex-CEO do grupo, declarou, na campanha de 2024,
quando apoiou Pablo Marçal: “Deus me livre de CEO mulher”. A executiva disse
que os empresários brasileiros são os “verdadeiros heróis” do país e se
assemelham a baratas - “porque a gente nada, voa e passa por baixo da porta”.
Tascou um “está struggling” (lutando, em inglês) para definir sua atuação.
Apelou, finalmente, ao presidente inaugural
do neocon americano, para definir a opção que aquela plateia teria em outubro
para reverter o que chamou de “situação impraticável”: “[Ronald] Reagan dizia
que, para uma boa opção, basta concordar com 80% do que o candidato fala”.
A expositora que se seguiu, Claudia Scarpa,
vice-presidente da Starr, multinacional de seguros para viagem, valeu-se do
número anual de turistas na República Dominicana, 11 milhões, maior do que o do
Brasil, para pedir segurança, infraestrutura e educação.
Karim Miskulin lembrou o evento de 2022,
quando reuniu um grupo mais restrito de executivas com Jair Bolsonaro. Dois
anos depois, seu grupo também promoveria o “1 Forum Jurídico: Brasil de
Ideias”, no hotel “The Peninsula”, em Londres, com o patrocínio da Souza Cruz,
hoje “ British American Tobacco Brasil ”, uma mesa apoiada pelo Master e a
presença de três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar
Mendes.
Karim registrou a defasagem entre a condição
majoritária das mulheres no eleitorado e seus cargos de poder antes de dirigir,
ao senador, quase um apelo de reconhecimento àquela plateia: “Como um país como
o Brasil que quer crescer consegue desperdiçar tanto talento”?
Flávio Bolsonaro decantou a presença de
mulheres no seu gabinete e no seu programa de governo - Daniela Marques,
secretária-executiva do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, estava presente -
antes de se dirigir à mulher: “E ali está minha gata, quem transformou o menino
em homem foi ela”.
Ao longo de quase duas horas, não se ouviu
falar de “Dark Horse” ou Daniel Vorcaro, mas o senador achou por bem se vacinar
contra as “narrativas”. Foi aplaudido quatro vezes. Apresentou-se como
“empreendedor”, a exemplo da maioria das mulheres presentes, reivindicou o
maior investimento das empresas brasileiras em “compliance” como decorrência da
denominação de “terroristas” para o PCC e o CV, relatou sua visita a El
Salvador para conhecer sua política de segurança. Disse ainda que o roubo de
celulares está tão desenfreado que as mulheres “não têm autonomia sobre sua
bolsa” e prometeu suspender a reforma tributária. Foi a maior salva de palmas.
Karim lhe perguntou quem seria seu ministro
da Economia. “Ou será ministra?”, retrucou. Daniela Marques sairia quase
ministra do encontro. “Estou com um bebê de um ano”, despistou. A representante
da associação das escolas abertas, Lana Romani, que defendeu a retomada das
aulas durante a pandemia, relembrou uma ida ao Palácio do Alvorada às 6h para
falar com Bolsonaro, e disse ao filho que o forte da direita não é se comunicar
com as mulheres.
“Mulher é mais sensível e distribui mais amor”, disse Flávio antes de se dirigir para a mulher: “Sem você seria impossível”. Fernanda lhe devolveria o afago com os polegares e indicadores fechados em formato de coração.

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