Para surpresa de ninguém, rombo dos Correios continua
Por Folha de S. Paulo
Empresa puxa novo déficit recorde de estatais
sob Lula, de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre
Após plano de reestruturação, programa de
demissões voluntárias fracassa; gestão petista insiste tolamente em rejeitar a
privatização
Sob Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
as empresas estatais federais consideradas na apuração do resultado das contas
públicas acumulam déficits históricos, agravando a pressão sobre o Tesouro
Nacional. Em apenas dois meses deste 2026, o rombo já se aproxima do apurado em
todo o ano anterior.
Dados do Banco Central mostram o descalabro. As estatais federais —excluídas as financeiras, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, e a Petrobras— registraram saldo negativo (excluindo gastos com juros) de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre —o pior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2002.
O déficit cresceu assustadores 320% em
relação ao mesmo período de 2025, ano que terminou com R$ 5,1 bilhões no
vermelho.
O principal problema, mais uma vez, é a crise
crônica dos Correios.
Em dezembro do ano passado, a estatal e o governo se comprometeram com um plano de
reestruturação para viabilizar um empréstimo de R$ 12 bilhões de
um consórcio de bancos públicos e privados (BB, Caixa, Bradesco, Itaú e
Santander), com garantia do Tesouro Nacional.
O pacote prometia economia de
até R$ 4,2 bilhões por ano a partir de 2029, por meio de programa de demissão
voluntária (PDV), fechamento de até mil unidades deficitárias, venda de
imóveis, otimização de rotas e reformulação de cargos e benefícios.
Quatro meses depois, o plano, para surpresa
de ninguém, patina. O PDV, com meta de 10 mil desligamentos em 2026 (parte de
um total de 15 mil até 2027), atingiu
somente 32% do objetivo, ou 3.181 adesões em um quadro de quase 79
mil funcionários.
A empresa prorrogou o prazo e agora anuncia
"medidas de compensação", como redução de horas extras condicionada a
metas de produtividade e aproveitamento de decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF)
que suspendeu cláusulas custosas de acordos coletivos (economia estimada em R$
500 milhões neste ano).
A otimização operacional —fechamento de
agências deficitárias, demissões adicionais e venda de imóveis— avança a passos
de tartaruga. Enquanto isso, a concorrência do setor privado avança e a crise
de caixa se aprofunda.
Manter essa trajetória é levar a empresa ao
colapso. A resistência à privatização é tola e perdulária. Em 2020, quando o
governo anterior colocou os Correios na lista de desestatização, existia um
plano técnico maduro: preservar a natureza pública do serviço postal universal
e abrir à iniciativa privada o segmento de entregas e logística, o mais
deficitário sob gestão estatal.
Estudos do Ministério da Economia à época
levaram em conta experiências internacionais bem-sucedidas, mas o governo
petista engavetou a proposta por razões ideológicas. As condutas do PT e de
Lula mostram que não há aprendizado. A insistência em tratar estatais como
instrumento político só traz prejuízos ao contribuinte.
Guarda municipal não é polícia
Por Folha de S. Paulo
Para além da decisão do STF que proíbe uso do
termo, há o problema da ampliação da atuação dessas forças
As guardas, que carecem de treinamento,
supervisão e transparência, estão cada vez mais armadas, o que pode contribuir
para abusos
Na última segunda-feira (13), o Supremo
Tribunal Federal (STF)
decidiu que
guardas municipais não podem ser renomeadas como "polícia municipal"
ou outras denominações similares.
A ordem, que tem repercussão geral, se deu no
âmbito de uma ação que tratava da tentativa da gestão Ricardo Nunes (MDB) de alterar
uma lei paulistana para autorizar a nova alcunha. No último ano, várias cidades
buscaram efetuar a mesma mudança.
Por trás do debate terminológico, menos
relevante, há uma questão pertinente: a falta de clareza sobre os poderes das
forças municipais e os parâmetros legais aplicáveis à sua conduta.
Isso num contexto em que prefeitos buscam
turbinar a atuação dessas corporações no combate à criminalidade, o que não
passa de uma resposta populista aos anseios legítimos dos cidadãos por mais
segurança.
Parte da confusão advém de uma interpretação
do próprio Supremo, que desde 2023 considera as guardas municipais como forças
de segurança pública.
Em 2025, a corte
decidiu que elas podem atuar no policiamento ostensivo e
comunitário, em buscas pessoais e prisões em flagrante —mesmo que a Constituição delimite
sua competência à "proteção de bens, serviços e instalações
municipais".
Antes de ampliar o serviço das guardas —se é
que tal mudança é necessária—, é preciso capacitar agentes com treinamento e
fortalecer mecanismos adequados de supervisão interna e externa.
Diferentemente das polícias, as guardas
carecem de transparência nos dados sobre seu trabalho, de protocolos para uso
da força e de cadeias de comando e responsabilidades bem delimitadas.
Abusos evidenciam o problema. Neste mês, um
agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi preso, e depois liberado sob
fiança, por matar a tiro um entregador em Moema, na zona sul da capital
paulista.
Além de casos específicos de abusos, que
devem ser coibidos, as guardas estão cada vez mais mais armadas. Em 2019, os
agentes usavam armas de fogo em 22,4% dos municípios que contavam com essas
forças; em 2023, a taxa chegou
a 30%, segundo dados mais recentes do IBGE.
No país, 24% das cidades possuem guardas, algumas delas com unidades de elite e armamento pesado, como fuzis. Abusos no uso da força e alta letalidade podem se tornar comuns —o que há décadas se verifica no caso das polícias. É imperativo estabelecer com clareza os limites de atuação dessas corporações, para além do nome que adotem.
Prisão de MCs revela como crime usa
celebridades
Por O Globo
Fama permite lavar dinheiro sem despertar
suspeitas. Comprovadas as acusações, artistas devem ser punidos
Sob suspeita de lavagem de dinheiro para o
crime organizado, os MCs Ryan SP, Poze do Rodo e influenciadores digitais foram
presos na quarta-feira pela Polícia
Federal (PF). Segundo as investigações, o grupo usava um sistema
estruturado para ocultar e dissimular recursos, que incluía operações
financeiras no Brasil e no exterior, transporte de moeda em espécie e
transações com ativos digitais. A PF estima que os acusados tenham movimentado
mais de R$ 1,6 bilhão em 24 meses, montante ilícito oriundo de tráfico, bets
irregulares e rifas ilegais. São denúncias graves.
Nomes conhecidos do funk nacional, Ryan SP e
Poze do Rodo têm enfrentado problemas recorrentes com a polícia. Em maio do ano
passado, Ryan foi detido depois de fazer manobras perigosas com um carro de
luxo em Piracicaba. Pagou multa de R$ 1 milhão para compensar os danos. Um ano
antes, fora flagrado por câmeras de segurança agredindo a namorada. Poze do
Rodo tem estado na mira da polícia fluminense sob acusação de apologia ao crime
em letras e postagens e de ligação com o Comando Vermelho. Chegou a ser preso
em maio do ano passado.
Não só no Brasil artistas são acusados de
envolvimento com o narcotráfico. Nos Estados Unidos, o rapper Fetty Wap, autor
de “Trap Queen”, foi condenado a seis anos de prisão por tráfico de drogas em
2023. Era acusado também de romantizar o tráfico em suas músicas. Em 2024,
Young Thug foi condenado por posse de drogas e ligação com a gangue Bloods,
suspeita de tráfico, assassinato e roubo de veículos. Rod Wave foi preso em
2025 no mesmo dia de sua primeira indicação ao Grammy, sob acusação de posse de
substâncias controladas e porte de arma de fogo. Foi solto após pagar fiança.
Em todos esses casos, costuma haver acusações
de glamourização do crime no trabalho artístico, ou mesmo de estímulo à
violência. Mas apenas letras controversas ou provocativas não podem justificar
censura ou punição. A liberdade de expressão precisa ser assegurada, e é comum
que figuras de relevo na cultura popular adotem em seu trabalho postura
considerada agressiva ou ofensiva. Por isso é essencial ressaltar que os
artistas não foram presos pelo que cantaram, mas pelo que fizeram. E as
acusações não podem ser minimizadas. O combate ao crime organizado é hoje um
dos maiores desafios do país.
Ao menos 64 organizações criminosas atuam no
Brasil. O dinheiro delas é lavado muitas vezes com a cumplicidade de figuras
conhecidas. A visibilidade dos funkeiros permite movimentar grandes quantias
sem despertar suspeitas nos sistemas de vigilância financeira. “Eles são muito úteis
e facilmente recrutáveis”, afirma Marcelo Maceiras, delegado regional de
Polícia Judiciária. Investigadores suspeitam que verbas de publicidade e
bilheteria de shows eram infladas para ocultar o dinheiro do crime organizado.
Cabe à PF apresentar à Justiça provas
consistentes que corroborem as acusações de lavagem de dinheiro. Diferentemente
de opiniões sobre o que cantam ou usam, tais crimes não dependem de
interpretações. Movimentações de grandes somas precisam ser explicadas de forma
convincente. Independentemente da fama, das plateias cativas ou da legião de
seguidores nas redes sociais, se comprovadas as acusações, eles precisarão
acertar as contas com a Justiça. Exatamente como aconteceu com os rappers
americanos que se envolveram com traficantes.
Crise do petróleo demonstra acerto do
programa brasileiro de biocombustíveis
Por O Globo
Graças a projeto iniciado nos 1970, país é um
dos poucos preparados a enfrentar choque de preços
A safra 2026-2027 da cana-de-açúcar começou a
ser colhida no início deste mês com previsão de crescimento. A expectativa está
baseada em prováveis efeitos duradouros da guerra no Oriente Médio. Desde que
as primeiras bombas caíram sobre Teerã em fevereiro e o preço do barril do
petróleo começou a subir, o Brasil mostrou-se um dos poucos países preparados
para enfrentar o choque nos preços de combustíveis fósseis.
Não existe no mundo economia com um setor de
biocombustíveis tão sofisticado. Há produção da matéria-prima, geração de
energia, tecnologia, escala, mercado consumidor e infraestrutura. Os produtores
locais de etanol estão no segundo lugar do ranking global e em terceiro em
biodiesel. Oito em dez carros em circulação são flex. Nesse setor crucial para
o funcionamento da economia, o Brasil é um exemplo a seguir.
O esperado é que, na safra 2026-2027, a
produção de etanol de cana-de-açúcar e de milho alcance 40 bilhões de litros, 4
bilhões a mais que na anterior. Confirmada a previsão, o volume extra será
equivalente a cerca de 3 bilhões de litros de gasolina. Em agosto passado, o
governo aprovou o aumento da mistura do etanol na gasolina de 27% para 30%.
Recentemente, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse haver
estudos para elevá-la a 32% até julho. Algumas consultorias do setor não
descartam que chegue a 35% antes do fim do ano. Cada ponto percentual aumenta a
demanda anual em 750 milhões de litros.
Produtores locais também veem oportunidades
para aumentar vendas externas. No fim de março, o governo americano concedeu
permissão temporária para gasolina com mistura de 15% de etanol, e existe a
possibilidade de a medida ser estendida. A decisão reduzirá a quantidade de
etanol exportada pelos Estados Unidos, ampliando mercado aos concorrentes
brasileiros. “Isso abre oportunidades para o Brasil num contexto em que a
segurança energética, que já tinha virado trunfo após a guerra entre Ucrânia e
Rússia, ganha nova dimensão”, disse ao jornal Valor Econômico Luiz Carlos
Corrêa Carvalho, diretor da consultoria Canaplan.
Desde o início da guerra, países como Índia e
Vietnã aceleraram planos para aumentar o consumo de biocombustíveis. A lista
deverá aumentar mesmo depois do fim do conflito e da reabertura do Estreito de
Ormuz. Nada apagará a experiência de quem foi pego de surpresa em condição
vulnerável. Na opinião de Tomás Manzano, presidente da Copersucar, o Brasil tem
condições de liderar a onda. A preocupação dos produtores não é a demanda, mas
o aumento no preço de fertilizantes e outros insumos, também provocado pelo
conflito.
O investimento brasileiro em biocombustíveis aconteceu a partir de crises no mercado de energia iniciadas por guerras no Oriente Médio nos anos 1970. Criado em 1975, o Proálcool foi uma resposta ao choque do petróleo de 1973, quando o preço do barril subiu mais de cinco vezes. Só agora outros países parecem começar a aprender a lição.
A judicialização do debate eleitoral
Por O Estado de S. Paulo
Decisão de Moraes de autorizar inquérito
contra Flávio Bolsonaro por suposta calúnia contra Lula serve de alerta para o
perigo da intromissão do Judiciário no debate público
A pedido do governo, o ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mandou instaurar um inquérito para
apurar um suposto crime de calúnia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
pré-candidato à Presidência da República, contra o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT). Às vésperas da campanha oficial, a temerária decisão de Moraes
serve de alerta para o perigo da intromissão do Judiciário no debate público.
Não há democracia no mundo que resista à tutela dos eleitores por juízes que se
veem como curadores do discurso político.
Aos fatos. No início de janeiro, Flávio fez
uma postagem no X associando a prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro a
futuros reveses para Lula. No texto, o senador fluminense afirmava que o
petista seria “delatado” por Maduro, supostamente às autoridades dos EUA que o
capturaram, e relacionava o episódio ao “fim do Foro de São Paulo”, além de
aludir a supostos vínculos de Lula com o tráfico internacional de drogas,
esquemas de lavagem de dinheiro e apoio a ditaduras de esquerda.
Sem dúvida, são imputações muito sérias.
Ademais, feitas em uma mídia social de amplo alcance. Mas nada que destoe da
agressividade típica das disputas eleitorais de nossa história recente,
sobretudo as mais acirradas. O próprio Lula já fez acusações gravíssimas contra
adversários em eleições passadas, muitas das quais poderiam facilmente ser
enquadradas como crimes contra a honra, e nem por isso o petista foi incomodado
pelo Direito Penal. O debate eleitoral pode ser agressivo, incivilizado ou até
mentiroso. E daí?
A questão principal dessa história não é a
eventual tipicidade da conduta de Flávio Bolsonaro, mas o velho cacoete de
setores do Judiciário, e de ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral
em particular, de tratar os eleitores como néscios, incapazes, portanto, de
tomar decisões de forma livre e consciente a partir do que observam no
comportamento, nas ideias e nas propostas daqueles que brigam pelo seu voto.
Lula – logo quem, o político mais experiente
em campanhas eleitorais em atividade – não deveria ter acionado o Ministério da
Justiça nem a Polícia Federal em razão da postagem do adversário. Isso é coisa
de incumbente acuado, além de autoritário. A Procuradoria-Geral da República,
por sua vez, deveria ter fulminado a eventual ação penal no nascedouro,
negando-lhe parecer favorável. O Supremo, então, nem se fala. Moraes deveria
ter se contido e dado uma lição a todos os pré-candidatos: o Judiciário não
será bedel do debate eleitoral.
Mas não. O ministro autorizou a abertura de
um inquérito descabido e, ao fazê-lo, alimentou a suspeita não de todo
desarrazoada daqueles que interpretaram sua decisão como o início de um
processo que, no limite, pode tirar das urnas um dos oponentes mais fortes de
Lula. Ou seja, Moraes prestou um enorme desserviço não apenas à Justiça
Eleitoral, mas à democracia brasileira.
Este jornal não ignora que a liberdade de
expressão não é absoluta no Estado Democrático de Direito. Tampouco defende que
acusações infundadas devam circular sem qualquer possibilidade de
responsabilização. Mas, no que concerne ao debate estritamente eleitoral, há de
prevalecer o princípio da mínima intervenção. Fatos e versões se confrontam e
se desconstroem pela própria discussão livre. E quem neste país melhor do que
Lula para rebater as acusações que lhe foram feitas por Flávio Bolsonaro usando
a mesma arma do adversário, o discurso?
Ao correr para debaixo da saia da Justiça, Lula,
a um só tempo, deu projeção às acusações do adversário, permitiu que Moraes
exibisse, mais uma vez, a estrela de xerife-geral da República e, de quebra,
ainda sugeriu não confiar na capacidade do eleitorado de discernir entre o que
é verossímil e o que é mero exagero retórico. É um movimento que empobrece o
debate e desloca o eixo da disputa – do convencimento para a intimidação.
Mas mais preocupante é o papel assumido pelo
STF. Ao admitir a abertura de um inquérito policial em contexto tão
evidentemente político, Moraes reforçou a percepção geral da sociedade de que o
Supremo se tornou um anexo do Palácio do Planalto. Que depois Suas Excelências
não reclamem do impacto que isso terá nas urnas.
A guerra do Irã mudou de terreno
Por O Estado de S. Paulo
Pressão econômica substitui, por ora, guerra
direta, explorando vulnerabilidades reais do Irã, mas diversificando riscos e
envolvendo aliados em escalada mais difusa e menos previsível
As negociações duraram 21 horas em Islamabad
e terminaram sem acordo. O bloqueio que se seguiu – com a Marinha americana
impedindo a entrada e saída de navios ligados ao comércio iraniano no Estreito
de Ormuz – é a tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de obter no
terreno econômico o que a campanha militar não entregou, sem se comprometer, ao
menos por ora, com uma nova escalada direta.
A disputa saiu do campo militar imediato e se
concentrou nos fluxos de energia. O Irã já vinha restringindo o uso de Ormuz
por meio de ataques e ameaças, sem interrompê-lo de forma total e uniforme. A
intervenção dos EUA voltou-se agora contra o próprio comércio iraniano. Ormuz
tornou-se o palco de uma disputa aberta sobre quem consegue impor restrições
mais eficazes – e quem tem mais tolerância à dor.
O estreito costuma ser tratado como a
principal alavanca estratégica do Irã. Mas é também o seu ponto de maior
exposição. A maior parte do comércio externo do país depende dessa rota – não
só o petróleo, mas também grãos e insumos industriais. Estimativas recentes
apontam perdas superiores a US$ 400 milhões por dia sob o bloqueio, com risco
de interrupção da produção petrolífera em poucas semanas. A vulnerabilidade
existe, e é estrutural.
O problema é o que vem junto com ela. O
bloqueio não atinge apenas o regime iraniano. Ele incide sobre um sistema
energético já tensionado e sobre parceiros que continuam a depender do Golfo.
Navios indianos, chineses e até europeus já passaram por rotas condicionadas
por Teerã, e a tentativa de aplicar um bloqueio sustentado tende a arrastar
aliados e neutros para dentro da fricção. A escalada mudou de forma, e agora se
difunde.
O que ocorre no Líbano reflete, a seu modo,
esse limite da coerção. Israel eliminou lideranças, destruiu infraestrutura e
mantém superioridade militar inequívoca. Ainda assim, o Hezbollah segue ativo,
capaz de lançar ataques e sustentar o confronto. O vínculo entre Teerã e o
grupo reforça essa interdependência: as pressões em um front repercutem no
outro, tornando ilusória a ideia de teatros separados. A força funciona, mas
não resolve.
O ponto de partida já era instável. O
cessar-fogo foi anunciado antes que seus termos centrais fossem alinhados.
Washington fala em restaurar o fluxo global em Ormuz, ao mesmo tempo que
restringe o comércio iraniano; Teerã insiste em condicionantes. Israel e Líbano
pactuam uma trégua frágil. Cada lado passou a agir segundo a sua própria
leitura do acordo. A pausa reduziu a intensidade imediata da guerra, mas não
produziu convergência. Criou um intervalo carregado de interpretações
conflitantes.
Nesse ambiente, a ideia corrente de que o
tempo joga a favor do Irã tem limites. A leitura de que o país saiu fortalecido
do confronto confunde resistência com capacidade real. O regime sobreviveu, mas
ao custo de um desgaste militar, econômico e político que ainda pode alterar o
equilíbrio da crise. Por outro lado, ao longo de décadas, Teerã aprendeu a
atravessar ciclos políticos em Washington, apostando que a pressão externa se
dissipe antes de produzir mudança estrutural.
O resultado é um teste assimétrico. Parte dos
efeitos da coerção pode surgir rapidamente, sobretudo sobre uma economia
altamente dependente de um único corredor de exportação. O problema não é
apenas se a estratégia funciona em tese, mas se, na prática, pode ser mantida
pelo tempo necessário para extrair concessões estratégicas que a ofensiva
militar não obteve – limitar o programa nuclear e reduzir o uso de Ormuz como
instrumento de extorsão.
O cenário agora é menos um impasse clássico
do que um equilíbrio instável. A pressão americana é compreensível diante da
ameaça que se busca conter. Mas, no estágio atual, ela desloca o conflito para
formas mais abrangentes e menos previsíveis. Os confrontos armados foram
contidos, mas os custos se distribuem além do alvo original. Seja sustentando a
pressão econômica, seja optando por escalar novamente o conflito armado, cada
caminho amplia parte dos riscos que pretende reduzir.
As faculdades municipais
Por O Estado de S. Paulo
Instituições abrem pelo País cursos de
Medicina de baixa qualidade de forma indiscriminada
Uma reportagem do Estadão sobre cursos de
Medicina oferecidos em instituições municipais revelou um cenário aterrador.
Foram colhidos dos alunos relatos de alta rotatividade de docentes e, não raro,
de falta de professores. E, quando há docentes, não há garantia de
aprendizagem: muitos professores não são qualificados para o cargo. Disciplinas
essenciais para a formação médica, como Biologia Celular e Molecular e
Cardiologia, são negligenciadas. Nas bibliotecas, há prateleiras vazias, sem
livros. Nos laboratórios, faltam microscópios. E muitas instituições atuam sem
hospital-escola. O resultado não poderia ser outro: de oito cursos avaliados no
Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), sete tiraram notas 1
ou 2 – ou seja, as piores possíveis.
Essas instituições foram criadas por
municípios antes da promulgação da Constituição de 1988, são classificadas como
públicas ou de natureza especial, podem cobrar mensalidade e gozam de uma série
de vantagens, como benefícios fiscais e tributários. Diferentemente das
universidades federais e particulares, participaram do Enamed voluntariamente,
haja vista que não estão submetidas à fiscalização do Ministério da Educação
(MEC) nem obedecem aos critérios do edital do Mais Médicos que estabelece um
número mínimo de leitos para atividades práticas. E, assim como as
universidades estaduais, as municipais são reguladas pelos Conselhos Estaduais
de Educação (CEEs), o que, a depender do Estado, pode indicar um apagão
regulatório.
Conforme informou a repórter Paula Ferreira,
que visitou uma das universidades mal avaliadas, a situação é ainda mais grave
porque essas instituições não restringem a sua atuação aos limites dos
municípios em que foram criadas. Ou seja, fundadas para estimular a formação
superior em cidades desassistidas por universidades quando as regras eram bem
diferentes das atuais, hoje viraram um bom negócio. A Universidade de Rio Verde
(UniRV), por exemplo, tem cursos de Medicina em Rio Verde, Aparecida de
Goiânia, Formosa, Goianésia e Luziânia, em Goiás. Já o Centro Universitário de
Mineiros oferece Medicina, além de Mineiros, em Trindade, também em Goiás. Não
parece que o interesse público seja o critério definidor da expansão.
Tal modelo entrou na mira das faculdades privadas, que veem na atuação das municipais uma espécie de concorrência desleal: as mensalidades, em torno de R$ 6 mil, são bem mais baixas do que as de uma instituição particular, onde as mensalidades podem passar de R$ 10 mil. Não à toa, uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questiona a expansão das universidades municipais. Faz bem o MEC, por sua vez, em analisar a propositura de um projeto legislativo que lhe permita atuar em relação a essas faculdades. Claro que a falta de qualidade não é regra: há instituições municipais, inclusive em São Paulo, como a Faculdade de Medicina de Jundiaí, que são exemplos de boa formação médica. Mas, com ou sem qualidade, todas as escolas de Medicina devem estar submetidas a critérios rígidos de avaliação, sem exceção.
Atolado no Irã, Trump pode se voltar para
Cuba
Por Valor Econômico
Se o presidente americano conseguir dobrar o
regime comunista cubano, terá um trunfo para mostrar aos eleitores,
principalmente aos milhões de americanos de origem latina
O presidente Donald Trump já disse: “Cuba é a
próxima”. Ele não disse quando e como pretende focar numa intervenção em Cuba,
mas seu governo precisa desesperadamente de uma vitória em política externa
antes das eleições de novembro para o Congresso americano. Negociações entre Washington
e Havana estão em andamento. Quanto mais rapidamente elas avançarem, melhor
será para o povo cubano, que sofre hoje com uma das piores crises econômicas da
história do país.
No seu primeiro mandato, Trump deu uma
guinada na relação com a ditadura da ilha caribenha. Ele acabou com a política
de abertura e aproximação do governo anterior, do democrata Barack Obama, e
impôs centenas de restrições ao comércio, às viagens e às relações com Cuba,
além de incluir o país na lista de nações acusadas pelos EUA de patrocinar o
terrorismo. Neste segundo mandato, Trump impôs em janeiro um bloqueio
energético, ao impedir ou inibir países fornecedores de vender petróleo para o
regime cubano. Recentemente, permitiu que um navio petroleiro russo atracasse
em Cuba, possivelmente para evitar um confronto com Moscou sobre o tema. Mas
esse carregamento isolado pouco servirá para mitigar a escassez de combustíveis
que paralisou a economia cubana.
A guerra no Irã vem sendo um desastre para
Trump. O conflito fez disparar o preço dos combustíveis nos EUA, está
alimentando uma alta da inflação e rachou a base republicana. A guerra derrubou
a aprovação de Trump. Segundo a média das pesquisas elaborada pelo site
RealClearPolitics, apenas 41,6% dos americanos aprovam a atuação do presidente.
Essa deterioração na popularidade de Trump torna difícil para o Partido
Republicano manter a maioria no Congresso nas eleições de novembro. Pesquisas
de intenção de voto sugerem que a oposição democrata poderá tomar a Câmara e,
talvez, até o Senado.
Trump e seu partido têm poucas opções para
mudar, até o fim do ano, essa percepção negativa dos eleitores. Dificilmente os
EUA conseguirão no Irã algo que possam declarar como uma vitória incontestável.
Apesar da morte do líder supremo iraniano, não houve troca de regime; o país
continua resistindo aos ataques, conseguiu fechar o estreito de Ormuz e mantém
o tom desafiador. Também é pouco provável que a economia americana melhore
consideravelmente nos próximos meses; pelo contrário, o choque do petróleo
torna as perspectivas mais sombrias. Assim, Cuba surge como uma possível tábua
de salvação política.
Ao contrário do Irã e da Venezuela, que têm
enormes reservas de petróleo e gás, Cuba tem pouco a oferecer economicamente
aos EUA. Mas o país tem uma importância simbólica. Desde os anos 1960,
sucessivos governos americanos buscaram, sem sucesso, dobrar o regime comunista
cubano. Se Trump conseguir, terá um trunfo para mostrar aos eleitores,
principalmente aos milhões de americanos de origem latina.
Mas o que Trump quer com Cuba? A experiência
na Venezuela e no Irã sugere que ele não deve mandar tropas para derrubar o
regime cubano. Isso seria arriscado, especialmente numa campanha eleitoral.
Trump já sinalizou que lhe basta que haja um governo favorável aos EUA, que
abra o país a negócios com empresas americanas. Foi o que ocorreu em Caracas.
Isso possivelmente passa pela saída do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel,
uma condição de Washington para que as negociações com Havana avancem. A troca
de líder permite a Trump declarar que houve uma mudança de governo, como ele
alega no caso de Venezuela e Irã. Para atingir esse objetivo, o presidente deve
usar toda forma de pressão econômica, como o bloqueio energético.
Questionado em entrevista à TV americana NBC
News se estaria disposto a deixar o cargo para salvar o país, Díaz-Canel
afirmou que não vai renunciar. “Temos um Estado livre e soberano, desfrutamos
de autodeterminação e independência, e não estamos sujeitos aos desígnios dos
EUA”, afirmou ele. “Em Cuba, aqueles que ocupam posições de liderança não são
escolhidos pelo governo dos EUA, nem possuem um mandato desse governo.”
Os líderes cubanos, no entanto, também não
foram escolhidos pelos cidadãos do país, onde não há eleições livres. O regime
comunista já demonstrou que prefere deixar a população sofrer a abrir mão do
monopólio do poder. Foi o que ocorreu durante o chamado “período especial”, nos
anos 90, quando o colapso da extinta União Soviética jogou a economia de Cuba
na sua pior crise até então. E, mesmo assim, a liderança cubana se recusou a
abrir o país política e economicamente, o que poderia trazer capital externo
tão necessário.
O método e as formas de pressão de Trump não são convencionais, para dizer o mínimo. No caso do Irã, as ameaças de destruir a infraestrutura civil, de mandar o país de volta à idade de pedra e de aniquilar uma civilização foram infames. A tendência do atual governo americano de exigir subserviência dos parceiros também é revoltante e contraproducente aos interesses dos EUA. Mas um acordo que liberalize a economia e que ao menos encaminhe alguma forma de abertura política seria vantajoso para a população cubana.
Revisões abruptas da política tributária
geram insegurança
Por Correio Braziliense
Submeter a política tributária a revisões
abruptas, motivadas pelo calendário das urnas, cria um ambiente de insegurança
que prejudica o planejamento do setor produtivo e confunde a própria sociedade
A admissão pública do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva de que o governo estuda revogar a chamada "taxa das
blusinhas", instituída em 2024, desencadeou uma reação imediata e
contundente do setor produtivo. Nesta semana, 67 associações de empresários e
trabalhadores se mobilizaram e protocolaram um ofício no Palácio do Planalto em
protesto contra a mudança, classificando o recuo presidencial como uma medida
puramente "eleitoreira".
Lula defendeu o fim da taxação de plataformas
de e-commerce asiáticas durante entrevista a um pool de sites de esquerda.
"Eu achava desnecessária a taxa das blusinhas. São compras muito pequenas,
as pessoas de baixo poder aquisitivo é que compravam aquilo. Sei do prejuízo
que isso trouxe para nós", disse.
Mas a cobrança de imposto sobre remessas
internacionais de pequeno valor não nasceu de um capricho burocrático, mas de
uma questão econômica. A medida foi aprovada pelo Congresso Nacional com o
endosso enfático do Ministério da Fazenda, à época Fernando Haddad, para
corrigir uma assimetria. A indústria e o varejo nacionais argumentavam, com
certa razão, que estavam sendo esmagados pela "invasão" de produtos
isentos de tributação. O objetivo da taxa era proteger a competitividade
interna e preservar empregos formais no Brasil.
Faz sentido, dessa forma, questionar a
guinada no entendimento por parte do Executivo. Ao acenar com a derrubada do
tributo para recuperar popularidade às vésperas de ir às urnas, o presidente
corre o risco de quebra de confiança do setor produtivo que apoiou a negociação
há dois anos.
O episódio ilustra bem um problema que todo
governante passa: a ilusão de que o Estado é capaz de agradar a todos
simultaneamente. Governar, por definição, exige a coragem de fazer escolhas
excludentes. Se o governo decide proteger a indústria e os empregos locais,
fatalmente impõe um custo maior ao consumidor final; se opta por escancarar as
portas para produtos estrangeiros baratos, asfixia o empresariado nacional e os
trabalhadores que dependem dele. Não existe mágica aritmética capaz de
conciliar esses dois mundos sem atritos.
O que se deseja do Palácio do Planalto não é
a infalibilidade em suas escolhas econômicas, mas a firmeza e a coerência
institucional para defendê-las após tomadas. Submeter a política tributária a
revisões abruptas, cria um ambiente de insegurança que prejudica o planejamento
do setor produtivo e confunde a própria sociedade.
Quando o governo hesita e demonstra disposição para desfazer as próprias medidas estruturais apenas para evitar desgastes de curto prazo, a mensagem que transmite não é de sensibilidade social, mas de instabilidade. A gestão pública exige convicção para sustentar decisões difíceis; sem ela, corre-se o risco de sacrificar a credibilidade econômica do país.
É preciso superar a tensão entre Congresso e
STF
Por O Povo (CE)
Parece faltar, no Supremo e no parlamento,
alguém que possa agir com maturidade, para promover o diálogo, e pôr fim a
essas crises que minam a democracia
É fora de dúvida que o relator da CPI do
Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), cometeu um grave erro ao
desviar o foco das facções e milícias, objeto para o qual foi criada. A
comissão passou a preocupar-se mais com o caso do Banco Master do que
investigar a expansão das organizações criminosas por várias regiões do País.
Além disso, surpreendentemente, o relatório
pediu o indiciamento de três ministros do STF: Alexandre de Moraes, José
Dias Toffoli e Gilmar Mendes — e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O parecer de Vieira afirma que três ministros e o procurador cometeram crime de
responsabilidade no caso do Banco Master, propriedade de Daniel Vorcaro.
A situação fica pior quando se observa que o
relatório não pediu o indiciamento de nenhum criminoso ligado às facções, como
Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho.
No entanto, a base governista mobilizou-se e
conseguiu rejeitar o relatório de Vieira, na terça-feira à noite, no mesmo dia
da apresentação do documento. Mas o estrago já estava feito.
Nesse espaço de tempo, houve reação dos
ministros do STF.
Gilmar Mendes pediu à PGR que investigue
Alessandro Vieira por abuso de poder. Paradoxalmente, Gonet — cujo pedido de
indiciamento foi feito pelo relator da CPI — vai decidir agora sobre a
possibilidade de abrir uma investigação sobre o próprio Vieira.
Por sua vez, Dias Toffoli entrou
duramente na discussão, propondo tornar Vieira inelegível: "Nós não
podemos deixar de nos furtar a cassar eleitoralmente aqueles que abusaram,
atacando as instituições para obter voto e conspurcar o voto do eleitor. Porque
é disso que se trata quando surge um relatório aventureiro desse".
Essa é uma situação na qual ambos os lados
agem impulsivamente, sem avaliar as consequências de seus atos, com menoscabo à
institucionalidade. Se houve erro da parte do relator da CPI, não menos
equivocada foi a resposta dos ministros do STF, que reagiram de forma
inadequada e desproporcional, considerando os cargos de alta responsabilidade
que ocupam.
Os ministros do STF não podem se considerar
intocáveis. Eles também estão sujeitos ao escrutínio público e devem à
sociedade explicações sobre seus atos. Não parece ser razoável cassar o mandato
de um senador, por mais equivocado que tenha sido o relatório assinado por ele.
O suposto excesso cometido por Vieira não pode ser combatido com outro abuso.
O fato é que existe um terreno minado, entre o STF e o Congresso Nacional, com bombas sempre prestes a explodir. Parece faltar, no Supremo e no parlamento, alguém que possa agir com maturidade, para promover o diálogo, e pôr fim a essas crises que minam a democracia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário