O Estado de S. Paulo
Nem todo mundo ‘tem seu preço’, mas Vorcaro
sabia farejar quem tem e vende a própria honra
Quando se olha a foto de Paulo Henrique Costa, a pergunta que vem à cabeça é imediata: como um homem de 49 anos, com mulher e filhos, bem-sucedido, que chegou a presidente do BRB, o banco estatal de Brasília, joga fora tudo isso, honra, biografia, liberdade, a própria vida e o futuro da família, por dinheiro?
O onipresente Daniel Vorcaro, que agiu desde o início do Master comprando poderosos, sabia que “nem todo mundo tem seu preço” e farejava quem era mais suscetível a vender a própria honra. A de Costa, por exemplo, custou a ele seis imóveis, no valor extraordinário de R$ 146,6 milhões, mas é bem provável que já estivesse à venda quando assumiu o BRB, em janeiro de 2019, por escolha pessoal do então governador Ibaneis Rocha.
Há alguns anos, os guardanapos de um
restaurante nos Jardins, em São Paulo, me chamaram a atenção, porque eram uma
propaganda do BRB. Por que o banco estatal de Brasília financiava restaurantes
paulistanos? Se a PGR, a PF e a Polícia Civil do DF ampliarem as investigações,
ainda vem muita coisa contra o BRB de Ibaneis e Costa por aí.
Sim, Vorcaro tinha “faro” para identificar e
ir direto a quem era suscetível a vender a própria honra e até calculava os
valores caso a caso, R$ 130 milhões para cá, R$ 146 milhões para lá, resorts,
festanças e garotas de programa, em troca, por exemplo, dos R$ 12,2 bilhões que
o BRB despejou em carteiras fraudulentas do Master.
“A cada passo o caminho está mais claro e
estou mais empolgado com o que vamos construir (...), dou muito valor ao
alinhamento pessoal e acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho,
visão de mundo e perfil”, desmanchou-se Costa em mensagens para Vorcaro, em que
deixou evidente que Ibaneis sabia de tudo: “O Governador me pediu que
preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber
críticas”.
Para embolar governadores, presidentes e
diretores de bancos públicos, ministros do STF, políticos à esquerda e à
direita, fundos de pensão, agências e blogs, Vorcaro não contava “só” com o
Sicário, cangaceiro da quadrilha, mas também com Augusto Lima, ex-sócio muito
bem relacionado, que “caçava alvos fáceis”, e Daniel Lopes Monteiro, advogado e
engenhoso operador do esquema.
Com a prisão de Paulo Henrique Costa e de
Daniel Monteiro, ontem, o tempo corre contra Vorcaro, a quem só resta uma
saída, a delação premiada. Se Lima, Costa e Monteiro se anteciparem, citando
nomes, detalhes e provas reluzentes, o que sobra para o próprio Vorcaro? De
delator, ele passará a delatado. Mesmo com tudo o que já sabemos, falta muito
ainda a explodir. •

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