Por Lauriberto Pompeu e Luísa Marzullo / O Globo
Negociação entre senador e banqueiro já
provoca desgastes em Santa Catarina, reforça afastamento em estados do Nordeste
e provoca constrangimentos em São Paulo e Minas
BRASÍLIA - A crise provocada pela
revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o
banqueiro Daniel Vorcaro interrompeu negociações para a formação de palanques
nas eleições deste ano. Enquanto aliados do bolsonarismo tentam conter
publicamente os danos do caso envolvendo o Banco Master, outros partidos e
líderes estaduais passaram a recalcular o custo eleitoral de atrelar suas
campanhas ao projeto presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dirigentes partidários, governadores e
parlamentares discutem estratégias para evitar que o desgaste nacional da crise
contamine disputas locais consideradas competitivas.
O movimento já produz reflexos em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará e Distrito Federal e acelerou disputas internas dentro do próprio campo bolsonarista.
A vinculação de Flávio com o escândalo também
provoca resultados negativos na campanha do presidenciável do PL. Inicialmente
a perspectiva era que ele tivesse um palanque duplo em Santa Catarina, estado
de maioria bolsononarista, mas agora a tendência é que o PL fique isolado no
palanque de Flávio.
Lá, o governador Jorginho Mello (PL) e o
ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD) eram esperados na base de
sustentação a Flávio. Após a divulgação das mensagens entre Vorcaro e o
senador, o pré-candidato do PSD disse ao GLOBO que deve dar um palanque único
para Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD a presidente, e buscar se desvincular
de Flávio.
O pré-candidato a governador, no entanto, diz
que não vai criticar Flávio durante a campanha:
– Ficar em silêncio é o melhor caminho.
A crise do banco Master ampliou um desgaste
que já existia no estado, onde a direita enfrenta uma competição interna pelo
Senado. Carlos Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, e Caroline de Toni (PL),
desejam a vaga, que também é almejada pelo candidato à reeleição Esperidião
Amin (PP).
Ao mesmo tempo, partidos aliados ao PL nos
estados passaram a defender campanhas mais independentes da disputa
presidencial.
No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB),
que tenta voltar ao cargo, passou a defender que a campanha estadual evite
nacionalizar excessivamente a disputa presidencial. Ciro lançou sua
pré-candidatura nesse sábado, e contou com a presença de integrantes do PL do
Ceará. Há, porém, uma preocupação que a aliança fique restrita ao plano
estadual.
– Ciro não vai tratar de Presidência. Somente
de governo do estado – disse o deputado Mauro Benevides Filho (União-CE), um
dos principais aliados do ex-governador.
Por outro lado, a estratégia não está
alinhada com os integrantes do PL local, que ainda desejam que o pré-candidato
do PSDB esteja no palanque de Flávio. O deputado estadual Alcides Fernandes
(PL), que deve ser candidato a senador na chapa de Ciro, compartilhou nessa
quinta-feira nas redes sociais uma montagem de pré-campanha em que a foto dele
aparece junto da de Flávio e Ciro.
Na Bahia, o cenário também passou a exigir
cautela maior. Apesar da tendência de convivência regional entre o bolsonarismo
e o ex-prefeito ACM Neto (União), interlocutores afirmam que a cúpula da
federação União Brasil-PP freou as tratativas nacionais com Flávio.
Antes mesmo do escândalo Master chegar em
Flávio, o pré-candidato a governador da Bahia evitava nacionalizar sua
campanha. Assim como acontece no Ceará, o ex-prefeito deverá ter o PL na sua
chapa, mas sem dar palanque para o pré-candidato do partido a presidente.
Mesmo em estados considerados mais
consolidados para o bolsonarismo, o ambiente passou a exigir maior cautela. É o
caso de São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos)
disputará a reeleição com apoio da família Bolsonaro.
Integrantes do partido afirmam reservadamente
que ainda é cedo para medir os efeitos concretos da crise sobre a dinâmica das
alianças estaduais, mas admitem preocupação com o potencial de contaminação
nacional do episódio.
O mesmo acontece em Minas Gerais, onde um
acordo entre o PL e o senador Cleitinho (Republicanos) evoluiu nessa semana.
Mesmo com a aproximação, dirigentes do Republicanos dizem que “há muita coisa
para acontecer” antes de definirem se Flávio terá o apoio de Cleitinho e da
sigla no estado.
Ainda que provoque um abalo nas alianças com
outros partidos de direita, pré-candidatos filiados ao PL têm procurado afastar
qualquer possibilidade de sinalização que Flávio não será o candidato do
partido. Nomes como os dos senadores Sergio Moro (PL-PR) e Efraim Filho (PL-PB)
minimizaram a crise e disseram que o filho do ex-presidente já se explicou
sobre o assunto.
Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, a
principal preocupação dentro do PL hoje não é apenas o desgaste imediato da
candidatura presidencial de Flávio, mas o risco de que o caso comprometa a
engenharia nacional de alianças construída pelo bolsonarismo para a próxima
eleição.
A montagem dos palanques estaduais vinha
sendo tratada como um dos principais ativos políticos da pré-campanha do
senador. Em prisão domiciliar desde março, Jair Bolsonaro continua exercendo
influência direta sobre as decisões estratégicas da direita e deverá receber,
nas próximas semanas, uma espécie de mapa consolidado das alianças estaduais do
bolsonarismo para dar a palavra final sobre os acordos regionais.
Parte dessas negociações, porém, entrou em
compasso de espera após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens,
áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para
financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente.
Segundo a publicação, o acordo previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$
134 milhões.
O impacto foi especialmente forte porque
atingiu um momento em que o PL tentava consolidar alianças simultaneamente com
partidos do Centrão, governadores de direita e setores mais ideológicos do
bolsonarismo.
A ofensiva de Zema e os reflexos em Minas
O primeiro grande efeito político concreto
apareceu em Minas Gerais. A decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) de
endurecer publicamente os ataques contra Flávio aprofundou o isolamento
político do governador Mateus Simões (PSD) junto ao bolsonarismo e começou a
contaminar negociações nacionais do PL com o Novo.
Poucas horas após a divulgação da reportagem
do Intercept, Zema afirmou ser “imperdoável” ouvir Flávio pedindo dinheiro ao
banqueiro Daniel Vorcaro.
— É um tapa na cara dos brasileiros de bem.
Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer as mesmas coisas
— declarou.
A reação provocou forte irritação dentro do
núcleo político do PL. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ),
afirmou que o discurso de Zema passou a ameaçar acordos estaduais considerados
estratégicos pela legenda.
— Há uma pressão de alguns parlamentares para
suspender os acordos nas majoritárias com o Novo por conta das declarações do
Zema — afirmou.
Nos bastidores do PL, interlocutores afirmam
que a crise consolidou a decisão do partido de abandonar qualquer tentativa de
composição com o grupo de Zema em Minas e aprofundou a aproximação com o
Republicanos e o senador Cleitinho Azevedo, que também ainda precisará ser
confirmada.
A parceria entre as duas siglas já vinha
sendo construída antes da crise e ganhou força numa reunião em Brasília, na
última terça-feira, que reuniu Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o
presidente estadual do PL, Zé Vitor (PL-MG), e o empresário Flávio Roscoe.
Na prática, o PL já vinha esfriando as
tratativas com o governador de Minas, Mateus Simões (PSD), sucessor de Zema e
candidato à reeleição, diante da provável candidatura presidencial do político
do Novo. A avaliação predominante era que não fazia sentido manter uma aliança
estadual com um grupo que apoiaria outro presidenciável no primeiro turno. A
crise do Master, contudo, acelerou o movimento.
O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG),
pré-candidato ao Senado em Minas, afirmou que a reação de Zema tornou
“praticamente impossível” qualquer entendimento político entre os grupos.
— Tenho uma relação boa com Mateus, mas a
dificuldade é que ele era leal ao ex-governador. Agora, mesmo se a gente
resolvesse ceder e topar dois palanques, quando Zema vem com metralhadora torna
praticamente impossível uma aliança com o candidato dele — disse.
Dentro do PL, interlocutores afirmam que o
desgaste de Flávio também enfraqueceu o plano inicial de impulsionar Flávio
Roscoe ao governo mineiro vinculado diretamente à imagem da candidatura
presidencial do senador. A estratégia previa uma campanha casada, resumida
internamente no slogan “Flávio lá e Flávio cá”. Diante do desgaste, porém, o
plano foi congelado e Cleitinho passou a ser tratado, ao menos por ora, como o
nome mais seguro da direita para a disputa estadual.
Michelle amplia influência enquanto aliados
tentam “descolar” campanhas estaduais
Nos bastidores, integrantes da legenda
afirmam que a crise reorganizou imediatamente a disputa interna por espaço
dentro da direita. A crise agrava também a competição interna entre o senador
do PL e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que disputam na escolha de
candidatos nos estados.
Michelle, por exemplo, tem acenado ao senador
Esperidião Amin, rival de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, e apoia no Ceará
a pré-candidatura da vereadora Priscila Costa (PL) ao Senado, que compete pela
indicação à vaga com Alcides Fernandes, nome da preferência de Flávio.
Enquanto aliados regionais recalculam o grau
de proximidade com Flávio, a crise passou a fortalecer outro movimento dentro
do bolsonarismo: o crescimento da influência política de Michelle Bolsonaro
sobre os palanques estaduais da direita.
Mesmo concentrada nos cuidados com Jair
Bolsonaro, Michelle ampliou sua participação direta nas negociações eleitorais
em mais de vinte estados, segundo interlocutores. O foco principal da
ex-primeira-dama está em candidaturas ligadas ao eleitorado evangélico, feminino
e mais ideológico da direita.
Aliados afirmam que a turbulência envolvendo
Flávio abriu ainda mais espaço para Michelle consolidar uma estrutura política
própria dentro do partido — muitas vezes em tensão com integrantes do entorno
do senador.
Embora interlocutores ligados à
ex-primeira-dama afirmem que ela descarta, por ora, disputar a Presidência, o
nome de Michelle passou a circular com mais frequência em conversas reservadas
dentro da direita após a repercussão do caso Vorcaro.
Enquanto isso, ela amplia influência sobre
decisões regionais importantes. Michelle conseguiu barrar, ao menos
temporariamente, a possibilidade de Rogéria Bolsonaro (PL-RJ) disputar o Senado
no Rio de Janeiro.
No Distrito Federal, porém, interlocutores
ligados à ex-primeira-dama admitem preocupação crescente com os desdobramentos
envolvendo o governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado estratégico do grupo
político de Michelle e peça central para a candidatura da vice-governadora
Celina Leão (PP) ao governo local.
Integrantes do bolsonarismo afirmam que eventual agravamento da situação política de Ibaneis poderia comprometer justamente um dos palanques femininos considerados prioritários para Michelle.

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