Valor Econômico
Um coro canta persistentemente ‘gastança, gastança’, forma expectativas de inflação que na maioria das vezes não se realizam, mas forçam o BC a manter juros nas alturas
Dias atrás, um economista brasileiro fez
palestra para um pequeno grupo de pessoas de círculos acadêmicos em São Paulo.
Ao sair da sala, um dos ouvintes, brincando, disse: “Vou passar na farmácia
mais próxima e comprar um antidepressivo”.
De fato, como dizia Tom Jobim, o Brasil é para profissionais. Tem um número enorme de problemas em todas as áreas, oriundos de dificuldades burocráticas, instabilidade econômica, corrupção e desafios na área cultural e para fazer negócios.
Talvez esse conjunto de problemas leve o brasileiro a olhar para o futuro sempre com pessimismo e quase sem reconhecer qualidades que poderia ver no retrovisor.
Alfred, um estrangeiro que chama a si mesmo
de gringo, estranhou o nível do pessimismo. A menos que as estatísticas estejam
erradas, diz, o desempenho brasileiro na criação de empregos neste século não é
nada ruim. Ele somou os dados de criação de empregos formais no Brasil desde
2003, primeiro governo Lula, até 2025 e chegou a um resultado que o
surpreendeu. O país criou, nesse período, 39 milhões de empregos, número muito
maior que o do crescimento da população (27 milhões) e largamente superior ao
avanço da população economicamente ativa (20 milhões).
Gringos, às vezes, enxergam melhor o Brasil
do que os próprios brasileiros, tanto nas qualidades como nos defeitos. Para
não politizar, Alfred, procurou utilizar dados dos últimos 23 anos, que incluem
governos de esquerda e direita, embora observe que, na criação de empregos, os
chamados progressistas foram mais bem-sucedidos. Lula, por exemplo, criou 15
milhões de vagas com carteira assinada nos dois primeiros mandatos e cerca de 5
milhões no terceiro, até o primeiro trimestre deste ano.
Alfred citou também dados da renda, porque
acha que emprego e renda são os principais indicadores do avanço econômico de
um país. E viu que houve um aumento de quase 50% na renda real do trabalho
desde 2003. Houve um aumento razoável, que se concentrou principalmente no
período de 2003 a 2014. Depois, houve forte queda de renda na recessão de 2015
a 2016 e na pandemia, mas o crescimento voltou nos anos recentes. Em valores de
hoje, a renda salarial mensal média passou de R$ 2.400 em 2003 para R$ 3.560 em
2025 - a alta do ano passado foi de 5,7% em relação ao valor de 2024.
O fator mais importante para o aumento da
renda salarial foi o ganho real do salário mínimo, que subiu 70% a 80% acima da
inflação no período de 2003 a 2014. Depois disso, o mínimo ficou quase
estagnado em termos reais e voltou a subir a partir de 2022.
Apesar das oscilações na renda, Alfred
considera que o desempenho do Brasil neste século é positivo. E sugere que não
se deve olhar apenas para o crescimento do PIB ao avaliar o avanço econômico
dos países. Nesse quesito, e num período bem mais longo, o Brasil teve
crescimento inferior à média mundial. Calculados em Paridade de Poder de
Compra, o PIB per capita brasileiro subiu 428% de 1980 a 2025, enquanto o global
avançava 675% (dados do Fundo Monetário Internacional).
O gringo observa que os números da economia,
tanto do passado quanto do futuro a curto e médio prazos, são positivos. O
conflito no Oriente Médio, por exemplo, vai permitir um salto extraordinário no
superávit comercial.
Votando para o passado, além do emprego e da
renda, os indicadores relativos à igualdade não justificam o elevado pessimismo
do brasileiro. O país começou o século com o Índice de Gini estimado em 0,59 e
hoje está em 0,51, variação que indica uma razoável melhora na distribuição da
renda, porque quanto menor é esse índice, menor é a desigualdade. Em 2024, o
Gini foi o melhor da série histórica (0,50) e em 2025 houve pequena oscilação
para pior (0,51).
Alfred admite, porém, que o alto
endividamento, não só das famílias como também das empresas, pode ser um fator
negativo forte. Nesse caso, o olhar de fora do país é diferente do brasileiro.
O gringo vê uma incomum tolerância da sociedade com a manutenção, há três
décadas, de juros reais absurdamente altos no país. Não é possível admitir, por
exemplo, juros reais de 400% ao ano em cartão de crédito, mas a sociedade
aceita isso como se fosse normal.
Ele vê como dominante a justificativa de que
os juros astronômicos são decorrentes principalmente da gastança do governo.
Não observa na mídia quase ninguém sugerindo que possa haver um erro do Banco
Central na formação das expectativas e na fixação da taxa básica, hoje em 14,5%
ao ano. Existem muitos países com situação fiscal igual ou pior que a do Brasil
onde os juros são civilizados. Aqui, um coro canta persistentemente “gastança,
gastança”, forma expectativas de inflação que na maioria das vezes não se
realizam, mas forçam o BC a manter juros nas alturas, um paraíso para
rentistas. No ano passado, houve melhora em todas as faixas de renda, mas os
10% mais ricos tiveram crescimento muito acima da média nacional, em grande
parte por conta dos ganhos com aplicações financeiras. E o governo gastou cerca
de R$ 1 trilhão pagando juros.
Enquanto houver essas aberrações, diz o
gringo, o governo pode fazer quantos “Desenrola” quiser que não vai resolver o
problema do endividamento, citando o programa de renegociação das dívidas
lançado neste mês.
Como dizia José Saramago, às vezes é
necessário sair da ilha para ver a ilha.

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