O Estado de S. Paulo
Ao que parece, as revelações não são um mero
incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de
opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro
Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.
A direita brasileira, de um modo geral, não
vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em
nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe
algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos
cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.
A vitória de Jair Bolsonaro representou um
encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como
ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo,
da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma
desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições
históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo.
Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a
corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E
enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo
“bandido bom é bandido morto”.
Numa época em que as redes sociais têm
hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença
agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor.
Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro
galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que
desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.
Agora que o modelo dinástico com a
candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a
estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha
presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no
Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF), inclusive com impeachment.
Nada autoriza dizer que a direita perderá
espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições
proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da
fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas
inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A
expectativa vai baixar.
No campo da esquerda, havia um certo cansaço
com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa
que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a
manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se
fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas
dificilmente um deles vai superar a fragmentação.
Diante dessa possível realidade, o caminho é
desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos
positivos e, certamente, encontre outros.
A política de transição energética é
fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um
importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se
vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos
naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o
futuro.
Reformas serão necessárias: política,
administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas
essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes
dificuldades financeiras em 2027.
Será preciso superar o problema de equilíbrio
fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste
e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de
Barcelona.
Penso que uma reforma administrativa e a
adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve,
a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o
peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso
discutir com calma como sair desse dilema.
É preciso saber também como será o resultado
final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que
evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis
como Donald Trump.
É previsível que todos terão de tentar uma
renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a
interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o
diga.

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