O Globo
A dimensão internacional estrutura as
estratégias de quase todos os principais postulantes
Há algo inédito na corrida presidencial
brasileira de 2026: antes mesmo de o horário eleitoral começar, os principais
candidatos já acumulam passaportes carimbados. Lula,
em clara sinalização eleitoral, encontrou Donald Trump na Casa Branca. Flávio
Bolsonaro visitou El Salvador, Israel, França, Bahrein e Estados Unidos (pelo
menos três vezes). Ronaldo
Caiado desembarcou em Israel em 2024, ao lado de Tarcísio de Freitas.
Há um ano, Romeu Zema foi
a San Salvador numa missão do governo mineiro sobre segurança pública.
A disputa presidencial brasileira está globalizada, cada vez mais conectada com os ventos do mundo. Isso não é inteiramente novo. Em 1989, Lula, Fernando Collor de Mello, Leonel Brizola e até Paulo Maluf viajaram para o exterior durante a campanha. Bolsonaro fez o mesmo na longa pré-campanha que o conduziu à vitória de 2018, apostando na visibilidade que Israel e a proximidade com Trump lhe conferiam.
A diferença fundamental é que, nas eleições
de 1989, os temas internacionais eram mero pano de fundo. Em 2018, foram
centrais para Bolsonaro, mas irrelevantes para todos os outros candidatos. Em
2026, pela primeira vez, a dimensão internacional estrutura simultaneamente as
estratégias de quase todos os principais postulantes.
Cada candidato enxerga no roteiro
internacional uma oportunidade distinta. Para Lula, já dotado de reconhecimento
global, a visita a Trump serviu para mostrar ao eleitor de centro que o Brasil
não precisa de um Bolsonaro para mediar as relações com a Casa Branca. De
quebra, o presidente demonstra ser capaz de aliar pragmatismo e defesa do
interesse nacional junto aos Estados Unidos, minimizando a percepção de que
seja antiamericano.
Para Flávio, a estratégia é tripla. Primeiro,
dar continuidade ao legado de política externa do pai, naquilo que chamou de
“Bolsonaro 2.0” em recente aparição na Conferência de Ação Política
Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), no Texas. Segundo, consolidar as redes
transnacionais de extrema direita que seu irmão Eduardo articula a partir dos
Estados Unidos e que lhe emprestam apoio, recursos e legitimidade. Terceiro, e
talvez mais importante, construir uma imagem de estadista, algo que ainda está
longe de alcançar.
O encontro de Caiado com o primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu em 2024 funcionou, a um só tempo, como oposição direta a
Lula no tema do conflito israelense-palestino e como reforço de credenciais
junto ao bolsonarismo. Tendo sido rejeitado como sucessor de Bolsonaro, o
ex-governador de Goiás agora mobiliza o ativo que tem — as terras-raras do
estado — para se colocar como interlocutor dos interesses estratégicos
americanos.
Zema e Renan Santos, por fim, disputam o
mesmo eleitorado de Bolsonaro e Caiado, aquele que quer radicalismo na
segurança pública e encontra em Nayib Bukele um símbolo mais palatável que
qualquer figura doméstica. Enquanto o ex-governador mineiro visitou El Salvador
e conduziu diversas missões de investimento nos Estados Unidos, o candidato do
Missão, que ainda não viajou oficialmente, recheia seus discursos de
referências à experiência salvadorenha.
Tudo isso revela, no fundo, uma transformação
profunda no comportamento do eleitor brasileiro. A política interna e a
geopolítica global estão cada vez mais entrelaçadas no imaginário de quem vai
às urnas. Numa corrida em que alinhamentos internacionais viraram sinal de
identidade e credencial de governo, vencer as eleições poderá depender, cada
vez mais, de saber jogar no tabuleiro global.
*Guilherme Casarões é professor na Florida International University

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