terça-feira, 12 de maio de 2026

Eleição nacional, estratégia global, por Guilherme Casarões*

O Globo

A dimensão internacional estrutura as estratégias de quase todos os principais postulantes

Há algo inédito na corrida presidencial brasileira de 2026: antes mesmo de o horário eleitoral começar, os principais candidatos já acumulam passaportes carimbados. Lula, em clara sinalização eleitoral, encontrou Donald Trump na Casa Branca. Flávio Bolsonaro visitou El SalvadorIsraelFrançaBahrein e Estados Unidos (pelo menos três vezes). Ronaldo Caiado desembarcou em Israel em 2024, ao lado de Tarcísio de Freitas. Há um ano, Romeu Zema foi a San Salvador numa missão do governo mineiro sobre segurança pública.

A disputa presidencial brasileira está globalizada, cada vez mais conectada com os ventos do mundo. Isso não é inteiramente novo. Em 1989, Lula, Fernando Collor de Mello, Leonel Brizola e até Paulo Maluf viajaram para o exterior durante a campanha. Bolsonaro fez o mesmo na longa pré-campanha que o conduziu à vitória de 2018, apostando na visibilidade que Israel e a proximidade com Trump lhe conferiam.

A diferença fundamental é que, nas eleições de 1989, os temas internacionais eram mero pano de fundo. Em 2018, foram centrais para Bolsonaro, mas irrelevantes para todos os outros candidatos. Em 2026, pela primeira vez, a dimensão internacional estrutura simultaneamente as estratégias de quase todos os principais postulantes.

Cada candidato enxerga no roteiro internacional uma oportunidade distinta. Para Lula, já dotado de reconhecimento global, a visita a Trump serviu para mostrar ao eleitor de centro que o Brasil não precisa de um Bolsonaro para mediar as relações com a Casa Branca. De quebra, o presidente demonstra ser capaz de aliar pragmatismo e defesa do interesse nacional junto aos Estados Unidos, minimizando a percepção de que seja antiamericano.

Para Flávio, a estratégia é tripla. Primeiro, dar continuidade ao legado de política externa do pai, naquilo que chamou de “Bolsonaro 2.0” em recente aparição na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), no Texas. Segundo, consolidar as redes transnacionais de extrema direita que seu irmão Eduardo articula a partir dos Estados Unidos e que lhe emprestam apoio, recursos e legitimidade. Terceiro, e talvez mais importante, construir uma imagem de estadista, algo que ainda está longe de alcançar.

O encontro de Caiado com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em 2024 funcionou, a um só tempo, como oposição direta a Lula no tema do conflito israelense-palestino e como reforço de credenciais junto ao bolsonarismo. Tendo sido rejeitado como sucessor de Bolsonaro, o ex-governador de Goiás agora mobiliza o ativo que tem — as terras-raras do estado — para se colocar como interlocutor dos interesses estratégicos americanos.

Zema e Renan Santos, por fim, disputam o mesmo eleitorado de Bolsonaro e Caiado, aquele que quer radicalismo na segurança pública e encontra em Nayib Bukele um símbolo mais palatável que qualquer figura doméstica. Enquanto o ex-governador mineiro visitou El Salvador e conduziu diversas missões de investimento nos Estados Unidos, o candidato do Missão, que ainda não viajou oficialmente, recheia seus discursos de referências à experiência salvadorenha.

Tudo isso revela, no fundo, uma transformação profunda no comportamento do eleitor brasileiro. A política interna e a geopolítica global estão cada vez mais entrelaçadas no imaginário de quem vai às urnas. Numa corrida em que alinhamentos internacionais viraram sinal de identidade e credencial de governo, vencer as eleições poderá depender, cada vez mais, de saber jogar no tabuleiro global.

*Guilherme Casarões é professor na Florida International University

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