terça-feira, 12 de maio de 2026

O alto custo da guerra de Trump, por Míriam Leitão

O Globo

Conflito iniciado por Trump já fez o americano pagar US$ 35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge também a inflação brasileira

O custo da guerra para os Estados Unidos não é apenas a cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras. Essa é a ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao Financial Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento da despesa com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito contra o Irã é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.

Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma, com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família, aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.

As famílias lidam com isso de maneira desigual, como sempre. O terço mais rico não mudou os hábitos, o terço mais pobre cortou o consumo e recorre a caronas e ao transporte público. O querosene de aviação subiu mais de 70%, o que está claramente afetando os preços das passagens aéreas e foi uma das razões da falência de uma companhia aérea low cost, a Spirit Airlines.

Há a perda do que não aconteceu. Não houve o corte de juros. Antes da crise, a previsão era de dois cortes de 0,25 ponto percentual, pelo menos. As reduções não foram feitas. E nem poderão ser, mesmo com a mudança do presidente do Fed que será agora em maio, porque a inflação está em 3,5%, bem acima da meta de 2%. A despesa dos juros mais altos do que estariam se não fosse a guerra é calculada na matéria do Financial Times em US$ 200 bilhões. Juros menores estimulam a demanda, portanto, há também a ausência do estímulo que não ocorrerá.

Os fretes subiram de forma geral, até nas rotas que não passam pelo Oriente Médio, elevando os custos de produção da cadeia industrial e dos alimentos. Segundo a reportagem, os economistas estão prevendo que demorará seis meses até os efeitos desse choque chegarem aos preços da comida. Mas o valor do diesel, fretes mais altos e energia cara vão bater na inflação de alimentos. Tudo pode ser pior porque há ainda os fertilizantes que ficam mais caros e com menor oferta no mercado. Os países da região do Golfo são grandes fornecedores do produto. “O preço dos fertilizantes nitrogenados – muitos produzidos no Oriente Médio – subiu mais de 30% desde o início da guerra”, diz o jornal inglês.

Todos os países estão sentindo em maior ou menor grau o efeito do confronto em sua estrutura de preços. O Brasil, inclusive. A inflação de abril, que será divulgada hoje, mostrará a pressão dos preços provenientes da tensão geopolítica. Aqui, os combustíveis só não subiram tanto por dois motivos: a decisão de subsidiar o diesel e a política da Petrobras de segurar o reajuste da gasolina. Até que ponto isso é sustentável? Tanto o subsídio quanto o represamento de preços da gasolina têm peso elevado no gasto direto ou na receita que não vai entrar. Os juros aqui caíram, mas menos do que se projetava antes do confronto.

Além dos devastadores reflexos deste conflito, que o presidente Donald Trump iniciou intempestivamente e não sabe como terminar, paira ainda o temor do El Niño. Vários especialistas avaliam que o fenômeno climático poderá ser mais forte do que em anos anteriores. O resultado será mais inflação. Cálculos da G5 Partners mostram que em anos com El Niño, a média da inflação da alimentação no domicílio é de 11,6% contra 6,1% em anos sem esse fenômeno.

No ano passado, a alta do real e a falta de eventos climáticos extremos fizeram com que os alimentos registrassem alta de apenas 1,42%. Em 2026, só temos a valorização cambial jogando a favor.

Há nove semanas, o Boletim Focus vem aumentando a projeção do IPCA e há quatro semanas a previsão para 2026 é de estouro do teto da meta, o que piora o quadro para um governo que está disputando a reeleição. Ruim também é o impacto da operação no Irã no eleitorado que estará votando para renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado nos Estados Unidos. A aprovação de Trump nunca foi tão baixa. Ele prometeu não iniciar novas guerras, encerrar algumas, manter a inflação baixa e gasolina barata. Mas a realidade é o oposto do que o seu eleitor estava esperando.

 

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