O Globo
Conflito iniciado por Trump já fez o
americano pagar US$ 35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge
também a inflação brasileira
O custo da guerra para os Estados Unidos não
é apenas a cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras.
Essa é a ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao
Financial Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento
da despesa com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito
contra o Irã é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.
Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma, com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família, aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.
As famílias lidam com isso de maneira
desigual, como sempre. O terço mais rico não mudou os hábitos, o terço mais
pobre cortou o consumo e recorre a caronas e ao transporte público. O querosene
de aviação subiu mais de 70%, o que está claramente afetando os preços das
passagens aéreas e foi uma das razões da falência de uma companhia aérea low
cost, a Spirit Airlines.
Há a perda do que não aconteceu. Não houve o
corte de juros. Antes da crise, a previsão era de dois cortes de 0,25 ponto
percentual, pelo menos. As reduções não foram feitas. E nem poderão ser, mesmo
com a mudança do presidente do Fed que será agora em maio, porque a inflação
está em 3,5%, bem acima da meta de 2%. A despesa dos juros mais altos do que
estariam se não fosse a guerra é calculada na matéria do Financial Times em US$
200 bilhões. Juros menores estimulam a demanda, portanto, há também a ausência
do estímulo que não ocorrerá.
Os fretes subiram de forma geral, até nas
rotas que não passam pelo Oriente Médio, elevando os custos de produção da
cadeia industrial e dos alimentos. Segundo a reportagem, os economistas estão
prevendo que demorará seis meses até os efeitos desse choque chegarem aos
preços da comida. Mas o valor do diesel, fretes mais altos e energia cara vão
bater na inflação de alimentos. Tudo pode ser pior porque há ainda os
fertilizantes que ficam mais caros e com menor oferta no mercado. Os países da
região do Golfo são grandes fornecedores do produto. “O preço dos fertilizantes
nitrogenados – muitos produzidos no Oriente Médio – subiu mais de 30% desde o
início da guerra”, diz o jornal inglês.
Todos os países estão sentindo em maior ou
menor grau o efeito do confronto em sua estrutura de preços. O Brasil,
inclusive. A inflação de abril, que será divulgada hoje, mostrará a pressão dos
preços provenientes da tensão geopolítica. Aqui, os combustíveis só não subiram
tanto por dois motivos: a decisão de subsidiar o diesel e a política da
Petrobras de segurar o reajuste da gasolina. Até que ponto isso é sustentável?
Tanto o subsídio quanto o represamento de preços da gasolina têm peso elevado
no gasto direto ou na receita que não vai entrar. Os juros aqui caíram, mas
menos do que se projetava antes do confronto.
Além dos devastadores reflexos deste
conflito, que o presidente Donald Trump iniciou intempestivamente e não sabe
como terminar, paira ainda o temor do El Niño. Vários especialistas avaliam que
o fenômeno climático poderá ser mais forte do que em anos anteriores. O
resultado será mais inflação. Cálculos da G5 Partners mostram que em anos com
El Niño, a média da inflação da alimentação no domicílio é de 11,6% contra 6,1%
em anos sem esse fenômeno.
No ano passado, a alta do real e a falta de
eventos climáticos extremos fizeram com que os alimentos registrassem alta de
apenas 1,42%. Em 2026, só temos a valorização cambial jogando a favor.
Há nove semanas, o Boletim Focus vem
aumentando a projeção do IPCA e há quatro semanas a previsão para 2026 é de estouro
do teto da meta, o que piora o quadro para um governo que está disputando a
reeleição. Ruim também é o impacto da operação no Irã no eleitorado que estará
votando para renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado nos Estados
Unidos. A aprovação de Trump nunca foi tão baixa. Ele prometeu não iniciar
novas guerras, encerrar algumas, manter a inflação baixa e gasolina barata. Mas
a realidade é o oposto do que o seu eleitor estava esperando.

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