terça-feira, 6 de abril de 2021

PSDB isola bolsonaristas do partido e busca pontes com esquerda

Tucanos trabalham para reforçar viés de oposição e identidade própria para disputa de 2022

João Pedro Pitombo / Folha de S. Paulo

SALVADOR - Preparando terreno para a sucessão de Jair Bolsonaro (sem partido), o PSDB endureceu o discurso de oposição, isolou parlamentares do partido com ligação mais estreita com o presidente e, nos estados, começa a ensaiar uma aproximação até com partidos de esquerda.

Os movimentos têm como objetivo tentar unificar a bancada no Congresso Nacional e construir um discurso que consolide o partido como uma opção ao Planalto em meio à polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A legenda tem como pré-candidatos os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS).

Na última quinta-feira (31), ambos assinaram uma carta em defesa da democracia divulgada em conjunto com outros quatro presidenciáveis: Ciro Gomes (PDT), João Amoêdo (Novo), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Luciano Huck (sem partido). A coalizão é vista como embrião de uma possível união para a corrida presidencial.

O principal movimento dos tucanos em direção à esquerda aconteceu, sem alarde, no estado do Maranhão: depois de três anos afastado do partido, o vice-governador Carlos Brandão deixou o Republicanos e retornou ao PSDB, onde deve disputar a sucessão do governador Flávio Dino (PC do B). A parceria deve reeditar a aliança local entre comunistas e tucanos de 2014.

Brandão voltou ao partido na condição de presidente estadual, movimento que acabou isolando o senador Roberto Rocha (PSDB-MA), um dos mais fiéis aliados de Bolsonaro no Nordeste. Há pouco mais de um mês, rasgou elogios ao presidente em uma visita a Alcântara (98 km de São Luís).

O senador já anunciou que deve deixar o PSDB e se filiar ao partido que o presidente Bolsonaro escolher para disputar a sua reeleição. Rocha deve disputar o Governo do Maranhão ou tentar a reeleição ao Senado no próximo ano.

Ao mesmo tempo em que isolou um dos seus quadros mais ligados ao bolsonarismo, os tucanos abriram um canal com o PC do B. O movimento foi celebrado pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que fez elogios público a Flávio Dino em suas redes sociais.

“Decisão correta apoiar um governador que dialoga, respeita as diferenças e trabalha pela vacina e contra injustiças. O Brasil precisa de caminhos que levem a união”, afirmou o governador gaúcho.

A expectativa é que, junto com Carlos Brandão, pelo menos dois deputados federais da base de Flávio Dino migrem para o PSDB na janela partidário. Um deles é o deputado Gastão Vieira, hoje no Pros.

Movimento na mesma direção aconteceu no Pará, onde o deputado federal Celso Sabino (PSDB) anunciou há duas semanas que vai ingressar com um pedido de desfiliação do partido na Justiça Eleitoral.

A decisão de deixar o PSDB veio após sucessivos atritos do deputado com a cúpula do partido. Em agosto de ano passado, Sabino foi alvo de um pedido de expulsão no conselho de ética do partido após ser indicado para o posto de líder da maioria na Câmara dos Deputados em articulação com partidos do centrão como PP, PL e Republicanos.

Na época, o PSDB já estava em rota de colisão com Bolsonaro e entendeu que não caberia a um deputado do partido assumir um posto de liderança no bloco majoritário do Congresso.

Meses depois, o deputado foi escanteado na sua tentativa de disputar a Prefeitura de Belém –o PSDB do Pará decidiu por não lançar candidato próprio. Por fim, o clima se acirrou ainda mais após o Sabino anunciar apoio a Arthur Lira (PP) na disputa pela Presidência da Câmara em fevereiro. O PSDB apoiou o deputado Baleia Rossi (MDB).

“Quero deixar o partido e tenho farto material probatório para mostrar que há divergências com a cúpula do PSDB, especialmente a ala paulista”, afirma Sabino, que aproveitou para disparar críticas ao governador João Doria, a quem chamou de pessoa de pouco diálogo.

Outro nome tucano com relação próxima com o presidente é o senador Izalci Lucas (DF), que ocupou o posto de vice-líder do governo no Senado entre março de 2019 e setembro de 2020.

Ele assumiu o posto com autorização da cúpula do partido, mas deixou o cargo após o PSDB decidir intensificar seu perfil de oposição. Com planos de concorrer ao governo do Distrito Federal, o senador tende a permanecer no PSDB.

Para o vice-líder do PSDB na Câmara, deputado Beto Pereira (MS), o partido está trabalhando para ter um discurso uniforme, se colocando no campo de oposição ao presidente, mas podendo apoiar pontualmente projetos que tenham sintonia com a linha programática da legenda.

“Não há unanimidade no PSDB, mas um partido que quer construir um projeto nacional tem que ter uma identidade própria. Não vamos deixar pessoas sem compromisso programático tomarem conta do partido”, afirma o deputado.

Na bancada do partido na Câmara dos Deputados, por exemplo, há um grupo que defende uma relação mais estreita com Bolsonaro liderado o deputado Aécio Neves (MG).

Parte dos deputados deste grupo deve deixar o PSDB até a janela eleitoral de abril de 2022, caso da deputada federal Mara Rocha (AC). Ela é irmã do vice-governador Major Rocha (PSDB), que já deixou o PSDB e assumiu o controle do PSL no Acre.

Outra deputada federal que tende a deixar o PSDB é Edna Henrique (PB). Delegada da Polícia Civil da Paraíba, ela tem uma atuação política que converge com a do presidente. A Folha apurou que ela pode migrar para o Pros, partido presidido localmente por seu filho.

Além de deputados e senadores, o PSDB também sofreu uma baixa importante ainda no ano passado: Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional do governo Bolsonaro, pediu desfiliação.

Ele era presidente de honra do PSDB no Rio Grande do Norte e justificou a sua decisão alegando que, por ocupar um cargo no governo federal, afastou-se da vida orgânica do partido.

Ao mesmo tempo em que se afasta do bolsonarismo, o PSDB começa a construir pontes com partidos mais à esquerda.

No campo institucional, governadores tucanos como João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) firmaram uma boa relação durante a pandemia com colegas petistas como Rui Costa (BA) e Wellington Dias (PI) no âmbito do Fórum dos Governadores.

Se é improvável uma possível aliança entre PSDB e PT, mesmo nos estados, os tucanos podem chegar em 2022 com parcerias locais com PC do B, PSB e PDT em estados do Nordeste.

Em Alagoas, por exemplo, o PSDB articula repetir a aliança com o PSB firmada em Maceió que resultou na eleição do prefeito João Henrique Caldas (PSB) no ano passado. O nome do PSDB para concorrer ao governo do estado é o senador Rodrigo Cunha.

Outro estado nordestino onde há proximidade PSDB e PDT é o Ceará, onde a reaproximação entre senador tucano Tasso Jereissati e os irmãos Cid e Ciro Gomes resultou em aliança já em 2020 para a prefeitura de Fortaleza. A tendência é que a parceria se mantenha no próximo ano.

Parlamentares tucanos afirmam que, caso queria superar a polarização entre Lula e Bolsonaro, o PSDB precisa construir uma aliança ampla. Por isso, a ideia é estreitar parcerias tanto com setores da direita como da esquerda, passando por alianças regionais.

Um comentário:

marcos disse...

Paulo "preciso comer essa loira" Marinho tem que sair!

MAM