O Estado de S. Paulo
É sério o desentendimento entre PF, Supremo e Procuradoria-Geral da República
Delegados teriam dito a Mendonça que a corporação estava desanimada com a relatoria de Dias Toffoli no caso do Banco Master, e temiam o engavetamento da investigação. Animaram-se depois que, por determinação do ministro, foi bloqueado o compartilhamento de informações dos investigadores com o diretor-geral da Polícia Federal, por conta de sua excessiva proximidade com Lula, comenta-se.
Mas, ao atender ao pedido da Polícia Federal
e mandar prender Vorcaro, o ministro deu uma bronca pública no procurador-geral
da República, que não viu razões para conceder imediatamente o que a PF pedia.
A questão extrapola em muito as tecnicalidades jurídicas. Aguarda-se com a
respiração em suspenso o que a PF eventualmente trará sobre o ministro
Alexandre de Moraes – alguns integrantes do Supremo consideram “injustificável”
o milionário contrato do escritório de sua mulher com o Banco Master.
A atmosfera em torno dessas instâncias
(Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal e Procuradoria-Geral da República)
está de tal forma envenenada a ponto de integrantes delas julgarem que se corre
o risco de ver relações pessoais – tanto de simpatia como de antipatia –
prevalecerem sobre o “comportamento institucional”.
De um lado existe, por exemplo, uma grande
proximidade pessoal entre Moraes, Gilmar Mendes e Paulo Gonet, que, pelo
arranjo institucional, vai ser o personagem central caso a PF bata às portas do
Supremo em relação a Moraes.
De outro lado, cresce a animosidade pessoal
entre integrantes de “alas” dentro do Supremo, onde hoje parece possível a
formação de uma maioria para acabar com o interminável inquérito das fake news.
Em compensação, advogados experientes acham
que a recente decisão de Gilmar de suspender a quebra de sigilo de empresas
ligadas a Toffoli, lançando mão de outro pr oces s o no qual a t uar a , abre
uma brecha importante na relatoria de André Mendonça. Pois, pelo princípio da
prevenção, novos pedidos semelhantes seriam tratados por Gilmar.
O que se poderia enxergar como um delicado
jogo de peças numa trama política está assumindo os contornos de uma
escancarada batalha política em público. No evento jurídico do qual participou
em Frankfurt, no começo da semana, no qual integrou um painel ao lado de um
ex-ministro do Supremo alemão e de Hugo Motta, o presidente da Câmara dos
Deputados (o tema era os limites das relações entre Judiciário e Legislativo),
Mendonça disse frases aparentemente inócuas, que ganham outra dimensão em
função dos fatos.
Para ter legitimidade e reconhecimento, o
Supremo precisa se aproximar da sociedade. Precisa admitir que uma não decisão
do Legislativo sobre algum assunto não é omissão, é uma decisão. E que não se
pode, no Supremo, decidir algo de um jeito, depois de outro, afirmou.
O participante alemão, Peter Huber, citou
Fausto (o evento foi na Universidade Goethe), ao tratar das tentações da
política no caso de integrantes de um Judiciário. André Mendonça, que é
profundamente religioso e percebe a relatoria como um tipo de missão, pronuncia
sermões em sua igreja, porém faz uso esparso de referências bíblicas em outros
ambientes públicos.
Mas a parábola do Cordeiro e do Leão (Apocalipse 5:56) é uma que surge em rodas particulares. É sobre a dualidade da natureza de Cristo, que representa, a um só tempo, conquista e sacrifício.

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