Vorcaro deve ficar preso até ser julgado
Por O Globo
Ele mantinha central de espionagem e suborno
que chegou a planejar ato violento contra jornalista do GLOBO
São estarrecedoras as revelações que levaram de volta à cadeia o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. Vorcaro havia sido preso em novembro, mas depois foi solto sob a alegação de não oferecer risco. As evidências que embasaram o novo pedido de prisão da Polícia Federal (PF), em 27 de fevereiro, demonstram que sua libertação foi prematura. A PF extraiu dos celulares apreendidos provas de diversos crimes. O ministro André Mendonça, novo relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), viu — com razão — necessidade urgente de mandar prender Vorcaro e seus cúmplices. Em despacho, ele criticou a Procuradoria-Geral da República (PGR), que não viu “perigo iminente” e pediu mais tempo para analisar o caso.
Num grupo de mensagens intitulado “A Turma”,
Vorcaro coordenava diversas atividades ilegais. Entre elas, o planejamento de
um assalto para, nos termos das mensagens, “prejudicar violentamente” o
jornalista Lauro Jardim, do GLOBO. “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos
os dentes”, escreveu Vorcaro a certa altura. Em nota oficial, O GLOBO repudiou
com veemência as iniciativas criminosas. “O GLOBO e seus jornalistas não se
intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às
informações de interesse público”, afirma a nota.
As atividades do grupo envolviam vigilância,
levantamento de informações, monitoramento e intimidação de personagens
considerados adversários do Master. A coordenação, segundo a PF, ficava a cargo
de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, alcunhado “Sicário”. Numa ocasião,
Vorcaro diz a ele ter sofrido ameaça de uma funcionária e ordena: “Tem que moer
essa vagabunda”. Ao soldo de R$ 1 milhão mensais pagos pelo cunhado de Vorcaro,
o pastor Fabiano Zettel, o grupo comandado por Mourão mantinha uma central de
espionagem e suborno que chegou a invadir sistemas internos da PF e do
Ministério Público para obter acesso a informações sigilosas.
Para a PF, os indícios comprovam a prática de
diversos crimes: contra o sistema financeiro, contra a administração pública,
contra a administração da Justiça, além de organização criminosa e lavagem de
dinheiro. Ante as revelações, a prisão preventiva de Vorcaro e de seus
comparsas tornou-se condição mínima para o prosseguimento das investigações.
Elas devem ser rigorosas e ir até o fim, intenção que até agora Mendonça tem
demonstrado na condução do inquérito.
Já eram conhecidas as fraudes financeiras
adotadas pelo Master em seu crescimento explosivo nos últimos anos. Também eram
conhecidas as relações de Vorcaro no mundo da política, usadas para atrair
investimentos de fundos de previdência do setor público e do BRB, o banco
controlado pelo governo do Distrito Federal. Agora ficou exposta a faceta mais
violenta do banqueiro que posava de arrojado e inovador. É uma faceta que
provoca revolta e indignação, mas não surpreende. Não faltam motivos para
Vorcaro detestar quem o desmascarou. Por isso ele deve permanecer atrás das
grades até seu julgamento — enquanto a imprensa profissional, O GLOBO incluído,
prosseguirá em seu trabalho incansável de buscar e revelar a verdade.
Estupro coletivo de menor no Rio expõe chaga
da violência contra mulher
Por O Globo
País avançará não apenas punindo culpados,
mas sobretudo evitando que crimes bárbaros sejam cometidos
O chocante estupro coletivo de uma
adolescente de 17 anos por cinco jovens (um deles menor de idade) em Copacabana,
Zona Sul do Rio, é um crime bárbaro que precisa ser tratado com todo o rigor.
Esse tipo de conduta criminosa é infelizmente mais frequente do que se pensa. O
caso aconteceu em 31 de janeiro, mas só veio a público nos últimos dias.
Segundo as investigações da polícia fluminense, a adolescente foi vítima de uma
emboscada, atraída ao apartamento de um dos rapazes antes de ser abusada e
agredida pelo grupo.
Diante de tamanha perversidade, faz bem a
polícia em dar celeridade às investigações. Todos os quatro réus já estão
presos (o último se entregou nesta quarta-feira). Em relação ao menor, ainda
não houve pedido de internação. Com a profusão de câmeras de segurança, não foi
difícil identificar os autores. Denúncias que chegaram à delegacia afirmam que
alguns dos jovens são acusados em crimes semelhantes. Delitos que, pelo jeito,
ficaram impunes.
Nos últimos anos, a legislação para crimes do
tipo se tornou mais rigorosa, numa tentativa de frear a escalada da barbárie.
De acordo com o artigo 213 do Código Penal, o estupro pode resultar em penas de
seis a dez anos de prisão. Agravantes podem elevar a punição. Se a vítima for
menor, a pena sobe para 12 anos. No caso de estupro coletivo, uma lei
sancionada em 2018 a estabeleceu em até 16 anos e oito meses.
A despeito da legislação severa, o Brasil não
consegue enfrentar a chaga. Em 2024, o país registrou número recorde de
estupros e estupros de menores de 14 anos: 87.545, quase dez por hora, segundo
o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A grande maioria das
vítimas era do sexo feminino (87,7%) e vulnerável (76,8%). É perturbador que
66% dos casos tenham ocorrido dentro de casa. Entre os culpados, familiares
(45,5%) e parceiros ou ex-parceiros (20,3%) são os mais frequentes. Sob
qualquer ponto de vista, esses números são vergonhosos.
Não basta apenas adotar leis mais duras. Muitos casos ficam impunes porque não são sequer investigados. São situações terríveis, em que muitas vítimas, fragilizadas, temem se expor. Mas não há outra maneira de interromper a escalada, senão investigação, identificação dos culpados e julgamento. Desgraçadamente, o silêncio protege os bárbaros e permite que cometam outros crimes. Por isso é preciso que governos ampliem campanhas, ofereçam canais de denúncia, acolham as vítimas e as incentivem a denunciar. É fundamental, ainda, empenho nas apurações, para reunir provas consistentes. O país avançará não apenas quando levar todos os criminosos aos tribunais, mas sobretudo quando conseguir impedir que esses crimes sejam cometidos.
Jagunços do Master evidenciam gravidade do
escândalo
Por Folha de S. Paulo
No decreto de prisão do ex-banqueiro Vorcaro
e comparsas estão expostas evidências de ousadia criminosa
Caso também expõe a permissividade de
autoridades e instituições à penetração do crime organizado, o que corrói a
República
Não bastassem a fraude bilionária e os esquemas
para comprar proteção nas altas camadas de poder no escândalo do Banco Master,
chegam ao público fortes indícios de que a organização mantinha um núcleo
dedicado a operações clandestinas, o que incluía intimidar a imprensa e quem
mais se colocasse em seu caminho.
"A Turma", como o bando se
identificava no material apreendido pela Polícia
Federal, conversou sobre "quebrar
todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. A
sugestão da sova foi dada pelo chefe e então dono do Master, Daniel
Vorcaro, a um dos jagunços do grupo, Luiz Mourão, o
"Sicário", apelido que remete a matadores de aluguel.
De acordo com as ordens de prisão decretadas
pelo ministro André
Mendonça, "Sicário" e um ex-policial também invadiam
sistemas de órgãos federais, monitoravam e espionavam alvos do dono do banco e
agiam para limpar a imagem pública da empresa financeira e de Vorcaro, por meio
de pedidos forjados a plataformas digitais e pagamentos a editores por
veiculações amistosas.
Além da dupla de capangas e do próprio
Vorcaro, foi preso preventivamente Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro
suspeito de organizar pagamentos de "A Turma". Mourão se suicidou
nesta quarta (4), segundo a PF, acrescentando dose extra de pasmo ao que já era
espantoso.
Segundo a PF, foram corrompidos dois
servidores do Banco Central, que já estavam afastados pelo órgão e agora foram
suspensos também judicialmente e colocados sob vigilância eletrônica.
Diante do volume de evidências da
constituição de uma milícia privada, causa espécie a atitude do
procurador-geral da República, Paulo Gonet,
de requerer mais
tempo para analisar o pedido de prisão da PF. Fez bem Mendonça
em negar o argumento do procurador de que não haveria perigo iminente em
"Sicário" e seus comparsas continuarem soltos.
Espera-se que a PGR não se
contamine pelo espírito de acomodação, para dizer o menos, que regia a
condução do caso sob Dias Toffoli no
Supremo Tribunal Federal. Todos os envolvidos na distribuição da Justiça já
deveriam estar convictos da necessidade de apurar com rigor e à luz do Sol esse
escândalo tentacular.
O filme que se vai produzindo em torno do
descalabro do Master mostra um elevado grau de ousadia criminosa, de um lado, e
de permissividade à penetração e à cooptação mafiosas em organizações do
Estado, do outro.
Faz pouca diferença o agente da infestação
ter promovido festas com poderosos e lhes facilitado negócios e riquezas. Para
o efeito de carcomer as instituições da República, dá na mesma se ele fosse um
capo a comandar dos presídios o tráfico de drogas.
Nem sequer a violência como meio de promover
os interesses do chefão ficará de fora da descrição da máfia que se apoderou do
Master. Condescendência na investigação só piora os sintomas e adia o
enfrentamento da doença.
A demografia criativa dos magistrados
Por Folha de S. Paulo
Atendendo prefeituras que buscam maior fatia
de verbas, Justiça chega a ordenar mudança de dados do IBGE
A injustiça se dá quando uma cidade cuja
população diminuiu obtém recursos que seriam destinados a outra com número
maior de habitantes
Contra fatos não há argumentos, assevera o
ditado popular. No Brasil, há. Quem não concordar com alguma aferição empírica
pode recorrer ao Judiciário, e um magistrado é capaz de mudar os dados.
Como mostrou a Folha, prefeituras
recorrem à Justiça para contestar os números do IBGE relativos
à população, visando expandir sua fatia no Fundo de Participação dos Municípios
(FPM), cujas verbas são repassadas segundo critérios demográficos.
Desde 2023, ao menos 58 cidades tentaram e 49
delas conseguiram, de forma provisória ou definitiva. Em alguns casos, os
juízes chegaram a ordenar o aumento da população. As prefeituras contestaram
tanto os dados do Censo 2022 como
as projeções posteriores que o instituto.
Por óbvio, o IBGE não é infalível. O próprio
órgão indica, para o Censo 2022, uma taxa de erro líquido de 8,3% —calculado a
partir de 12,2% de omissões e 3,3% de inclusões indevidas. Suas projeções
envolvem incertezas e dependem de registros cartoriais sabidamente imperfeitos.
Contudo, mesmo que o dado aferido pelo IBGE
seja problemático, ele é mais confiável do que uma cifra imaginada por um
magistrado que nem tentou medir a população pelos métodos estatísticos
internacionalmente aceitos.
A interferência judicial até faria sentido se
os juízes prezassem pela autocontenção, limitando-se a determinar que o
instituto esclarecesse medições ou, excepcionalmente, refizesse cálculos. Ao
criar sua própria realidade numérica, porém, violam as bases que sustentam o
Judiciário.
Não há garantia de que magistrados sempre
tomem as decisões certas. Mas as aceitamos porque, sem o tipo de arbitragem
oferecida por esse Poder, a vida em sociedade seria impossível.
No que diz respeito à contagem demográfica, o
árbitro final deve ser o IBGE. O Fundo de Participação dos Municípios não é um
montante elástico. Se uma cidade cuja população diminuiu consegue obter mais
verbas, ela as está subtraindo de um município com mais habitantes. Trata-se,
portanto, de uma injustiça.
Parlamentares também são adeptos da
numerologia criativa No ano passado, tentaram
aumentar o número de vagas na Câmara, a fim de ampliar as cadeiras
dos estados que, pelo IBGE, ganharam população —sem reduzir as dos que
perderam. Com o veto do Planalto, deixaram tudo como estava, violando assim a
norma constitucional.
Assim, fatos e dados parecem não passar de sugestões, que autoridades aceitam ou não ao sabor de suas conveniências.
Uma máfia no coração do poder
Por O Estado de S. Paulo
A prisão do banqueiro Vorcaro escancara uma
rede criminosa espalhada por Brasília. Atônito, o País espera que a banda podre
das instituições não prevaleça sobre a banda republicana
A política brasileira costuma ser descrita
como um duelo entre esquerda e direita ou uma disputa entre Executivo,
Legislativo e Judiciário. O escândalo do Banco Master expõe uma clivagem menos
confortável: uma rede perniciosa que atravessa partidos, governos e tribunais.
O esquema de ocultação de recursos,
manipulação societária e deslocamento de patrimônio para escapar de credores e
reguladores que desencadeou o colapso do Master deixou prejuízos
multibilionários que acabaram socializados entre investidores e mecanismos de
proteção do sistema financeiro.
Se a magnitude desses crimes do colarinho
branco já não fosse por si só estarrecedora, a investigação da Polícia Federal
que ensejou a prisão do controlador do banco, Daniel Vorcaro, deu ao País um
vislumbre – e só um vislumbre – de uma mecânica mafiosa de proporções imensas.
Mensagens extraídas de celulares apreendidos mostram a discussão de planos para
vigiar adversários, intimidar críticos e até espancar jornalistas. Há indícios
de invasão de sistemas da própria Polícia Federal e outros órgãos da Justiça
para obter informações sobre investigações em curso. Dirigentes do Banco
Central do Brasil teriam recebido propina para facilitar operações e
neutralizar a fiscalização.
Mas muito mais perturbadoras do que a
delinquência do banqueiro corrupto e seus comparsas são as relações que Vorcaro
construiu em Brasília. Vorcaro não era um aventureiro isolado. Transitava com
desenvoltura entre ministros de Estado, dirigentes partidários, parlamentares e
juízes das altas cortes. Isso ajuda a explicar por que se sentia tão à vontade
para maquinar crimes em grupos de WhatsApp.
Suas relações promíscuas chegam ao coração do
sistema de Justiça. O ministro Dias Toffoli, que chegou a fazer negócios com as
redes de Vorcaro, assumiu, em circunstâncias estranhíssimas, a relatoria do
caso e emperrou o trabalho da polícia por meses. A mulher do ministro Alexandre
de Moraes celebrou um contrato multimilionário e mal explicado com o Master.
Nenhuma dessas circunstâncias, por si, prova crime. Mas compõem um quadro
suficientemente delicado para exigir o mínimo de transparência institucional.
O que se viu foi o contrário. Uma Corte na
defensiva, e até agressiva, quando investigações se aproximaram de seus
membros. Decisões monocráticas intimidaram críticos, bloquearam diligências e
interromperam iniciativas de apuração parlamentar. O Tribunal se mostra muito
mais ocupado em proteger os segredos de seus ministros do que em dissipar
dúvidas legítimas.
A atuação da Procuradoria-Geral da República
só intensifica a perplexidade. A relutância do procurador-geral, Paulo Gonet,
em pedir a prisão de Vorcaro mereceu críticas abertas do novo relator, o
ministro André Mendonça. A demora reforçou a impressão de uma instituição que,
diante de suspeitas envolvendo figuras poderosas, prefere a inércia ao
confronto.
Esta combinação tóxica – relações plurais e
inclusivas entre autoridades políticas e administrativas, blindagem
corporativista no Judiciário e complacência do Ministério Público – ajuda a
explicar o silêncio constrangido que paira sobre o caso em Brasília. O esquema
não envolve apenas um partido ou um governo. Ele atravessa os Três Poderes e
diferentes campos ideológicos.
Quando um escândalo compromete apenas um
grupo político, adversários tratam de expô-lo. Quando compromete muitos, o
impulso dominante é abafá-lo. A intimidação a jornalistas é sintomática. É a
imprensa que vem insistindo em colocar na sala o bode que os poderosos
gostariam de esconder.
A prisão de Vorcaro pode representar o início
de uma investigação que finalmente ilumine essas conexões e puna os cúmplices
de fraudes multibilionárias. Ou pode ser apenas mais um episódio a se diluir no
ciclo habitual de crises nacionais. O que se desenha é uma nova disputa: não
entre este ou aquele grupo partidário, nem entre tal ou qual Poder ou
instituição, mas entre a banda podre de Brasília (distribuída por todos os
Poderes, partidos e instituições) e a banda republicana. O desfecho do caso
Master revelará ao Brasil qual delas realmente predomina no coração do poder.
Lambança judiciária
Por O Estado de S. Paulo
Justiça de Minas comete uma série incrível de
falhas no processo contra um homem acusado de estuprar uma menina de 12 anos, o
que pode levar a nulidades e, pior, à impunidade
A Justiça de Minas Gerais tem cometido erros
em série no caso de um homem de 35 anos de idade acusado do crime de estupro de
vulnerável contra uma menina de apenas 12. Os abusos na condução desse
processo, que primeiro condenou, depois absolveu e, por fim, mandou prender o
réu, ofendem as leis e os princípios constitucionais, o que põe em dúvida a sua
lisura. Ao tentar corrigir seus erros, a Justiça estadual mineira errou de
novo. Tamanho compromisso com o equívoco pode culminar no pior dos resultados:
o risco de nulidades e uma potencial impunidade.
O caso ganhou repercussão nacional quando a
9.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) decidiu
absolver o homem e a mãe da menina, que fora omissa. Segundo o relator,
desembargador Magid Nauef Láuar, a relação entre o adulto e a criança era
aceitável, haja vista que, segundo ele, era consensual, de conhecimento público
e correspondia ao costume local. Como já afirmamos neste espaço, o magistrado
afrontou a aplicação das fontes do Direito, o Código Penal, a jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) e a Constituição federal.
Láuar não agiu sozinho: há indícios de que
recorreu à inteligência artificial para aprimorar seus argumentos jurídicos – o
que só confirmaria sua já atestada miséria intelectual – e ainda foi seguido
pelo colega Walner Barbosa Milward de Azevedo. Ou seja, houve endosso. Na
Câmara Criminal, apenas a desembargadora Kárin Emmerich, a única mulher do
órgão, votou contra a absolvição do homem e da mãe da vítima. Coube ao
Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) recorrer por meio dos chamados
embargos de declaração com efeitos infringentes.
Esse recurso serve para pedir que o juízo
esclareça pontos obscuros, omissos ou contraditórios, além de poder reivindicar
a correção de erros materiais. Em casos excepcionais, o mérito da decisão pode
até mudar no julgamento de embargos de declaração. E, pressionado pela opinião
pública e pela Corregedoria Nacional de Justiça, do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), Láuar parece ter tido a ideia de corrigir seu erro. Só que errou
ainda mais.
O desembargador, ele mesmo acusado de ter
cometido abuso sexual contra ao menos cinco pessoas, atendeu monocraticamente
ao pedido do Parquet. Numa canetada, demonstrou um suposto arrependimento do
voto que relatara, reconheceu o equívoco da decisão e destacou até a
importância da perspectiva de gênero ao mudar seu posicionamento. O TJMG não
divulgou a decisão, mas seu teor veio a público. A Corte expediu ainda uma nota
na qual afirmou que Láuar decidiu manter “a sentença condenatória de primeira
instância” e havia determinado “a expedição imediata de mandados de prisão em
desfavor do homem de 35 anos e da genitora da vítima”.
Ora, isso é uma aberração processual. O
desembargador afrontou os princípios do devido processo legal, da colegialidade
e do contraditório e da ampla defesa. É o rabo abanando o cachorro: Láuar
ignorou as formalidades do processo; atropelou sozinho uma decisão de
julgamento colegiada – ele na condição de relator não suplanta a autoridade de
toda a Câmara Criminal; e mandou prender o homem e a mãe da vítima sem que as
defesas dos acusados pudessem se manifestar nos autos, o que pode configurar
prisão ilegal. Ou seja, começou errando e foi errando até o fim.
Não cabe à Corregedoria do CNJ, que já
afastou Láuar, entrar no mérito das decisões judiciais do desembargador. Mas o
comportamento do magistrado suscita vivas discussões administrativas e éticas.
Ainda mais grave, pululam relatos de ex-funcionários de gabinete e até de um
primo sobre abusos sexuais supostamente cometidos por Láuar. Espera-se que
agora seja feita, enfim, a coisa certa: que se garanta ao magistrado o devido
processo legal, o direito à ampla defesa e ao contraditório e um julgamento
imparcial, justo e fundamentado nas leis, na jurisprudência e na Constituição.
Eis uma boa lição para o desembargador e a Justiça mineira não errarem mais com
nenhuma menina.
Entrave ao crescimento
Por O Estado de S. Paulo
Baixa taxa de investimento condena País a resultados
medíocres e abaixo do seu potencial
Não havia como ser diferente. O Produto
Interno Bruto (PIB) brasileiro desacelerou em 2025 e teve expansão de 2,3%, bem
abaixo dos 3,4% de 2024, segundo o IBGE.
Como o governo gasta demais, restou ao Banco
Central (BC) cumprir seu papel e apertar os juros para conter a inflação,
medida necessária e amarga que trava o crescimento econômico. O problema é que,
quando se esmiúçam os dados recém-divulgados pelo IBGE, fica claro que a
“tradição” do Brasil de crescer pouco tem ficado pior.
E poucos números escancaram isso tão bem
quanto o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que despencou de
6,9% em 2024 para 2,9% no ano passado. Em consequência, a taxa de investimento
brasileira, já abaixo da média de 20% para países com o mesmo nível de
desenvolvimento, caiu de 16,9% em 2024 para 16,8% em 2025.
Sem investimento não há crescimento, para o
qual a FBCF é determinante. O indicador mede o quanto as empresas ampliaram
seus bens de capital – maquinários e equipamentos, por exemplo –, ou seja, o
quanto investiram em bens que produzem outros bens.
Em 2025, um artigo do economista Rogério
Nagamine Costanzi para o boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(Fipe) chamava a atenção para o fato de os indicadores de FBCF no Brasil serem
inferiores não só aos de países desenvolvidos, mas também aos de nações
sabidamente mais pobres, como Paraguai e Bolívia.
No mesmo artigo, o economista comparou ainda
a taxa de poupança no Brasil com a de outras nações e também constatou que por
aqui se poupa menos do que no Paraguai, em Honduras e em El Salvador.
Embora tenha aumentado de 14,1% em 2024 para
14,4% em 2025, a taxa de poupança interna segue sendo muito baixa. A combinação
baixo investimento e baixa poupança condena o País a um ciclo de crescimento
medíocre, na casa dos 2% ao ano.
Romper com esse cenário exige um grande
esforço do governo, a começar pelos gastos. Não há, porém, por parte da gestão
Lula, qualquer sinal de que uma mudança rumo a uma política de crescimento
sustentado virá a ser colocada em prática. Ao contrário. No ano passado, o
consumo do governo cresceu 2,1%.
Em vez de rever e reorientar seus gastos, o
governo pisa no acelerador, complicando os esforços do BC para controlar a
inflação. O resultado disso são juros altos por mais tempo, o que, como se viu,
derruba o investimento produtivo.
Como se não bastasse, discute-se agora no
País a redução da escala de trabalho 6x1, como se isso fosse garantir qualidade
vida a uma força de trabalho mal instruída e, por isso mesmo, menos produtiva
que a de diversos outros países.
Sem melhora efetiva na educação e sem
controle dos gastos governamentais, de modo que os juros possam cair, não há
como aumentar produtividade nem promover crescimento sustentado.
É uma questão de escolha. O investimento e o PIB fracos de 2025 são consequências das políticas públicas adotadas até aqui. Há como ser diferente, desde que finalmente se compreenda que o modelo vigente é uma receita certeira para a mediocridade.
Com esquema chocante de Vorcaro, investigação
tem de se aprofundar
Por Valor Econômico
A Polícia Federal levantou graves indícios de
que dois servidores de alto escalão do BC estavam a serviço dos interesses de
Vorcaro e agiram para favorecê-lo
A prisão de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco
Master, liquidado pelo Banco Central, e de sócios e comparsas, ontem, permitirá
o aprofundamento das investigações sobre os negócios do banqueiro, que, à
enorme quantidade de irregularidades e fraudes cometidas, acrescentou um
esquema de coerção e vigilância privada para intimidar concorrentes e críticos,
a ponto de recorrer a jagunços para planejar violência contra jornalistas.
Igualmente importante, um possível novo elo na vasta rede de influência
política do banqueiro foi revelado. A Polícia Federal levantou graves indícios
de que Paulo Sérgio Novaes de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco
Central (BC), e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão da
instituição, estavam a serviço dos interesses de Vorcaro e agiram para
favorecê-lo.
O ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal, que passou a conduzir o inquérito depois que o ministro Dias Toffoli
se afastou dele, autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, após
indícios significativos de que Vorcaro e seus colaboradores realizaram
intercepção de informações sigilosas de Polícia Federal, Ministério Público e
Interpol. O ex-banqueiro, seu sócio Fabiano Zettel, Felipe Moura e Marilson da
Silva foram presos. Os funcionários do BC, já afastados, usarão tornozeleira
eletrônica.
Vorcaro foi preso em novembro de 2025, quando
tentava embarcar para o Oriente Médio, às vésperas da liquidação do Master. O
argumento usado para que a juíza Solange Salgado o libertasse foi o de que a
viagem tinha um propósito e não se tratava de fuga. No mesmo dia, à noite,
soube-se que a Fictor Holding, em sociedade com fundos árabes nunca
identificados, havia feito proposta de compra do banco por R$ 3 bilhões. Paulo
Souza, do BC, enviou um relato da reunião com um diretor da autoridade
monetária na qual fora apresentada a oferta do Fictor para os advogados de
Vorcaro, o que auxiliou em sua libertação.
A Fictor entrou em recuperação judicial em
fevereiro, com dívidas de R$ 4,2 bilhões, e a PF apontou indícios de gestão
fraudulenta e emissões de títulos sem lastro. O BC liquidou o Master no dia
seguinte à proposta de última hora da Fictor, uma tentativa fracassada de
evitar o fim do banco.
O BC, que agiu corretamente ao liquidar o
Master, quase frequentou o banco dos réus. Ele foi acusado de precipitação pelo
ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jonathan de Jesus, que instaurou
inquérito com essa finalidade e tentou restringir o acesso do BC às conclusões
dele.
Vorcaro usava sua rede bancária, que captava
recursos pagando taxas muito acima de mercado para aplicação e empréstimos que
favoreciam a si e seus familiares. À beira da insolvência, tentou repassar uma
instituição falida para o estatal Banco Regional de Brasília por R$ 2 bilhões
(49% do Master) — e quase conseguiu. A operação teve apoio da diretoria do
banco e do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Graças ao BC,
que já detectara a transferência de R$ 12,2 bilhões em créditos sem lastro do
Master ao BRB, a venda foi barrada. O BRB tem agora de cobrir rombo de R$ 6,6
bilhões para manter-se solvente, e a Câmara do DF aprovou a transferência de 9
imóveis de órgãos estatais ao banco.
A sequência das investigações após a primeira
libertação do ex-banqueiro mostrou que ele era de fato não só um risco para o
desvendamento de suas ações como também um “perigo iminente”, ao contrário do
parecer dado a Mendonça pela Procuradoria Geral da República, que pediu tempo
para avaliar a necessidade de sua prisão. Ao que tudo indica, Vorcaro não parou
um instante de desafiar a lei. As novas revelações mostram sua outra face:
comportamentos mafiosos e potencialmente violentos de sua entourage. Em grupo
de WhatsApp, intitulado “A Turma”, planejava a simulação de assalto com
violência contra o colunista Lauro Jardim, de O Globo — “Quero mandar dar um
pau nele. Quebrar todos os dentes”. A coordenação do grupo, segundo a PF,
ficava a cargo de Sicário (assassino contratado), apelido de Luiz Phillipi
Machado de Moraes Mourão, o Felipe Mourão, que recebia R$ 1 milhão mensais para
serviços sórdidos como ameaças, chantagem, espionagem, suborno etc. — e ontem
morreu após atentar contra a própria vida na prisão, segundo a PF.
Em nota, o jornal repudiou os métodos
criminosos de Vorcaro: “O Globo e seus jornalistas não se intimidarão com
ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de
interesse público”. Várias entidades ligadas à imprensa se pronunciaram. A
Associação Nacional de Jornais, por exemplo, afirmou que “a tentativa de
intimidar um profissional de imprensa por meio de violência constitui ataque
inaceitável à liberdade de expressão”. Segundo a ANJ, “métodos dessa natureza,
próprios de práticas mafiosas, são incompatíveis com o Estado de Direito e
merecem a mais firme rejeição da sociedade brasileira”.
Vorcaro mostrou audácia e a ambição sem limites ao montar um império que burlava leis e deixou um rombo de R$ 52 bilhões até agora. Livre, mostrou que continuará a usar todos os meios a seu alcance, inclusive a violência, contra quem se interponha a seus desígnios. Até que seja julgado, com todos os recursos e direitos que a lei lhe faculta, Vorcaro é uma ameaça à ordem pública e deve ficar preso.
Mulheres oprimidas por uma rotina de
agressões
Por Correio Braziliense
Chegamos ao século 21 e as mudanças são
insuficientes para que haja uma verdadeira equidade de gênero no país.
Há, de fato, o que se comemorar no 8 de
Março, Dia Internacional da Mulher? Não se trata de pessimismo, mas de desafio
aos Poderes da República e à sociedade, uma vez que as agressões das mais
diversas formas fazem parte do cotidiano feminino ao longo de todos os anos.
Chegamos ao século 21 e as mudanças são insuficientes para que haja uma
verdadeira equidade de gênero no país.
Em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de
Segurança Pública (FBSP), 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no país —
alta de 4,7% em relação a 2024 e um recorde na comparação com anos anteriores.
Trata-se de crime considerado o ápice de engrenagem de violência que oprime
adultas e meninas cotidianamente, com configuração de epidemia — a média é de
quatro casos por dia. Basta um "não" ao que homens desejam para que
mulheres sejam punidas com a sentença de morte. Prevalece o entendimento de que
elas devem ser subordinadas aos caprichos deles, sobretudo de maridos e
namorados.
Quem sobrevive carrega marcas profundas da
violência de gênero. Em 2024, também segundo o FBSP, ocorreram 87.545 estupros
no país. Das vítimas, 76,8% eram vulneráveis, 87,7% do sexo feminino, e
55,6% negras. A maioria dos casos (65,7%) ocorreu em casa e os agressores
eram familiares (45,5%). Essa abjeta violência às mulheres também é praticada
em bandos, como o estrupro coletivo de uma jovem de 17 anos em área nobre do
Rio de Janeiro que chegou ao noticiário nesta semana. A adolescente foi vítima
do crime bárbaro no fim de janeiro, após ser atraída por um ex-namorado para um
apartamento em Copacabana onde estavam outros quatro homens. Todos a
violentaram.
Acusados estão detidos e devem ser punidos
como prevê a legislação. Mas não basta a privação de liberdade para esses
jovens ou para quaisquer outros agressores. É preciso agir e modificar uma
estrutura que funciona como salvo conduto para que homens — de qualquer idade e
realidade social e econômica — enxerguem meninas e mulheres como objetos
de uso comum. É consenso entre especialistas que essa mudança de paradigma
passa pela educação de gênero.
As leis de proteção às mulheres foram
aprimoradas e tornaram-se mais rigorosas no país, mas os avanços seguem
insuficientes para impor aos homens que as respeitem em qualquer ambiente.
Exemplos vêm, inclusive, daqueles que ocupam instâncias de decisão e poder,
como os casos recentes de magistrados afastados por denúncias de crime sexual.
Parlamentares também dão mau exemplo, como os recorrentes casos de deputadas,
senadoras e ministras que são alvos de ataques misóginos em plenário e
comissões.
Grandes mudanças na sociedade resultaram das lutas dos movimentos feministas. Desde a Constituição Cidadã, as mulheres são reconhecidas e têm direitos equiparados. Mas só isso não basta. É essencial que haja igualdade de gênero em todos setores, públicos e privados, como reconhecimento da importância das mulheres na sociedade. A começar pelos Três Poderes da República.
A inevitável volta à prisão de Daniel Vorcaro
Por O Povo (CE)
Há um aspecto importante no agitado dia
político que se vivenciou ontem a partir dos fatos relacionados à investigação
do escândalo do banco Master e as responsabilidades que estão sendo buscadas. A
volta à prisão de Daniel Vorcaro e as circunstâncias que a envolveram,
incluindo a descoberta de que tramava ações violentas em grupos de whatsapp
contra quem vinha incomodando-o por denunciar seus malfeitos, jornalistas
inclusos, expõe o grau de periculosidade e a ameaça real que ele representava
estando livre.
Reconforta perceber que há instâncias
procurando fazer uma investigação séria, técnica, distante dos interesses
políticos de "a" ou "b". A Polícia Federal foi diligente e
ágil na solicitação de prisão, diante de novas provas colhidas, e, de outra
parte, o ministro André Mendonça, do STF, decidiu com a presteza necessária
para dar efetividade à medida. Os indícios são fortes no sentido de mostrar que
a integridade física, e até a própria vida de algumas pessoas, alvos de grupo
que tem Vorcaro como líder, estava em risco.
Claro que toda investigação é bem vinda e não
seria o caso de exigir das forças políticas que abram mão dos instrumentos à
sua disposição para, sendo honesta a intenção, também apurar o que aconteceu e,
em especial, identificar agentes públicos vinculados ao esquema criminoso
responsável por uma fraude que alcança a casa dos bilhões de reais. A questão,
observando-se situações reais verificadas no âmbito da Comissão Parlamentar de
Inquérito em funcionamento no Congresso por onde o assunto tem passado, é que
há prevalecido apenas o interesse de um lado implicar o outro e vice-versa. Ou
seja, busca-se muito mais dividendos políticos e eleitorais do que exatamente
esclarecer o que aconteceu e buscar responsáveis.
Acaba sendo uma perda de tempo, mas, como
demonstra a operação do dia de ontem, isso não tem atrapalhado o avanço dos
trabalhos de policiais, procuradores e magistrados para revelar ao País uma
situação muito séria e que revela um esquema que, dentre outras coisas, previa
violência física objetiva contra críticos ou adversários. Fica evidenciado que,
sim, os tais crimes do colarinho branco valem-se também da truculência quando a
prática lhe convém como estratégia de defesa, o que demonstra, por outro lado,
a força das provas colhidas contra Vorcaro e companhia.
O Grupo de Comunicação O POVO considera
especialmente preocupante o trecho apontado no relatório policial que embasou a
decisão do magistrado no qual uma conversa de Vorcaro com um interlocutor,
sugestivamente identificado como "Sicário", indica orientaçõo do
próprio banqueiro para uso de meios violentos como meio de calar um jornalista
que cumpria sua missão de informar. Toda solidariedade ao colunista Lauro
Jardim, do O Globo, que aparece naqueles diálogos obtidos pela polícia como potencial
vítima do esquema criminoso que ajudara a desbancar com seu trabalho.
O saldo final do dia de ontem, apesar dos pesares, aponta uma vitória das forças do bem, mas não dá para relaxar porque a jornada por cumprir ainda é longa. Sigamos firmes e vigilantes.

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