O Globo
O crime de Vorcaro atingiu outro patamar.
Agora as provas são de planejar agressões físicas e outros atos violentos, além
das fraudes financeiras
Nunca houve um banco como o Master. Outros quebraram, nenhum deles arrastou o Brasil para um enredo com desdobramentos tão tenebrosos. No capítulo de ontem da série, soube-se de “Sicário”, um capanga enviado para “moer” funcionários do banqueiro ou “quebrar todos os dentes” de um jornalista. No fim do dia, ele tentou suicídio. O crime de Daniel Vorcaro atingiu outro patamar. Agora, além de cometer fraude financeira, há provas de uma associação criminosa para executar atos violentos. Vorcaro, o homem que fez um banco de papel e achou que ficaria impune por ter uma rede poderosa de influências, é pior do que se sabia. Uma autoridade que acompanha o caso em Brasília definiu a maneira de agir de Vorcaro e sua turma: “É máfia.”
Tudo o que foi descrito pela Polícia
Federal confirma o método mafioso. Crimes múltiplos, corrupção,
ameaças físicas, milícia privada atacando supostos adversários do “capo”. O
chefe de organização criminosa não pode, pela lei, fechar delação premiada.
Conversei com uma fonte sobre os rumores de que ele estaria negociando um
acordo deste tipo. “Acho difícil uma delação no topo da cadeia alimentar.” A
Polícia Federal não foi procurada com essa proposta pela defesa. Há quem
duvide, contudo, que ele tenha capacidade de montar tão sofisticada engenharia
financeira como a que vem sendo descoberta nas investigações. Ele poderia estar
representando outros “capos”.
Nas conversas reveladas ontem, Vorcaro e o
executor dos crimes, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, falam
em “moer” a empregada Monique, dar um “sacode” no chefe de cozinha e simular o
assalto ao jornalista Lauro Jardim com atos de violência. Era, como disse a
Polícia Federal, a “dinâmica violenta”. O “Sicário” comandava “A Turma” que
executava crimes físicos e digitais com o farto financiamento de Vorcaro,
distribuído por um “pastor” da Igreja Batista da Lagoinha, o cunhado do
banqueiro, Fabiano Zettel.
Zettel distribuía o dinheiro para a rede
criminosa. Os ilícitos eram também digitais. A “turma” de Vorcaro era tipo
faz-tudo. Além de atos violentos e monitoramento de supostos adversários ou
funcionários infiéis, Mourão invadia sistemas policiais nacionais e
internacionais e extraía dados protegidos por sigilo. Conseguia acessar
sistemas da Polícia Federal, da Interpol e do FBI.
No Banco
Central, os indícios são de que Vorcaro corrompeu dois altos funcionários.
Um deles, o ex-diretor de Fiscalização Paulo Souza, com 28 anos de BC. Ao
deixar o posto, em 2023, permaneceu em cargo de destaque na mesma diretoria. O
outro, Belline Santana, era chefe da divisão de Supervisão Bancária. Os dois
tinham que fiscalizar o Master, seria natural terem contato com o banqueiro,
mas em favor da estabilidade do sistema financeiro. Tornaram-se prestadores de
serviço de Vorcaro. O BC, ao detectar indícios de irregularidades, afastou os
dois em janeiro, e encaminhou as informações à Polícia Federal.
Na operação de ontem, outro elemento foi
revelador. O fato de que a Procuradoria-Geral da República não apoiou o pedido
da Polícia Federal de prisão contra os principais responsáveis e de outras
medidas cautelares. O novo relator do caso, após o afastamento de Dias
Toffoli, o ministro André
Mendonça deu uma bronca na PGR.
“Tempus fugite”, escreveu ele, “no caso específico dos autos, a demora se
revela extremamente perigosa para a sociedade.”
O ministro viu ameaças concretas que todos os
que leem os autos são capazes de ver, como “o risco concreto de interferência
nas investigações”. Daniel Vorcaro usa o método de compra de apoio de
influenciadores para atacar quem quer se interponha entre ele e seus objetivos,
como o Banco Central.
Vorcaro tem tanto dinheiro que, só na fase
dois da Compliance Zero, foram encontrados com o pai dele R$ 2,2 bilhões. Ele
tem aviões, contas em paraísos fiscais, mansões no exterior. Sim, era óbvio que
havia a chance de ele fugir, de usar o seu poder para obstruir a investigação e
de atacar pessoas. E, como disse o ministro André Mendonça, “pode-se colocar em
risco a segurança e a própria vida de pessoas”. Mourão, o “Sicário” tentou se
matar na Polícia Federal e foi levado para o hospital. Tem muito a esclarecer
sobre os atos do seu chefe, o banqueiro que mandava “moer” pessoas. Houve no
Brasil uma crise bancária de enorme dimensão nos anos 1990, mas nunca se viu um
caso como o Master.

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