sábado, 14 de março de 2026

Prioridades a sério, por Flávia Oliveira

O Globo

Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral

A recém-divulgada pesquisa Quaest não deixa dúvidas. Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral de 2026. Economia corre por fora. São três variáveis explosivas — e sob medida — para o ambiente político calcificado, como conceituaram o cientista político Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, e o jornalista Thomas Traumann, em “Biografia do abismo” (Harper Collins, 2024). Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha começa em 16 de agosto; de fato, mobiliza há tempos ruas e redes sociais. O desafio aqui é radicalizar a qualidade do debate, em vez de ceder à banalidade das posições de superfície, à moda “se você é sim, eu sou não”.

Um em cada quatro brasileiros (27%) está preocupado com a violência, não sem motivo. Afinal, facções do tráfico de drogas espalham-se pelo país; porções cada vez maiores das cidades estão sob domínio de grupos armados; meninas e mulheres correm perigo em casa, na rua, no ônibus, no elevador. O enfrentamento ao crime organizado é uma urgência, mas não se faz isso reivindicando bombardeio dos Estados Unidos na Baía de Guanabara, como, meses atrás, fez Flávio Bolsonaro, ora ungido pelo pai a candidato ao Planalto. Tampouco estabelecendo uma gincana sobre que grupo político tem mais quadros do Comando Vermelho, baixaria da semana na disputa pelo Palácio Guanabara.

Por inércia ou má-fé, quem entra nesse jogo desrespeita o eleitor. Está aí Donald Trump, campeão no voto popular e no colégio eleitoral, com campanha xenofóbica, protecionista e imperialista. Prometeu tornar o próprio país grande novamente, mas, desde empossado, aos olhos do mundo — e, crescentemente, do próprio povo — apequenou-o. Entre bravatas e arroubos, impôs ao planeta níveis recordes de desconfiança e instabilidade, sem melhorar as condições de vida e segurança dos compatriotas.

Trump atacou o Brasil com tarifas e sanções a autoridades, no ano passado. Agora, está sobre a mesa a classificação como terrorista de PCC e CV, as duas maiores facções do tráfico de drogas no território nacional. Foi a senha para opositores de Lula se posicionarem para atacar qualquer argumentação contrária. Opor-se a uma intervenção dos Estados Unidos flagrantemente contrária à legislação brasileira não é defender organizações criminosas nem traficantes, mas alertar sobre efeitos colaterais tão indesejáveis quanto duradouros.

Há risco à soberania quando outro país se atribui o direito de intervir militarmente em nome de combate ao crime. Nem sequer há evidências de eficácia. No fim dos anos 1990, os Estados Unidos classificaram como organizações terroristas as Farc e o Hezbollah. Nem a Colômbia se livrou do tráfico de drogas, nem o Líbano da milícia aliada do Irã, inimiga de Israel. À possibilidade de intervenção armada, assinala um diplomata brasileiro, soma-se aplicação de sanções econômicas, financeiras e diplomáticas. O representante de um banco multilateral admite que operações com instituições multilaterais, como Banco Mundial ou BID, podem se tornar “difíceis ou impraticáveis”.

O promotor Lincoln Gakiya (MP-SP), dedicado ao enfrentamento ao PCC, alertou em entrevistas sobre as “implicações gravíssimas” ao Brasil: do sigilo de operações antes compartilhadas na esfera policial a sanções econômicas, restrição de operações financeiras e até fechamento de empresas multinacionais. Risco alto para um país que está entre as dez (ou 11) maiores economias do planeta, grande player global em exportações do agro, minério e petróleo, potência ambiental.

De cada cinco eleitores brasileiros, um está preocupado com a corrupção, decorrência da fraude bilionária do Banco Master. O hiperfoco está em mal explicadas — quiçá inexplicáveis — conexões do controlador Daniel Vorcaro com dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A pesquisa Quaest mostrou que 38% da população evitaria votar em candidato envolvido com o caso; outros 29% levarão o assunto em consideração na corrida eleitoral. Significa dizer que as investigações precisam tirar o véu que protege parlamentares, autoridades nacionais e locais, num ano em que serão eleitos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Há demanda por transparência; não cabem dissimulação, generalizações nem falsas simetrias nas atribuições de culpa. Nos contatos do banqueiro e sua rede, o Centrão abunda.

Na economia, preocupa o poder de compra. O início do ano é sempre período de pressão inflacionária. Neste ano, educação, passagens aéreas, tarifas de ônibus machucam mais que os alimentos o orçamento das famílias. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é risco a mais para a inflação global. Os impactos na indústria do petróleo alcançam combustíveis e energia, frete e logística, aviação e seguros, fertilizantes. A taxa básica de juros no maior nível em duas décadas anaboliza endividamento e inadimplência, desidrata o consumo. O trabalho, informalizado, excessivo e mal remunerado, exaure. Quem acode?

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