Folha de S. Paulo
Causa estranheza que solicitação de Gonet
tenha sido divulgada quando veio à tona esquema mafioso do Master
O pedido foi entregue ao relator do caso,
ministro Alexandre de Moraes, um dos personagens do escândalo
É um absurdo histórico a decisão do
procurador-geral da República, Paulo Gonet,
de pedir ao STF o
arquivamento da investigação sobre as joias árabes recebidas
pelo ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL).
Gonet resolveu que não havia nada e pronto. Ignorou tudo o que a Polícia Federal comprovou. A fuga com as joias, as negociatas.
Bolsonaro simplesmente mandou um militar
pegar um avião da FAB e ir até o aeroporto para tentar ilegalmente retirar
joias de milhões de euros apreendidas pela Receita Federal. O ex-presidente
tentou vender no exterior outro estojo de presente —e que Michelle
Bolsonaro, inicialmente, declarou desconhecer, mas que recebeu no
Palácio da Alvorada.
Pelo menos sete militares tiveram
protagonismo nas ações ordenadas por ele para entrar ilegalmente com as joias e
tentar reaver os itens apreendidos.
Como justificativa, Gonet citou a ausência de
normas sobre o tema e decisões conflitantes por parte de órgãos de controle
externo. Normalizou uma ação criminosa.
Causa estranheza que o pedido de arquivamento
da PGR tenha
sido divulgado no dia seguinte à segunda prisão de Daniel
Vorcaro e quando mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro
mostraram o esquema mafioso do Master.
O pedido foi entregue ao relator do caso, o ministro do STF Alexandre de
Moraes. Ele que é um dos personagens da novela policial que virou o
caso Master, com novos capítulos todos os dias trazendo revelações
surpreendentes sobre a organização criminosa montada por Vorcaro.
Como já é conhecido, Gonet queria maior prazo
para se manifestar e não se posicionou sobre a prisão do ex-banqueiro e de
outras três pessoas. O procurador-geral errou, e a PGR passou um sinal de
desesperança para aqueles que esperam que não haja um acordão para abafar o
maior escândalo bancário do mundo.
Num país de memória curta, a família
Bolsonaro e aliados do ex-presidente, que atuam ferozmente para tirar proveito
do caso, devem explicações sobre as razões que levaram o regime da Arábia
Saudita a dar presentes tão valiosos.

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