sábado, 14 de março de 2026

Pedido de arquivamento do caso das joias de Bolsonaro é absurdo histórico, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Causa estranheza que solicitação de Gonet tenha sido divulgada quando veio à tona esquema mafioso do Master

O pedido foi entregue ao relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, um dos personagens do escândalo

É um absurdo histórico a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de pedir ao STF o arquivamento da investigação sobre as joias árabes recebidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Gonet resolveu que não havia nada e pronto. Ignorou tudo o que a Polícia Federal comprovou. A fuga com as joias, as negociatas.

Bolsonaro simplesmente mandou um militar pegar um avião da FAB e ir até o aeroporto para tentar ilegalmente retirar joias de milhões de euros apreendidas pela Receita Federal. O ex-presidente tentou vender no exterior outro estojo de presente —e que Michelle Bolsonaro, inicialmente, declarou desconhecer, mas que recebeu no Palácio da Alvorada.

Pelo menos sete militares tiveram protagonismo nas ações ordenadas por ele para entrar ilegalmente com as joias e tentar reaver os itens apreendidos.

Como justificativa, Gonet citou a ausência de normas sobre o tema e decisões conflitantes por parte de órgãos de controle externo. Normalizou uma ação criminosa.

Causa estranheza que o pedido de arquivamento da PGR tenha sido divulgado no dia seguinte à segunda prisão de Daniel Vorcaro e quando mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro mostraram o esquema mafioso do Master. O pedido foi entregue ao relator do caso, o ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele que é um dos personagens da novela policial que virou o caso Master, com novos capítulos todos os dias trazendo revelações surpreendentes sobre a organização criminosa montada por Vorcaro.

Como já é conhecido, Gonet queria maior prazo para se manifestar e não se posicionou sobre a prisão do ex-banqueiro e de outras três pessoas. O procurador-geral errou, e a PGR passou um sinal de desesperança para aqueles que esperam que não haja um acordão para abafar o maior escândalo bancário do mundo.

Num país de memória curta, a família Bolsonaro e aliados do ex-presidente, que atuam ferozmente para tirar proveito do caso, devem explicações sobre as razões que levaram o regime da Arábia Saudita a dar presentes tão valiosos.

 

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