Correio Braziliense
A política tradicional, com seus cargos,
orçamentos bilionários e o poder de legislar, é exatamente o palco onde a
engrenagem da necropolítica pode ser desmontada ou, ao contrário, reforçada e
atualizada
O ano de 2026 já se anuncia no horizonte político brasileiro trazendo a intensa movimentação das eleições nacionais e estaduais. Mais uma vez, seremos convocados às urnas para escolher quem nos representará nos próximos anos. Para além dos discursos, promessas e embates partidários que costumam dominar o noticiário, a população afro-brasileira — que representa 55,5% dos brasileiros, segundo o IBGE — se depara com uma questão fundamental que transcende a política partidária: a luta cotidiana contra uma necropolítica que, historicamente, estrutura as relações de poder no país.
É preciso, antes de tudo, resgatar o
significado mais profundo da política. Em sua essência, a política é o processo
coletivo de organização da convivência entre os diferentes. É o mecanismo pelo
qual uma sociedade, com suas diversidades e divergências, estabelece as regras
para a vida em comum, delibera sobre a distribuição de recursos, direitos e
responsabilidades, e busca resolver seus conflitos de forma minimamente
ordenada. Fazer política é exercer a capacidade de negociar e definir as
prioridades que moldarão o presente e o futuro de uma comunidade, transformando
a convivência em um projeto de civilização.
No entanto, sabemos que a sociedade
brasileira é marcada por profundas desigualdades. Logo, a nossa política, em
sua prática concreta, manifesta-se quase sempre em relações desiguais de poder.
É nesse ponto que o conceito de necropolítica se torna indispensável para
compreendermos a realidade que atinge a população negra.
Cunhado pelo filósofo camaronês Achille
Mbembe, o termo necropolítica consiste no poder soberano de ditar quem pode
viver e quem deve ser deixado para morrer. Diferentemente do assassinato direto
e explícito, a necropolítica opera por meio de um cálculo político que, por
meio da negligência sistemática, da omissão calculada ou da ação violenta do
Estado, expõe grupos sociais inteiros à vulnerabilidade e à morte. No Brasil,
essa lógica tem endereço, cor e história. A violência policial desproporcional
que ceifa vidas jovens e negras nas periferias é sua face mais brutal e
visível. Ela está presente na mortalidade materna, que atinge mulheres negras
de forma desproporcional. Manifesta-se, ainda, nos alarmantes índices de
insegurança alimentar que assolam lares chefiados por pessoas negras e na falta
de acesso a uma saúde de qualidade, ao saneamento básico e à moradia digna. São
políticas de Estado, ou a falta delas, que tornam a vida de corpos negros
persistentemente mais vulnerável e descartável.
É nesse cenário de urgência que as eleições
de 2026 ganham um significado ainda mais profundo. A política tradicional, com
seus cargos, orçamentos bilionários e o poder de legislar, é exatamente o palco
onde a engrenagem da necropolítica pode ser desmontada ou, ao contrário,
reforçada e atualizada. Por isso, é crucial ampliarmos o olhar para além da
disputa majoritária pelos governos estaduais e pela Presidência da República. O
voto para o Legislativo — para deputados federais, estaduais e distritais e
para senadores — é igualmente estratégico.
Serão esses parlamentares os responsáveis por
elaborar as leis que nos regem, fiscalizar a aplicação dos recursos públicos e,
sobretudo, aprovar ou rejeitar o orçamento que financiará — ou não — as
políticas públicas essenciais. Um deputado ou senador comprometido com a vida
da população é aquele que atua para garantir que as verbas públicas cheguem, de
fato, à educação em tempo integral nos bairros periféricos, à saúde preventiva
em comunidades tradicionais e à segurança alimentar. Por outro lado, o uso não
ético de verbas parlamentares, o desvio de finalidade e a ausência de
fiscalização são produtores ativos de fome, adoecimento e morte. Cada real mal
alocado ou desviado é um real a menos na construção de uma política de vida.
Portanto, quando você for escolher seu
candidato a deputado ou senador, lembre-se: seu voto não é apenas uma delegação
de poder àquele ou àquela em que você vota. É uma ferramenta para decidir, na
prática, se a política brasileira continuará a serviço da morte de uma parcela
significativa de sua população ou se, finalmente, daremos um passo concreto em
direção à garantia do direito mais básico de todos: o direito à vida. A
história da negritude no Brasil é uma história de resistência à necropolítica.
Que as urnas de 2026 possam ecoar não apenas promessas, mas um compromisso real
com a nossa existência.
*Psicólogo, cientista, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

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