O Estado de S. Paulo
Pela primeira vez, temos um governo do PT que
enfrenta uma oposição populista
O ciclo político-eleitoral nas democracias obedece a um padrão: à medida que as eleições se aproximam, os políticos deixam de lado reformas de longo prazo e passam a se dedicar a medidas imediatistas de apelo popular garantido. O orçamento público é o alvo preferencial. Governos não apenas gastam mais em ano eleitoral, como direcionam os recursos para programas mais vistosos e eleitoralmente atraentes, em detrimento de investimentos estruturais. Lula está botando centenas de bilhões de reais na rua com esse propósito – e os congressistas não querem ficar atrás, basta ver o avanço de pautas-bomba distributivistas (que favorecem nichos eleitorais como categorias profissionais e igrejas, mas não o todo da sociedade).
A produção de leis também costuma aumentar
nos meses anteriores a uma eleição. Entram em pauta propostas que dificilmente
ganhariam tração na metade dos ciclos político-legislativos, quando as
discussões técnicas são menos desprezadas. O projeto do fim da escala 6x1, por
exemplo, abraçado pelo governo Lula e aprovado na Câmara, não leva em conta
possíveis impactos – para empresas e trabalhadores – que vão na contramão do
que se pretende alcançar. Pelo lado da oposição, voltam as tentativas,
patrocinadas pelo PL de
Jair Bolsonaro, de aprovar a redução da
maioridade penal, sem que se preste atenção às experiências internacionais
decepcionantes nesse sentido. Não há evidência consistente de que a redução da
maioridade penal produza diminuição sustentável da criminalidade.
Há algo inédito na política brasileira que
acaba turbinando o oportunismo pré-eleitoral. Pela primeira vez, temos um
governo do PT que enfrenta uma oposição populista. Na Europa, cientistas
políticos vêm há alguns anos estudando o que acontece quando um grupo político
que está no poder é desafiado por uma forte oposição populista – ou seja,
dedicada ao discurso de “o povo versus a elite” e a explorar soluções
aparentemente simples para temas com alta carga emocional. Uma das conclusões é
que o político incumbente, que busca manter-se no cargo, se torna mais
condescendente com medidas de apelo populista, ainda que subótimas do ponto de
vista prático. Se ele próprio já tinha tendências populistas, o efeito é isso
se agravar. O resultado é o avanço de leis demagógicas e um leilão de benesses
que nenhum dos dois lados pode vencer sem destruir o que resta do equilíbrio
fiscal e de bom senso nas políticas públicas.

Um comentário:
Política pra servir o povo é populista,para servir a elite econômica é...
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