O Globo
O bolsonarismo, em conluio com o Centrão,
viabilizou um próximo golpe
Sem surpresa. Com duas palavras, o
historiador Carlos Fico resumiu a mobilização robusta do bolsonarismo e aliados
para demolir, mais que o veto integral de Lula à
Lei da Dosimetria, o arcabouço legal de proteção ao Estado Democrático de
Direito, aprovado pelo mesmo Congresso Nacional e sancionado em 2021 por Jair
Bolsonaro, o ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe e
outros crimes. Quem venceu anteontem — de novo — foi a tradição brasileira de
tratorar a democracia.
— De acordo com a tradição republicana, o
Congresso Nacional se posiciona beneficiando responsáveis por tentativa de
golpe de Estado. Sempre foi assim, desde 1905 — escreveu Fico numa rede social.
Ele é professor titular da UFRJ, especialista
em História do Brasil República, autor de “História do Brasil contemporâneo”
(2015) e “Utopia autoritária brasileira” (2025), entre outras obras.
Numa tabela que tornou pública, enumerou 15 golpes (tentados ou consumados) e pronunciamentos militares. Na meia dúzia que fracassou (1902, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961), houve anistia. A sétima, o Legislativo pavimentou ontem, ao restabelecer a vigência do PL 2162/2023, que reduz tempo de prisão e facilita a progressão de regime dos condenados pela trama golpista de 2022-2023, incluindo Bolsonaro, três generais e um almirante. O Legislativo ressuscitou um projeto que fere os princípios constitucionais da impessoalidade, da proporcionalidade e da isonomia. E que foi sancionado mesmo sem passar pela Câmara após alterações do Senado.
Toda a reputação internacional que o Brasil
conquistou nos últimos anos por punir quem atentou contra a democracia está em
xeque. A legislação prevê que, nos crimes com violência ou grave ameaça, os
condenados têm de cumprir ao menos 25% (primários) e 30% (reincidentes) em
regime fechado. A Lei da Dosimetria abre exceção para os ataques ao Estado
Democrático de Direito (Título XII do Código de Processo Penal). Estes ficam
sujeitos a 1/6 da pena.
Não é só. A anistia branda de anteontem —
ainda há parlamentar defendendo a plena — também pôs fim ao concurso material
(soma integral das penas) nos crimes de golpe tentado e abolição violenta do
Estado Democrático. Em lugar, passará a valer o concurso formal (punição de um
crime e adição de 50% da pena do outro). Em atos de multidão, a pena cairá em
até dois terços. É um baita incentivo a reunir aliados em acampamentos e atacar
os Poderes se o resultado nas urnas não agradar. O bolsonarismo, em conluio com
o Centrão, viabilizou um próximo golpe.
Mais que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, foram nocauteados o STF e boa parte de um Brasil que se dispôs a
defender a democracia, a ponto de identificar, denunciar, julgar e condenar os
golpistas do 8 de Janeiro de 2023 e seus líderes. De 1.402 responsabilizados,
111 ainda estão detidos e 55 em prisão domiciliar. A maioria esmagadora da
Câmara e do Senado agiu em prol de Jair Bolsonaro e seu grupo, ainda que 54% do
eleitorado, segundo o Datafolha, se
declarem contra a anistia.
Um Congresso francamente punitivista alivia
autores de crimes contra a democracia. Uma aliança entre Davi Alcolumbre,
presidente do Senado, Flávio
Bolsonaro, senador escolhido sucessor pelo pai condenado e preso, e
até Alexandre
de Moraes, ministro do STF, segundo a colunista do GLOBO Malu Gaspar,
sepultou a entrada de Jorge
Messias no Supremo. O advogado-geral da União foi indicado por Lula e
recebeu apoio escancarado de André Mendonça, o ministro terrivelmente
evangélico de Bolsonaro, hoje relator do caso Master e vice-presidente do
Tribunal Superior Eleitoral.
Lula foi derrotado por adversários políticos,
mas também perdeu por trocar institucionalidade por lealdade pessoal nas
indicações ao STF. Pode ganhar votos e enriquecer a biografia, se fizer do
revés um ato político de aceno à própria base. Sempre que agiu assim, se impôs.
Basta lembrar dos projetos de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, taxação
dos mais ricos, PEC da Blindagem e até no enfrentamento ao tarifaço dos Estados
Unidos.
O presidente anunciou o nome de Messias para
o STF no último 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, desprezando
o clamor de anos da sociedade civil por uma jurista preta. Tem o condão de
restituir uma fração da representatividade que falta ao Supremo e, ao mesmo
tempo, empurrar para a oposição o custo político-eleitoral de boicotar a
chegada da primeira ministra negra à Corte. Há nomes de altíssima qualidade,
com mais de 35 anos, reputação ilibada e notório saber jurídico, como exige a
Constituição.
Talvez Lula não saiba, mas as negras
brasileiras atuam na Justiça há muito tempo. Em 1770, uma escravizada do
interior do Piauí denunciou ao governador da capitania, em carta, maus-tratos,
separação da família, trabalho forçado e interdição da fé. O Conselho Federal
da OAB, em 2022, reconheceu o documento como a petição inaugural do país. A
primeira advogada do Brasil era negra, leal aos direitos humanos, à liberdade e
se chamava Esperança (Garcia).

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