Folha de S. Paulo
Sem visão de futuro, pré-candidatos carecem
de propostas inovadoras
A discussão programática faz diferença para a qualidade dos governos
A disputa presidencial rasteja em um
verdadeiro Saara tropical.
Em entrevista a Pedro Doria, do Canal Meio,
questionado qual político lhe servia de inspiração, o ex-governador Ratinho Jr,
então pré-candidato à Presidência, citou ninguém menos que dom Pedro 2º (!).
Ronaldo
Caiado, pretendente ao Palácio do Planalto pelo PSD, embora sua
carreira política remonte aos anos 1980, com passagens pelas duas Casas do
Congresso, só consegue falar de Goiás, que governou por dois mandatos.
O mineiro Romeu Zema, talvez por não se dar propriamente bem com o idioma, até agora foi incapaz de articular qualquer proposta que justifique sua ambição presidencial.
Tampouco é possível encontrar alguma pista do
que pretende Flávio Bolsonaro, hoje o principal adversário do presidente Lula no
campo das direitas. Dele, até recentemente, sabia-se apenas que, se eleito,
livrará o pai da cadeia e se alinhará incondicionalmente aos EUA de Donald
Trump. Agora fomos informados de sua opinião positiva sobre o Bolsa Família,
que considera um "direito adquirido" que promete respeitar e ampliar
—mais ou menos o equivalente a se proclamar corajoso defensor do salário
mínimo: não propriamente uma promessa inovadora, para dizer... o mínimo.
Já o pré-candidato à reeleição parece se
contentar em exibir o que já foi feito no atual mandato —incluídas as mais
recentes iniciativas acondicionadas como pacote eleitoral—, bem como no passado
mais distante. Aposta também no medo que se há de ter da ameaça à democracia e
ao convívio civilizado que a candidatura de um Bolsonaro inevitavelmente
carrega.
Falta-lhe, porém, uma visão de futuro; dos
rumos desejados para o país; dos trunfos disponíveis; e dos obstáculos a
vencer. Carece de propostas sobre como tratar a delicada situação fiscal; como
avançar na segurança; como lidar com os gargalos do SUS e da Previdência
Social; como superar os medíocres resultados na educação; como adequar a
proteção social e as normas da CLT ao novo mercado de trabalho; que escolhas
energéticas fazer; que rumos dar para a amazônia e como se preparar para as catástrofes
climáticas; como aumentar a conectividade no país e como incorporar as novas
tecnologias baseadas em inteligência artificial para aumentar a eficiência da
administração pública.
Para o eleitor com preferências intensas, ser
apaixonadamente a favor de um candidato ou visceralmente contra outro basta
para definir o voto. Pesquisas indicam que, juntos, lulistas e bolsonaristas
empedernidos equivalem a 2/3 dos votantes. O terço restante precisa ser
conquistado principalmente pela emoção, ou, em menor medida, pela razão.
Sim, eleições se disputam com slogans e
mensagens concisas; com imagens fortes, não com policy papers. Mas também
configuram oportunidades para que, em paralelo à disputa por votos nos
palanques, redes sociais, rádio e TV, intelectuais e think tanks ligados a
partidos ou candidatos os municiem com ideias novas.
Que isso aconteça não é inevitável, nem
indispensável para garantir a vitória a este ou àquele. Mas a discussão
programática faz diferença para a qualidade dos governos e a produção de
convergências sem as quais não se vai a parte alguma.
*Professora emérita da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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