terça-feira, 16 de junho de 2026

A crise do Supremo, por André Mendonça, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Levantamento do Insper mostra que o ministro é o de votos mais divergentes na Corte

“Há um desequilíbrio entre os Poderes quando um tribunal avança pela criação de regras e não por sua aplicação”. Depois de uma exposição de 20 minutos sobre o impacto das decisões do Supremo Tribunal Federal na segurança jurídica do país, em evento fechado para CEOs, executivos e acadêmicos no Insper, o ministro André Mendonça sentou para uma sessão de cinco perguntas.

Recorrendo ao conceito do “juiz criativo” do jurista italiano Luigi Ferrajoli, discípulo de Norberto Bobbio, emendou: “O Judiciário não pode dar a primeira e a última palavra, precisamos ter autocontenção”, tomando posição na contenda que mobiliza críticas da academia, da sociedade e do próprio colegiado, dividido entre o presidente da Corte, ministro Edson Fachin e o decano, ministro Gilmar Mendes, que joga em todas as posições.

Apontou disfuncionalidade nas ações penais originárias iniciadas diretamente na Corte, como o inquérito das fake news, e criticou o elevado quórum de agentes legitimados a acessar o Supremo. “Tudo isso precisa ser discutido no processo constituinte derivado”, disse, numa referência explícita a uma reforma do judiciário.

Ao elencar os princípios decisórios da boa prática jurídica, disse ser necessário evitar os abusos da retroatividade: “O STF aplica novas regras ao que já estava estabelecido. É algo que preocupa muito. Indicadores do Bird sobre regulação no Brasil são piores que os do Paraguai.”

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a banda em que toca o ministro avesso a entrevistas e relator das duas das mais bombásticas ações em curso no STF, do Master e do INSS, conheceu ali seu diapasão. “O primeiro passo é reconhecermos que estamos doentes”, disse, ao atestar a “crise de credibilidade” das instituições.

André Mendonça não entende por “autocontenção” a reclusão - “nosso gabinete não representa o mundo”. Exibiu sua vacina para o ativismo religioso ao citar a ida ao culto presbiteriano no último domingo onde disse ter abraçado uma idosa na cadeira de rodas e uma criança: “O julgador deve estar próximo do povo e da sociedade”.

Contrariando orientação da Igreja Presbiteriana do Brasil, Mendonça compareceu no feriado de Corpus Christi, pela quinta vez, à Marcha para Jesus e, do trio elétrico, definiu o momento como “um marco histórico onde milhões de brasileiros se unem para testemunhar que foram transformados por Jesus”.

O ministro não mencionou os inquéritos que conduz, mas sugeriu o rumo tomado: “Se os mecanismos de prevenção e responsabilização deixam de funcionar a sociedade chega à conclusão de que não vale a pena acreditar nas instituições e fazer o certo.” Preparou ainda aquela plateia para as citações que estavam por vir.

O primeiro foi o alemão Jurgen Habermas - “Dizem que é de esquerda mas não me importo” - que tomou de empréstimo para descrever a “imparcialidade qualificada” com a qual o juiz deve estar aberto para ouvir as partes podendo até modificar sua pré-compreensão dos fatos. O segundo foi o indiano Amartya Sen: “Se estamos longe do ideal de justiça, comecemos por não cometer injustiças; nossas decisões devem prevalecer pela força dos argumentos e não pelo argumento da força.”

E, finalmente, ao responder a uma pergunta do professor do Insper e coordenador do encontro, Diego Arguelhes, sobre a separação entre os Poderes, arrematou: “Nossas decisões impactam a sociedade e a política. Fui indicado por um presidente de direita, mas não estou lá para ser um ministro de direita, e, sim, julgar de acordo com a Constituição. E isso precisa ser percebido pela sociedade.”

O ministro chegou depois que o ex-ministro Nelson Jobim já tinha falado e teve que deixar o auditório assim que terminou sua exposição para pegar seu vôo de volta para Brasília. Não viu, portanto, quando Jobim preparou o terreno com um histórico das disfuncionalidades que vulnerabilizam o STF.

Nem tampouco quando professor do Insper, Ivar Hartmann, que, em grande parte, referendou as disfuncionalidades já decantadas com uma montanha de dados. Com dois colegas, Arguelhes e Evan Rosevear, minerou a base de dados do STF, com 2,23 milhões de votos de 1988 até 2023.

Constatou que as decisões monocráticas são 94,8% do total - 6 mil por ano para cada ministro - sendo que 36% permanecem sigilosas. No inquérito das fake news, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, aquelas em segredo de justiça são a maioria. É Moraes também quem detém o recorde (43,8%) de processos distribuídos por “prevenção”, quando não há sorteio e o ministro que cuida de ação correlata fica com o processo.

Foram constatadas 74% de decisões unânimes (nos EUA a parcela é inferior a 50%). O campeão de divergência foi o ministro Marco Aurélio Mello, que integrou a Corte durante 31 dos 35 anos da pesquisa e saiu em 2021. Sua taxa foi de 16,8%. Mendonça, que o substituiu, vem em seguida, com 2,4%. O levantamento abrange a estreia do ministro num tribunal em litígio com o governo Jair Bolsonaro e o primeiro ano do inquérito do golpismo.

“O que a Corte decide depende, antes de tudo, de como ela decide. Em colegiado, um tribunal cujo dissenso é raro e ainda pouco estudado. Individualmente, um tribunal com prática cada vez mais distante daquela desenhada pela Constituição”, concluiu Hartmann num momento em que o ministro divergente já decolava para Brasília.

 

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