quinta-feira, 18 de junho de 2026

O preço da desglobalização e o custo para o Brasil, por Eduardo Belo

Valor Econômico

Nos EUA, trabalhadores já sentem efeito de salários menores

A fragmentação do sistema financeiro global é tema do relatório “Deepening Divides”, publicado no início de junho pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês) em parceria com a consultoria Oliver Wyman. A fragmentação se traduz em tarifas, restrições a investimentos, controles de exportação e medidas de retaliação entre países.

Para além das implicações na economia mundial, o relatório traz algumas considerações sobre o Brasil, especialmente no que trata da guerra comercial travada pelos Estados Unidos contra praticamente o mundo inteiro pela via do tarifaço e pela expansão do protecionismo.

O esforço brasileiro de se manter aberto a parcerias comerciais e de investimento está contemplado no relatório. O texto classifica o Brasil como país “Neutro”. O texto divide outras economias entre “Ocidente” (EUA, UE, Canadá e Reino Unido, além dos orientais Japão, Coreia do Sul e Austrália) e “Oriente” (China e Rússia). Índia, Indonésia, México, Taiwan e Turquia acompanham o Brasil no bloco “Neutro”.

Neutralidade parece ser um posicionamento bom, mas não é bem assim. Há riscos. Países neutros são mais dependentes economicamente do comércio e, em caso de mais recrudescimento do protecionismo, sofreriam com a perda de exportações - mesmo que a queda das importações fosse equivalente.

O relatório aponta Índia e Brasil como as duas economias mais sujeitas a queda no PIB em caso de maior fragmentação do comércio e das finanças. A projeção indica que no cenário de “fragmentação muito alta - desacoplamento total”, o grupo “Neutro” pode enfrentar uma queda de 10,7 pontos percentuais no PIB, em contraste com um crescimento médio mundial de 6,4 pontos em um período não especificado.

O modelo criado pelo WEF e pela consultoria indica que, nos cenários de alta e muito alta fragmentação, países Neutros alinhados ao Ocidente ampliariam suas trocas com o Oriente. A situação sugere certa pressão para o Brasil para “escolher” um lado - EUA ou China -, atitude incoerente com o comportamento histórico da diplomacia brasileira, pautada pela autonomia e diversificação.

Há saídas, claro. Uma delas, no caso brasileiro, é o acordo entre União Europeia e Mercosul, em implementação provisória. Abre a perspectiva de novo dinamismo comercial, capaz de suprir pelo menos em parte as perdas com as barreiras americanas. Diante da fragmentação do multilateralismo, esse tipo de acordo funciona como um antídoto, defende o relatório.

Outra oportunidade, diz o texto, está na defesa aberta do multilateralismo e da possibilidade de trocas comerciais em moedas locais, sem a necessidade de intermediação do dólar. São alternativas que incomodam o governo Donald Trump, mas que podem ganhar adesões em caso de escalada do protecionismo.

O relatório do WEF e da Oliver Wyman lembra que o protecionismo sempre esteve presente. A diferença, agora, está na dose. Quando Trump começou a sinalizar que adotaria tarifas para fortalecer a economia americana, havia uma expectativa de que o golpe se restringiria aos rivais geopolíticos e a países não alinhados. Mesmo com o ajuste das expectativas à medida que novas declarações vinham à luz às vésperas do chamado Dia da Libertação, a intensidade e o alcance das sobretaxas surpreendeu, diz o texto.

Aliados e alinhados não foram poupados. Alguns muito colaborativos com Washington, como a Índia, foram atingidos em cheio. Sócios em acordos comerciais - Canadá e México - também não escaparam.

O principal conteúdo do relatório faz menção ao sistema financeiro. A tese é que ele nunca foi tão interconectado e ao mesmo tempo tão exposto a uma ruptura geopolítica.

Paradoxalmente, 2025 foi um ano de recordes para o comércio e para o crédito bancário internacional. Remessas de divisas tiveram seus maiores volumes da história. Os títulos do Tesouro americano em posse de não residentes nos Estados alcançaram o pico. Do mesmo modo, a fragmentação também chegou a níveis inéditos.

Segundo o documento, a fragmentação já está custando à economia global entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões por ano - o tamanho do PIB do Chile ou da Finlândia -, além de adicionar 0,2 a 0,3 ponto percentual à inflação global.

O relatório enxerga as seguintes situações: 1) Tarifas elevadas encarecendo o comércio. As transações diminuem e se redirecionam para rotas menos eficientes. 2) Restrições a investimentos via barreiras regulatórias. O custo do capital aumenta e inibe investimentos produtivos. 3) Incerteza e imprevisibilidade. Empresas não conseguem planejar operações no exterior. A tendência é cortar investimento e empregar menos. 4) Redundância em cadeias de suprimento. Para se proteger de eventuais falhas de abastecimento, corporações se obrigam a manter relações com grupos de fornecedores diferentes, de regiões distintas.

Esse conjunto resulta em 0,2 a 0,3 ponto percentual a mais na inflação global, estima o levantamento. O texto diz que efeitos já são visíveis nos Estados Unidos, com salários reais 0,33% menores para trabalhadores de baixa qualificação, 0,49% mais baixos para os de qualificação média e 0,66% inferiores na alta qualificação.

E o cenário pode piorar. O relatório alerta: as perdas globais poderiam chegar a US$ 6,9 trilhões se a escalada persistir. O número é maior que o PIB de praticamente todas as economias - cerca de 200 países -, com exceção de Estados Unidos e China. É o custo da desglobalização.

 

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