segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ricardo Noblat :: O apagão de Cabral

DEU EM O GLOBO

"Não se pode brincar com o solo. Não se pode ter construção perto de montanha e de espelho d"água" - Sérgio Cabral

E aí, Lindinho? Nem sequer de leve vai censurar o governador Sérgio Cabral (PMDB) por ter sumido nas primeiras 24 horas após o deslizamento de terras em Angra dos Reis? Ali morreram 44 pessoas. Lindinho é como chamam Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu, ex-aspirante a candidato do PT ao governo. E, até outro dia, crítico de Cabral.

Os dois chegaram a um acordo. Sob pressão de Lula, Cabral topou apoiar a candidatura de Lindinho ao Senado – e Lindinho topou transferir para daqui a quatro anos a pretensão de ser candidato ao governo. Benedita da Silva (PT), ex-governadora do Rio e também candidata ao Senado, detestou o acordo.

E aí, Bené? Como Lindinho, nada dirá a respeito do apagão de Cabral? Bobagem! Bené está impedida de dizer qualquer coisa que deixe Cabral aborrecido. Afinal, ela é Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do governo dele. Reza para que não vingue o apoio de Cabral a Lindinho.

Tudo bem, mas Alessandro Molon, deputado estadual do PT, poderia perguntar a Cabral por que ele preferiu despachar para Angra seu vice Luiz Fernando Pezão, só aparecendo por lá um dia depois. No dia da tragédia, nem Lula conseguiu falar com Cabral. Sem o apoio de Cabral, Molon perdeu a eleição de 2008 para prefeito do Rio.

Molon calou-se. De sua parte, Cabral repeliu, indignado, a suspeita de que voara para o exterior. “Estão querendo plantar que eu estava fora do país? Eu estava em Mangaratiba”, jurou. Melhor que não estivesse. Mangaratiba fica a 57 quilômetros de Angra, que, por sua vez, fica a 157 quilômetros da cidade do Rio, de onde saiu Pezão.

Em julho de 2007, por causa da morte de 26 peregrinos poloneses em um acidente de ônibus entre Cannes e Grenoble, três ministros da França voaram para o local, distante 600 quilômetros de Paris. François Fillon, o primeiro-ministro, também voou, assim como Sarkozy, o presidente da República. E Lech Kaczynski, o presidente da Polônia.

Peregrino polonês vale mais do que ilhéu ou turista que visita Angra? Por que os políticos brasileiros são pouco solidários com a população? Sabem adulá-la atrás de votos. Na hora da dor, guardam distância. Lula, em julho de 2007, guardou distância de São Paulo onde se espatifara um Airbus da TAM, matando 199 pessoas.

O PT foi para cima do governador José Serra (PSDB) e do prefeito Gilberto Kassab (DEM) cobrando providências contra o recente alagamento de parte da cidade de São Paulo. O PT finge que o governo Cabral nada tem a ver com os estragos provocados pelas chuvas no Rio. Morreram 64 pessoas entre quarta-feira e sábado.

Os cariocas assistem conformados à reprise de um filme triste e antigo. No fim do filme, são eles que morrem varridos pelas águas. O governo de plantão joga a culpa nos governos passados. E de tragédia em tragédia, vai-se levando. Cabral anunciou que transformará em parque ambiental as áreas de Angra afetadas pelos deslizamentos.

“A ideia é identificar as casas que devem ser removidas. Orçamento não é problema. Vamos listar as famílias para depois indenizá-las”, prometeu. Ora, o decreto 41.921, de junho último, assinado por Cabral, afrouxou as regras de construção em áreas de preservação ambiental de Angra e de outras ilhas.

Uma petição com mais de cinco mil assinaturas exige a revogação do decreto, rejeitado pelas principais entidades ambientalistas do Estado, a representação do Ibama em Angra, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e... Sim, e Molon. O Ministério Público Federal considera o decreto inconstitucional porque não há lei que o ampare.

Molon apresentou na Assembleia um projeto de Decreto Legislativo que susta os efeitos de alguns artigos do decreto de Cabral. Se está de fato empenhado em evitar que ocorram novos desastres como o da Ilha Grande na madrugada da sexta-feira, de saída Cabral poderia revogar seu decreto infeliz. Mas isso só não basta, é claro.

CHARGE



Diário do Nordeste (CE)

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César Felício:: Quem guiou o Lulécio

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Na manhã de 1º de outubro de 2006, logo depois de votar em São Paulo acompanhado de José Serra, o candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, entrou em um jatinho no aeroporto de Congonhas para acompanhar Aécio Neves às urnas em seu voto em Belo Horizonte. Em que pese as aparências, não era Alckmin que com este gesto apoiava Aécio-reeleito na ocasião com 77% dos votos válidos - mas era o governador mineiro que procurava aparecer como o grande eleitor em Minas para o PSDB, na surpreendente arrancada de Alckmin nos últimos dias de campanha, que tirou a vitória no primeiro turno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Aécio já havia sido o anfitrião da convenção nacional do PSDB que homologou o paulista Alckmin como candidato, em junho. Depois, reuniu-se com os prefeitos de sua enorme base de apoio para pedir empenho na eleição do correligionário. Mas como foi Lula que teve a maioria absoluta dos votos em Minas Gerais tanto no primeiro, como no segundo turno, tornou-se evidente que boa parte dos eleitores mineiros votou no petista para a Presidência e no tucano para governador.

Deduzir daí que houve um caso clássico de traição política na eleição mineira daquele ano é uma manobra arriscada. E mais frágil ainda é imaginar que a história da eleição anterior servirá como advertência a Serra no Estado, em 2010. É bem possível que Serra perca a eleição em Minas Gerais, por motivos que passam longe da falta de apoio das lideranças locais. Aécio fez mais por Alckmin em 2006 do que Serra fez pelo mesmo na candidato na eleição municipal paulistana de 2008 .

A votação do candidato tucano à Presidência praticamente dobrou em Minas Gerais entre 2002 e 2006. Serra há quase oito anos obteve 22,8% dos votos mineiros, enquanto Alckmin alcançou 40,6%. Pensar que faltou então empenho de Aécio para eleger Serra em 2002 é uma construção frágil, uma vez que naquele ano o governador mineiro era Itamar Franco, pelo PMDB, e o capital político e eleitoral de Aécio era consideravelmente menor.

O voto Lulécio existiu pela outra via, como procurou demonstrador o pesquisador Pedro Mundim, doutorando em ciências políticas pelo Iuperj, em um artigo que escreveu sobre a eleição de 2006 disponível na internet. A aliança entre o PT e o PMDB de Minas produziu fissuras nos dois partidos que estimulou o apoio da base lulista à reeleição do governador. A manobra foi conveniente para o Palácio do Planalto e o então coordenador político do governo federal, Walfrido Mares Guia, administrou a adesão de prefeitos, algumas dezenas deles pertencentes ao PT, à candidatura tucana ao governo estadual.

Dentro do PT, a dissidência partiu do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Na capital mineira, Aécio tinha tido 44% dos votos em 2002. Quatro anos depois, recebeu 82%. O candidato petista Nilmário Miranda despencou de 42% para 15,8%. Já o voto de Lula não teve variação relevante. O presidente recebeu 53% dos votos mineiros em 2002 e 50,6% em 2006. Em Belo Horizonte, Lula caiu, e muito: desceu de 58,4% em 2002 para 44,5% quatro anos depois. Ou seja: foi maior o contingente de lulistas que votaram em Aécio do que de aecistas que abandonaram Alckmin e sufragaram Lula.

A aliança entre petistas e pemedebistas foi determinante para se entender o funcionamento desta dimensão do Lulécio. Poucos seres humanos são tão odiados em Belo Horizonte como o ex-governador e empresário Newton Cardoso, que foi o candidato de Nilmário ao Senado em 2006. Mundim não conseguiu medir, estatisticamente, até que ponto a chapa com Newton moveu votos de Nilmário para Aécio. Mas o fato é que quando Newton e Nilmário concorreram ao governo em 2002, somaram 36% dos votos. Juntos na mesma chapa, perderam 14 pontos percentuais.

Na base política municipal de Aécio, a maior parte de seus apoiadores ficou com Alckmin, não obstante a ação pelo Lulécio desenvolvida por Mares Guia. "Esperava-se que Aécio fosse um bom cabo eleitoral de Alckmin e os dados mostram que foi isso o que de fato aconteceu", escreveu Mundim. Quem não permaneceu com o tucano para a Presidência foram os eleitores.

Um balanço publicado pelo "Correio de Uberlândia" logo após a eleição, analisou o comportamento dos 20 prefeitos que compõem a sub-região do Alto Paranaíba, parte integrante do Triângulo, no oeste mineiro. Todos os 20 eram da base de sustentação de Aécio. O governador mineiro levou para Alckmin o apoio público de nove deles. Quatro aderiram ao Lulécio e sete permaneceram neutros. Entre os nove prefeitos que apoiaram Alckmin, Lula ganhou em sete municípios e perdeu em dois. Entre as vitórias petistas, esteve Uberlândia, a cidade mais importante. Das quatro governadas por prefeitos apoiadores de Lula, o petista venceu em três.

"Não houve uma eleição casada em termos ideológicos, mas houve uma eleição casada, em preceitos racionais", concluiu Mundim. Em outras palavras, os mineiros estavam em 2006 satisfeitos tanto com o governo Lula quanto com o governo Aécio e quiseram votar pela continuidade.

Em setembro de 2006, Aécio conseguiu 68% de bom e ótimo em uma pesquisa de avaliação do governo feita pelo Ibope. Agora, está com 76%, de acordo com uma sondagem do Vox Populi. Se conseguiu transferir parte desta avaliação para Alckmin em 2006, é razoável supor que possa impulsionar a votação de Serra para um patamar acima de 40% no próximo ano. O problema é que Dilma Rousseff também terá fortes candidatos regionais a impulsioná-la e Lula a carregá-la nos ombros. A última pesquisa Datafolha em Minas mostrou Serra com 39% e Dilma com 20%. A sondagem mostra que Dilma percentualmente já está mais forte em Minas do que em São Paulo, Ceará, Distrito Federal, Paraná e Santa Catarina, em cenários que incluem Ciro Gomes como candidato.

O Lulécio, em 2006, falseou a análise do resultado. Aécio obteve 27 pontos percentuais a mais que Lula, porque boa parte dos votos lulistas não foi para Nilmário Miranda. Criou-se a noção duvidosa de que o governador é o dono dos votos em Minas Gerais. A eleição de 2010 pode mostrar, de maneira mais exata, qual o tamanho da fatia de Lula na mente dos 15 milhões de eleitores mineiros.

César Felício é correspondente em Belo Horizonte.

Denis Lerrer Rosenfield :: (In)segurança jurídica

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Multiplicam-se no País declarações e condutas governamentais e políticas que têm um mesmo fundamento: a relativização do direito de propriedade. É como se o direito de propriedade fosse um mal que deveria ser exorcizado, algo apenas tolerado, de nenhum modo valorizado. A desastrosa experiência socialista, totalitária, do século 20 está sendo progressivamente esquecida, dando lugar à reanimação desse morto-vivo, só que agora com novo nome. Os nomes, aliás, variam segundo os diferentes interlocutores. Alguns o chamam "utopia"; outros, "socialismo do século 21"; outros ainda, "sociedade justa e solidária". As denominações vão mudando ao sabor das circunstâncias, tendo um igual denominador comum, o de formar a opinião pública. O seu significado permanece, porém, o mesmo.

Há até alguns promotores - felizmente, minoria - que dizem não precisar obedecer à "letra fria" da lei. Querem, na verdade, dizer com isso que seguem a "letra quente" do dogmatismo esquerdista. Justificam, então, suas posições socialistas, perfilando-se ao lado dos ditos movimentos sociais, dos quais se tornam agentes ditos políticos. Todo esse palavreado - porque não é mais do que isso - em torno de uma "sociedade justa e solidária" significa simplesmente isto: somos partidários e militantes fervorosos do socialismo, do comunismo, da democracia "participativa", totalitária, termos aqui equivalentes.

O MST, com o apoio das pastorais da Igreja Católica, em particular a Comissão Pastoral da Terra (CPT), propugna pela revisão dos índices de produtividade, procurando assim anular os ganhos de produtividade da classe empresarial rural. Luta por uma transferência de bens, de propriedades, para sua própria organização política, que defende o fim da economia de mercado e o direito de propriedade. Ora, a direção do Incra e a do Ministério do Desenvolvimento Agrário são constituídas por militantes egressos das alas mais à esquerda do PT e membros dos mesmos ditos movimentos sociais. Toda a campanha em torno da revisão dos índices de produtividade está baseada no aparelhamento de órgãos do Estado pelos ditos movimentos sociais, que pretendem, dessa forma, dar um rumo socialista às relações capitalistas do campo brasileiro. O atual governo aparelhou esses e outros órgãos do Estado com essas organizações políticas, por ele mesmo financiadas.

Outro exemplo de violação expressa do direito de propriedade se manifesta no modo como o governo está implementando o novo Código Florestal, fruto de um ato administrativo do Poder Executivo, que altera as relações de propriedade no campo. Uma área onde o cultivo era permitido se torna, de repente, uma área de reserva legal, obrigando o proprietário a reflorestá-la. De acordo com a legislação da época, o agricultor plantou segundo as leis, não tendo cometido nenhum crime. Na maior parte dos casos, incentivado pelo governo então vigente. Subitamente, o que era permitido e, reiteremos, legal, se torna ilegal, sendo suscetível de multa e punição. A situação é particularmente grave porque, aproveitando-se da onda ambiental do politicamente correto, o governo termina criminalizando os produtores rurais. Eles se tornam "criminosos" por um ato administrativo. Cúmulo do absurdo é depois, graças a pressões políticas, ser-lhes concedida uma espécie de anistia, como se infratores fossem. Os papéis estão completamente trocados. O problema político é da maior relevância, pois apenas o governo nazista se caracterizou por editar leis com efeito retroativo. Talvez ele fosse "progressista".

As questões quilombolas e indígenas tendem a se tornar cada vez mais importantes, com maiores áreas reivindicadas, em zonas rurais e urbanas. Reivindicações quilombolas, por exemplo, envolvem empreendimentos imobiliários em vários Estados brasileiros. Reivindicações indígenas dizem, sobretudo, respeito à zona rural, interferindo tanto na vida dos produtores rurais, das empresas do agronegócio, quanto na soberania nacional, comprometendo a exploração de jazidas, hidrelétricas e suscitando problemas fronteiriços.

Convém destacar que são "movimentos sociais" articulados entre si graças à atuação da ala esquerdista da Igreja Católica, por intermédio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da CPT, contando com o apoio de ONGs e governos internacionais. Apesar de sua apresentação politicamente correta, esses "movimentos" são verdadeiras organizações políticas, vinculadas ao MST, cuja ideologia é claramente socialista, anticapitalista. Suas diatribes são contra o direito de propriedade e a economia de mercado.

Há toda uma embromação ideológica no uso da palavra progressista para justificar essas posições, que são, na verdade, liberticidas. Qualificar alguém, um movimento social ou um partido político como progressista se tornou uma espécie de salvo-conduto para qualquer tipo de arbitrariedade.

Assim, o MST é tido por progressista, o que significa dizer que a violência por ele empregada já está, de antemão, justificada. Invadir propriedades, sequestrar funcionários, destruir maquinários, depredar alojamentos e sedes, ameaçar pessoas com foices e facões, até mesmo degolá-las, como já aconteceu no Rio Grande do Sul, são, nessa perspectiva, atitudes tidas por progressistas. Da mesma maneira, considerar a CPT e o Cimi progressistas significa adotar essa heterogênea mistura entre cristianismo e marxismo, denominada Teologia da Libertação, como teoria "justa e solidária" para uma sociedade sem propriedade privada: a sociedade socialista/comunista.

Na mesma esteira, considerar Mahmoud Ahmadinejad - negador do Holocausto, torturador e assassino de adversários políticos, perseguidor da religião Bahá"i e fraudador de eleições - progressista mostra, muito bem, onde desembocou essa esquerda: na podridão ideológica.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS

Luiz Carlos Bresser-Pereira:: O povão de Lula gosta de ordem

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

No 1º mandato, Lula logrou o apoio da massa popular que, desde Collor, votava no candidato de direita

Na última semana, argumentei nesta coluna que o aumento da taxa média de crescimento da economia brasileira de 3% para 5% do PIB a partir do terceiro ano do governo Lula deveu-se, em um primeiro momento, ao fortalecimento da demanda externa impulsionada por uma taxa de câmbio competitiva e pelo aumento do preço das commodities e, em um segundo momento, pelo crescimento da demanda interna provocado pelo aumento do salário mínimo, pelo Bolsa Família e pelo crédito consignado. André Singer, em notável artigo de ciência política e sociologia política publicado nos Novos Estudos Cebrap de novembro de 2009 ("Raízes ideológicas e sociais do lulismo"), completa a análise.

O argumento do professor da USP é simples e esclarecedor. Da eleição de 2002 para a de 2006 -ambas vencidas por Lula-, houve mudança das suas bases de apoio. Por haver adotado uma política econômica ortodoxa e devido à crise do mensalão, perdeu parte substancial do apoio da classe média intelectualizada e de esquerda, mas, em compensação, ganhou o apoio dos setores de baixa e, principalmente, de baixíssima renda -o subproletariado que seu pai, Paul Singer, estudou nos anos 1980. Ganhou o apoio desse imenso eleitorado formado pelas famílias que recebem menos de dois salários mínimos e que constituem quase 47% da população brasileira.

Nos primeiros quatro anos de governo, Lula logrou o apoio dessa massa popular que, desde a eleição de Collor, votava sistematicamente no candidato de direita. Segundo André, por duas razões: primeiro, porque graças ao aumento do salário mínimo, ao Bolsa Família e ao crédito consignado sua renda aumentou, ascendendo uma importante parte dessa massa à condição de classe C, de "classe média" na linguagem do marketing. Mais interessante e algo surpreendente, porém, é a segunda razão. Porque essa massa é caracterizada pelo "conservadorismo popular". Para ela, como para a direita, a "ordem", no caso representada pela estabilidade de preços, é fundamental. Por isso votou em candidatos conservadores nas eleições anteriores. Quando, porém, se deu conta de que Lula era nessa matéria também "conservador", era fiscalmente responsável e se mostrara capaz de manter a estabilidade de preços, mudou o seu apoio para ele.

Como Getúlio Vargas, Lula foi capaz de falar diretamente ao povo, e ganhar a sua confiança, não apenas porque o favoreceu em termos concretos, mas também porque o fez com responsabilidade fiscal e não deixou que a hidra da inflação retornasse. Joãozinho Trinta assinalou há muitos anos que pobre gosta de luxo; gosta também de segurança ou de ordem, nos lembra André. Lula rompeu com o populismo fiscal irresponsável que caracterizara seu discurso e o do PT até a véspera da eleição de 2002. Foi um ato de coragem que o levou a perder votos dos amigos, mas a ganhar os dos pobres.

Para isso, sentiu-se obrigado a se subordinar à ortodoxia convencional, não percebendo que esta, apesar de seu discurso ortodoxo, promove o populismo cambial e a desregulação financeira e, por isso, também não assegura a estabilidade. O que assegura estabilidade e crescimento é o novo desenvolvimentismo praticado pelos países asiáticos dinâmicos, que rejeita tanto o deficit público quanto o deficit em conta corrente. Mas essa é outra história. A deste artigo é a análise de André Singer. Há muito tempo eu não via um artigo tão claro, tão objetivo e tão esclarecedor da política brasileira. Um artigo que nos obriga a pensar.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição".

Marcha lenta na reforma agrária


DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Comparação com o governo de Fernando Henrique Cardoso é desfavorável ao presidente Lula quando o assunto é o número de desapropriações de fazendas feitas pelo país afora

Guilherme Queiroz

Depois de desacelerar o ritmo de desapropriações no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo pôs novamente em marcha a destinação de terras para a reforma agrária às vésperas do ano eleitoral. Levantamento feito pelo Correio nos decretos presidenciais mostra que, em 2009, foram declarados de interesse social 408,5 mil hectares de propriedades consideradas improdutivas, número 63 vezes maior que os 6,4 mil hectares registrados no ano anterior. Ao todo, 189 imóveis deverão ser incorporados pela União para assentamento de famílias agricultoras.

Apesar da retomada das desapropriações, a área destinada para a reforma agrária no ano passado ainda é inferior à média anual dos sete anos do presidente Lula na Presidência da República, de 487 mil hectares, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A distância se acentua na comparação com a melhor marca do atual governo, em 2005, quando foram declarados de interesse social 977 mil hectares de terras avaliadas como improdutivas.

O presidente do Incra, Rolf Hackbart, afirma que a flutuação na extensão das áreas destinadas à reforma agrária não quer dizer que a política de distribuição de terras passe por altos e baixos. “É um esforço constante. Há um ritmo de trabalho”, rebate. Segundo ele, o Incra avalia, em média, 7 milhões de hectares por ano para aferir se propriedades rurais atendem aos parâmetros de produtividade.

Os números modestos podem tornar a reforma agrária uma seara pedregosa para o presidente Lula, que tem feito da comparação dos feitos de seu governo com o de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, um hábito recorrente. De acordo com os números do Incra, o tucano declarou passíveis de desapropriação 10,2 milhões de hectares, distribuídos entre 3.536 propriedades. O governo atual, apesar das afinidades com os movimentos sociais de sem-terra, destinou para desapropriação 3,4 milhões de hectares, ou 1.835 imóveis. Os dados sobre destinação de terras para desapropriação, porém, não significam que o governo de FHC assentou mais que o de Lula.

A oposição enxerga nos dados brecha para criticar a política agrária do PT e reforçar o discurso de que as conquistas do atual governo puderam ocorrer devido à herança deixada pelo PSDB. Ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE) diz que a atuação do Incra segue modelo consolidado no governo tucano. “O Lula sempre criticou nosso modelo de reforma agrária, mas quando chegou ao poder não mudou uma linha da estrutura jurídica que adotamos. Isso é uma inconsistência”, critica.

Segundo o presidente do Incra, a destinação de terras para reforma agrária tem sido acompanhada de uma política de distribuição das áreas para pequenos agricultores. Hackbart argumenta que a comparação entre os governos não deve ser feita somente com base na extensão das áreas destinadas à reforma agrária, incluindo também o número de famílias assentadas. “Muito das áreas que estão indo para a reforma agrária são terras públicas retomadas. Em 2010, haverá um número enorme de assentamentos”, acrescenta.

Especialista no tema, o professor de geografia da Universidade de São Paulo (USP) Ariovaldo Umbelino afirma que a queda no ritmo de desapropriação de terras nos últimos anos de mandato é comum entre os governos FHC e Lula. No caso do petista, ele acrescenta que, desde 2008, quando se encerrou o 2º Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), o governo passou a priorizar a regularização fundiária sobre a destinação de terras para assentamentos rurais. “O segundo mandato de Lula não tem mais a reforma agrária como objetivo. As metas vêm diminuindo ano a ano”, analisa.

Bom dia! - Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje

domingo, 3 de janeiro de 2010

Reflexão do dia – Norberto Bobbio

“Criticar o sistema representativo da esquerda é muito difícil e também mais perigoso. Para quem acha que os homens são, em sua grande maioria, um rebanho ou manada e que não podem ser governados a não ser por um eleito do destino, como Napoleão, é muito fácil fazer anti-parlamentarismo. Mais difícil ainda para quem não quer jogar fora junto com a água suja do parlamento também o fetichismo tão delicado das liberdades civis e políticas”.


(Norberto Bobbio, no livro “O Marxismo e o Estado”, pág, 47 Edições Graal, Rio de Janeiro, 1979

Ferreira Gullar :: Esquerda, volver

DEU NA FOLHA DE S. PAULO / Ilustrada

A dificuldade de definir esquerda e direita é produto do avanço das ideias progressistas

O que é, hoje, ser de esquerda? Há algumas décadas, era ser contra o imperialismo americano, a favor da reforma agrária e de um governo socialista; para alguns, substituir a "ditadura" da burguesia pela ditadura do proletariado. Hoje, já não se fala em imperialismo americano e, com raras exceções, todo mundo é a favor da reforma agrária, que se tornou, como é no Brasil, programa de governo. O que é, então, ser de esquerda ou de direita hoje?

Acreditar em Deus já não é ser de direita, uma vez que há até padres que amaldiçoam o capitalismo e outros que abençoam o socialismo. Opor-se aos Estados Unidos é ser de esquerda, então o aiatolá Khomeini e o presidente Ahmadinejad, dirigentes de um regime teocrático, seriam de esquerda. Bush era de direita, claro, mas é possível afirmar que Obama, presidente da maior potência capitalista do planeta, é de esquerda?

E o presidente da Venezuela? Não há dúvida de que ele apoia o regime comunista cubano e que critica a três por dois os Estados Unidos, mas é para eles que vende a maior parte do petróleo que seu país produz. É verdade também que tem estatizado empresas e ameaçado os capitalistas venezuelanos. No entanto, no plano internacional, alguns de seus aliados mais importantes são aqueles mesmos aiatolás, devotos fanáticos tanto de Alá quanto do capital.De qualquer modo, à falta de melhor qualificação, pode-se dizer que Hugo Chávez é de esquerda, mas uma esquerda que, em vez de pregar a luta de classes entre a burguesia e o proletariado, explora as contradições entre os ricos e os pobres. Deve-se concluir que os programas assistencialistas, tipo o Bolsa Família, são revolucionários?

Esse deslocamento do conflito entre classes sociais é, aliás, um traço que define certa discutível esquerda latino-americana. O processo histórico mostra que, se a classe operária foi, no passado, a esperança dos revolucionários de esquerda para derrotar o capitalismo, hoje, serve como poder de barganha da elite sindical que, graças a ela, conquistou posições importantes no aparelho de Estado, tornando-se uma espécie de nova classe -os "neopelegos".

Esse fenômeno, no Brasil, alcançou sua plenitude com a ascensão do PT ao poder central do país, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva -fenômeno que deve estar sendo estudado pelos cientistas políticos, enquanto eu me limito a registrá-lo, a partir do que observo no dia a dia.

A referida mudança mostrou-se claramente quando Lula, derrotado em três eleições seguidas para presidente da República, afirmou que, se fosse para perder de novo, não se candidataria mais. Até ali, ele encarnara o papel de líder operário radical, cujo único "programa" era acabar com a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas. Como o faria, nunca disse.

Aliás, é característica desse tipo de esquerda fazer crer ao povo que, como por milagre, sua simples chegada ao poder porá fim às desigualdades sociais, uma vez que elas seriam o resultado da deliberada exclusão com que os ricos (malvados, por natureza) castigam os pobres. Claro que eles sabem muito bem que elas são consequências do processo histórico, que encontram no capitalismo sua expressão atual. O desmonte do modo de produção capitalista na URSS, após a revolução de 1917, resultou em duas décadas de estagnação econômica e fome. É que, nesse terreno, não há milagres.

Lula, que jamais pretendeu fazer revolução, decidiu pôr a bola no chão e dizer a que veio.

Aderiu à política econômica de FHC, que dera certo, e prometeu respeitar as regras do jogo capitalista; assim, mesmo sem nenhum projeto para o país, ganhou as eleições.

Pouca gente acreditou que a mudança de Lula fosse para valer, mesmo quando ele escolheu para vice um empresário. Com o PT, surgira o novo pelego, que, disfarçado de revolucionário, igualou seu poder ao do empresariado e, finalmente, chegou à Presidência da República.

Mas o mito do operário redentor se manteve. Assim, Fernando Henrique Cardoso, ao passar a faixa presidencial a Lula, afirmou que se sentia orgulhoso de fazê-lo a um representante da classe operária. Mera gentileza. De fato, passava-a a um membro da elite sindical, que, para tranquilidade geral do empresariado, entretém os pobres com benesses, à custa do aumento de impostos, que todos nós pagamos.

De qualquer modo, entendo que a dificuldade de definir, hoje, esquerda e direita é consequência do avanço das ideias progressistas. Conhece alguém que se oponha à construção de uma sociedade justa? Eu não conheço. Difícil mesmo é chegar lá.

Alberto Dines :: A década das cuecas

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Estadistas prometem prosperidade, cientistas garantem a longa vida, escritores oferecem sabedoria e sacerdotes, a imortalidade. Nesta virada de ano vale tudo, lástima que os exaustos publicitários não perceberam a infinita utilidade destas peças do vestuário íntimo, de repente levadas às manchetes pelos ventos da notícia.

Cuecas, no Brasil, pudicamente designadas como roupas de baixo, são ferramentas valiosas. Sobretudo na esfera legislativa. Indispensáveis para a consumação da corrupção política, complemento do caixa dois, cofres fortes porém levíssimos, sem segredos, inexpugnáveis.

Agora o terrorista nigeriano da Al-Qaeda descobriu que cuecas podem substituir as maletas 007 e carregar mortíferos arsenais de destruição em massa. Nem James Bond ou Batman poderiam imaginar um kit terrorista tão perfeito. E – desculpem – tão paradoxal: se o prêmio pelo martírio do fanático são onze mil virgens à sua espera no paraíso, guardar o pó explosivo nas cuecas seria, digamos, desperdício.

A direita americana está exultante: desde o caso Bill Clinton–Monica Lewinsky (em meados dos anos 90) que os herdeiros da Ku Klux Klan não se animam a botar a boca no trombone com tanto gosto. Antes queriam pedir o impeachment do democrata por causa do vestido da estagiária da Casa Branca manchado pelo sêmen presidencial. Agora querem culpar Barack Obama pela ineficiência dos órgãos de segurança americanos alimentada ao longo dos últimos oito anos pelos alucinados procedimentos de George W. Bush.

Os aloprados de Osama Bin Laden conseguiram o que queriam: criar a histeria das cuecas. Tal como aconteceu em dezembro de 2001, também perto do Natal, criaram o não atentado com efeitos morais mais devastadores. O "martírio" de Richard Reid estava previsto para não consumar-se, os explosivos que levava nos tênis não deveriam detonar. Sua "tarefa" era criar o pânico mundial e, assim, condenar ao ostracismo o calçado-símbolo da modernidade ocidental. Conseguiu: agora, além de cintos e bolsas, os viajantes que vão e voltam dos EUA são gentilmente convidados a descalçar seus tênis. Logo desistirão de viajar com eles, mais uma vitória da jihad islâmica.

A não façanha do terrorista-aprendiz Umar Faruk Abdulmutallab é ainda mais diabólica, satânica: ao ser flagrado com 80 gramas do inocente pozinho branco nas cuecas o terrorista criou uma série de constrangimentos de proporções globais e ainda não devidamente avaliados: como detectar o perigoso pozinho branco no recôndito das cuecas e como diferenciá-lo do açúcar?

Na policialesca China que acaba de executar o taxista britânico que entrou no país com alguns quilos de coca refinada, o problema será gigantesco: alguém precisará cheirar e classificar o pó. Se entrar num "barato", tudo bem. Se explodir, tudo mau.

O mundo sofreu drásticas transformações por causa das letras móveis inventadas por Gutenberg, da máquina a vapor desenvolvida por James Watt, do balão dirigível de Santos Dumont e da desintegração atômica concebida por Robert Oppenheimer. Peças de roupa também produziram extraordinárias revoluções, a mais importante decretada pelas feministas quando queimaram seus sutiãs.

Seria possível um mundo sem cuecas? Eis a questão. Nossos corruptos conseguirão carregar maços de notas apenas nas meias? Ceroulas não seriam mais produtivas numa avaliação custo-benefício? Com o aquecimento global a COP-16 não deveria estabelecer o modelo samba-canção, mais arejado e devassável? E então, por despeito, o bolivariano Hugo Chávez não lançará a cueca-bolero, solta, pintada de coqueiros, absolutamente isenta de perigo? E por que este ressentimento antimasculino – calcinhas femininas não poderiam carregar igualmente as fatídicas 80 gramas de PETN?

Tudo seria possível na década inicial do século 21, marcada por tantas e tão transcendentes polarizações. Decênio encerrado, transição, idem. Hora de acordar.

» Alberto Dines é jornalista

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Batalha de Itararé

A crise militar às vésperas do Natal não passou de uma Batalha de Itararé, famoso episódio da Revolução de 30, que passou para a história como um confronto armado que simplesmente não ocorreu. A cidade do interior paulista havia se preparado para barrar a passagem de Getúlio Vargas rumo ao Rio de Janeiro, mas houve a deposição de Washington Luiz antes disso e os revoltosos assumiram o poder. O trem de Getúlio cruzou a cidade em clima de festa.

A criação de uma comissão especial para investigar casos de tortura e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura militar (1964-1985) desagradou muito aos militares, mas não partiu dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica o pedido de demissão coletiva. Partiu do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que recebeu a solidariedade dos comandantes militares. O caráter da comissão especial, segundo o texto aprovado, praticamente revoga a Lei de Anistia de 1979. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o texto em Copenhague, sem prestar atenção aos detalhes. Agora, promete revê-lo. --> --> -->com guilherme queiroz

Incongruência

Dos 15 partidos com bancadas na Câmara dos Deputados com direito a cargos de natureza especial, apenas cinco possuem número de funcionários em acordo com a cota definida. Três legendas têm mais doque prevê a norma. O DEM, por outro lado, tem sete a menos.

Gula/ Nas discussões iniciais acerca da reforma administrativa do Senado, que inclui o reajuste das carreiras da Casa, consultores levaram sua proposta pedindo piso da categoria em R$ 24.280. O valor não levou em conta as inúmeras gratificações pagas aos funcionários do Senado, o que os levaria a extrapolar o teto de salário do funcionalismo público.

Bloquinho/ A perspectiva de uma disputa polarizada entre PT e PSDB para o governo de Minas Gerais tem levado os partidos da esquerda a discutir a formação de uma aliança proporcional, deixando o PT sozinho para fazer sua bancada na Câmara dos Deputados. A coalização deve contar com PCdoB, PSB e PDT, além do PV.

Livre/ Egresso do PMDB para aderir ao PR do ex-governador Anthony Garotinho, o deputado Geraldo Pudim (RJ) é o primeiro parlamentar da leva de infiéis que trocaram de legenda, a um ano das eleições, a conseguir se livrar do risco de cassação no Tribunal de Superior Eleitoral (TSE).

Acordo


Jobim (foto) pediu demissão porque se sentiu desautorizado, uma vez que havia acordado as modificações com os ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi. Diante da atitude de Lula, o ministro da Defesa reconsiderou a questão. Os comandantes militares simplesmente acompanharam a decisão. E fizeram um pacto de silêncio para aguardar a revisão do texto.

Regime

Paulo Vannuchi (foto), porém, resolveu manter o debate. Está demissionário. Se houver a mudança exigida por Jobim, pretende pegar o boné e ir para casa. Porém, seu argumento de que a tortura foi ato isolado de alguns integrantes das Forças Armadas contraria a verdade histórica. Nos anos de chumbo foi uma política de Estado adotada pelo regime para combater a oposição, principalmente os grupos armados. Mas, na abertura política, a tortura saiu do controle da cúpula das Forças Armadas. Por isso, a punição dos torturadores é uma revisão radical da Lei de Anistia que não poderia se restringir a eles exclusivamente. Cumpriam ordens de cima.

Fora…

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre políticas públicas de mudanças climáticas mostra que assentamentos na Amazônia Legal não atendem à legislação ambiental. Dos 2.947 existentes na região, apenas 735 tiveram suas licenças solicitadas aos órgãos responsáveis de cada estado. A situação é mais precária no Pará, campeão de desmatamento, com 10% de projetos licenciados.

… da ordem

O dado é preocupante porque aponta que o número de assentamentos na Amazônia Legal com pedidos de licenciamento já apresentados está abaixo da média nacional. Nos demais estados do país, 56% dos assentamentos acionaram os órgãos ambientais, contra 46% nos estados tocados pelo bioma amazônico.

CHARGE

Jornal do Commercio (PE)

Partido que tem uma única cara

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Lula continuará mandando na legenda mesmo depois de deixar a Presidência, no fim do ano, independentemente do resultado das urnas nas eleições presidenciais de outubro

Patrícia Aranha

Não há um PT pós-Lula. O presidente, que está no último ano de mandato, continuará dando as cartas no partido que fundou há 30 anos, mesmo que a candidata que escolheu como sua sucessora, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, não vença a eleição presidencial. Qualquer que seja o resultado, acreditam os analistas, Lula poderá estar de volta ao Planalto daqui a quatro anos. Todos os passos dados por ele em 2009 indicam que tem fôlego para tanto. O motivo é um só: não existe no partido ninguém com o carisma e a popularidade do presidente.

O partido enfrenta este ano a sua primeira eleição presidencial sem Lula como candidato, mas, se depender do Planalto, a disputa se dará como se ele ainda estivesse no páreo. É o que o governador Aécio Neves (PSDB) chamou de “armadilha da eleição plebiscitária”, quando conclamou o PSDB a não cair nela. Essa seria a primeira constatação de que Lula não tem intenção de deixar o poder, depois de descer a rampa.

O sociólogo Rudda Ricci, um ex-petista que fundou o partido em São Paulo, lembra que, por colar sua imagem à da ministra-candidata, uma eventual vitória de Dilma será creditada exclusivamente a Lula. “Se Dilma ganhar, cede a vez a Lula em 2014. Se for José Serra (PSDB) o vencedor, ele terá que disputar com Lula daqui a quatro anos. O que ouvi até de alguns ministros é que, assim que deixar o governo, Lula vai chefiar um instituto para se dedicar à África, consolidando um perfil de estadista mundial de olho no retorno a Brasília. A história do PT continuará atrelada a história do Lula pelo menos nos próximos 10 anos”, apostou.

Um dos signatários do manifesto de fundação do PT, o mineiro Wagner Benevides, também aposta na volta de Lula. “Se Dilma fizer um bom governo, Lula tem muitas chances de voltar, mas, se por um motivo qualquer, perdermos a eleição para o Serra, Lula é o melhor nome para recuperar a Presidência”, afirma.

Trator

A decisão do presidente Lula de comandar a sua própria sucessão fez estragos na democracia interna do partido. A cientista política Sandra Starling, apesar de filiada ao PT, avisa que não vai pedir votos para Dilma “Não faço parte desse PT submisso ao lulismo. Sou tão fundadora do partido quanto o presidente. Como se fosse um imperador, Lula indicou uma pessoa que o partido não conhece direito, que precisa ser apresentada à militância pelo país afora”, criticou.

A pouca vivência partidária de candidata indicada por Lula é lembrada pelo cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG, como um fator que poderá, num eventual governo Dilma, separar ainda mais o partido do governo. “Como lideranças históricas do partido, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente José Genoino perderam viabilidade eleitoral depois do escândalo do mensalão, a escolha de uma candidata não identificada com o petismo parece fazer sentido. Lula, que já havia separado partido e governo no segundo mandato, parece mais interessado em preservar o lulismo. Se Dilma vencer, a separação entre estado e partido será muito maior”, avalia.

Aproximação com tucanos

O sociólogo Rudda Ricci, que está escrevendo um livro sobre o lulismo — considerado por ele como um neogetulismo, referindo-se ao potencial político eleitoral do carisma do ex-presidente Getúlio Vargas, que prevaleceu sobre o PTB — acredita que só haverá uma outra reconfiguração política, sem a volta de Lula ao Planalto, se houver aproximação entre PT e PSDB, o que já foi admitido tanto por Lula quanto pelo governador Aécio Neves (PSDB).

“Se Aécio Neves se eleger senador este ano e o Serra não vencer as eleições, há grandes chances de aproximação entre PT e PSDB no futuro. Não seria uma fusão, mas uma nova configuração política, com uma aliança entre os dois partidos que polarizam a cena há mais de 10 anos. O PSDB não paulista tem tudo para se aproximar do lulismo e teremos uma nova configuração política em que Aécio pode até ser o presidente”, arrisca.

Para ele, a aproximação será facilitada se o PT mineiro não vencer as eleições para o governo. “Para que este cenário de aproximação aconteça são muitas as variáveis. O Patrus Ananias (ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) precisa perder a disputa interna para o Fernando Pimentel (ex-prefeito de Belo Horizonte), que é mais próximo de Aécio. Depois, o PT precisa perder o governo mineiro para o PSDB ou para um PMDB ligado a Aécio, e Serra precisa perder a disputa presidencial. Pelos cenários apresentados até agora, todas as variáveis são mais do que possíveis”, argumenta.

Matriz

Já a cientista política Rachel Meneguello, estudiosa do PT, não acredita em aproximação com o PSDB. “Não vejo uma junção possível. Os partidos têm matriz de formação distinta, têm projetos de poder distintos, agendas políticas de governo com diferenças importantes”, argumenta.

Para Meneguello, a principal herança de Lula deverá ser avaliada pelas urnas, na capacidade dele de transferir votos para a candidata do PT. Mesmo sem ser o candidato em 2010, Lula continua como referência para os filiados que devem vestir a camisa de Dilma Rousseff.

O efeito sobre o restante do eleitorado, é difícil de prever. “Para dentro do PT, a aderência entre Lula e o candidato do governo terá um caminho natural. Para o eleitor , essa aderência é potencial, mas incerta. É o que precisamos dimensionar já na campanha”, avalia. (PA)

Goethe e a chama viva da verdade

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / Caderno 2

Composto por dois textos, Ensaios Reunidos, de Walter Benjamin, é estudo aprofundado sobre o legado do autor alemão

Marcelo Backes, Especial para O Estado

Walter Benjamin é um pensador que sabe avaliar o fio e o peso de seu instrumento crítico. Os dois textos de Ensaios Reunidos - Escritos Sobre Goethe (tradução de Sidney Camargo, Irene Aron e Monica K. Bornebusch) são bem diferentes um do outro e a sugestão é, desde já, começar pelo segundo. Intitulado Goethe, ele abre o panorama e faz um esboço geral em que o primeiro fecha o foco e disseca o particular. Goethe foi concebido entre 1926 e 1928 como texto para a Grande Enciclopédia Soviética, As Afinidades Eletivas de Goethe foi publicado em duas partes em 1924 e 1925 na revista Neue Deutsche Beiträge.

Goethe começa pela aversão de Goethe à metrópole e logo mostra ser um artigo de enciclopédia, mas com caldo. A trajetória do autor é comparada com a de outros autores fundamentais. As mudanças sociais, a perspectiva histórica e as contingências biográficas - as mulheres que marcaram sua vida, a presença de sua atividade palaciana na segunda parte do Fausto - não ficam de lado. Há constatações perspicazes como a de que a poesia alemã só se libertou da esfera da descrição, do didatismo e da narração a partir dos poemas de Goethe.

Benjamin chega a discutir as obras "científicas" do maior dos clássicos alemães, sobretudo na medida em que esclarecem pontos importantes de suas obras ficcionais e dramáticas. Goethe é comparado com Voltaire e sua relação com Schiller é dissecada, assim como seus grandes erros de apreciação - ele foi incapaz de avaliar a importância de Jean Paul, Kleist e Hölderlin. Num belo momento, Benjamin fala do ceticismo do autor diante da sede de rapidez e de riqueza do mundo moderno - a contemporaneidade autofágica teria muito a aprender - e do paralelo que este vê entre sofisticação e mediocridade.

Sobretudo no ensaio As Afinidades Eletivas de Goethe, Benjamin mostra momentos de profundidade ímpar: "O ser humano não escapa ao infortúnio que a culpa chama sobre ele." O ensaio já começa com a diferenciação teórica entre comentário (que busca o teor factual) e crítica (que busca o teor de verdade de uma obra). A verdade logo é caracterizada como "a chama viva" que "continua a arder sobre as pesadas achas do que foi e sobre a leve cinza do vivenciado".

Este primeiro ensaio pressupõe a leitura do romance e não apresenta uma descrição antecipada do enredo, mergulhando fundo no caráter simbólico e no fundamento mítico da obra. A biografia recebe a devida importância mais uma vez e As Afinidades Eletivas revelam o produto vigoroso de um indivíduo e de uma época peculiares. O crítico sabe dar valor a seu objeto, recuperando um diálogo em que Goethe respondeu a uma mulher que alegou não suportar a imoralidade do romance: "Sinto muito, é na verdade o meu melhor livro." Benjamin também percorre o caminho da crítica anterior a ele. O tom chega a ser sarcástico quando diz que o Goethe de Friedrich Gundolf é o tosco pedestal da estatueta do próprio crítico. A percepção aguçada do detalhe faz Benjamin parar no fato de provavelmente não haver, em qualquer literatura, uma narrativa da mesma extensão em que apareçam tão poucos nomes. Especulativo aqui e ali, ele chega a dizer de Goethe: "O medo é a raiz das omissões em sua vida erótica."

Benjamin discute o significado do casamento indo além das Afinidades Eletivas, cercando o assunto com a teoria de vários filósofos, a começar por Kant, para daí chegar à abordagem de Goethe. Usa também outras obras, anotações, cartas e comentários do autor, registrados por Eckermann e companhia. Traça, ainda, uma linha que leva a outras obras de Goethe e relaciona a Ottilie das Afinidades à Mignon do Wilhelm Meister e à Helena do Fausto. Ao final, resta a grande pergunta. Onde reside, na vida dos cônjuges, o passo em falso? "Na indecisão de outrora ou na infidelidade do presente?" E em que medida o empreendimento não era equivocado desde o princípio? Já passa da hora de falar um pouco do enredo, para dar fundamento ao meu e ao discurso de Benjamin.

O romance As Afinidades Eletivas é de 1809 e seria um mero interlúdio novelesco de Os Anos de Peregrinação de Wilhelm Meister, mas acabou crescendo a ponto de ganhar autonomia. Eduard e Charlotte se unem para viver livres e felizes num recanto distante depois de terem tido, ambos, casamentos convencionais. A promessa duvidosa de paz se quebra quando Eduard quer chamar até eles um velho amigo em necessidade, o capitão Otto. Charlotte se recusa a aceitar a ideia, mas depois concorda e traz sua sobrinha Ottilie para ajudar nos trabalhos de casa. Eduard se sente cada vez mais atraído por Ottilie, enquanto Otto e Charlotte se mostram decididos a não cair em tentação. A criança que nasce depois de uma noite de amor e "traição espiritual" entre os cônjuges é muito parecida com Otto e Ottilie (eis, aliás, uma chave interpretativa para um dos maiores romances brasileiros, publicado quase um século mais tarde: Dom Casmurro, de Machado de Assis). Depois disso, seguem-se uma série de catástrofes, que abandono ao prazer do leitor.

Goethe faz um estudo aprofundado do embate entre o mundo institucional do casamento e o mundo livre das paixões, entre as normas civilizatórias e a barbárie dos instintos, terminando por concluir que os esforços da razão sempre titubeiam diante da força destruidora das pulsões. Fazendo propostas ensaísticas que lembram o Freud de O Mal-Estar na Civilização, Benjamin disseca o romance e mostra mais uma vez que é um crítico com os pés no chão, mas que sabe alçar o voo ousado que leva da arte à vida.

Marcelo Backes é escritor, tradutor e ensaísta, doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha, é autor de Estilhaços e maisquememória, entre outros

Janio de Freitas :: O passado pela frente

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Estamos postos diante do risco de voltar à instabilidade das instituições democráticas e a um passado sem anistia

Demitiram-se, ou ameaçaram demitir-se, ou ameaçam ainda -depende do informante da notícia, ou ondeiro-, não faz diferença para as interrogações que os comandantes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, com a companhia do ministro Nelson Jobim, da Defesa, lançam sobre o regime democrático e o conceito otimista obtido pelo Brasil nas relações internacionais.

Duas possibilidades estão postas à nossa frente, com a recusa das chefias militares a admitir a vigência, no Plano Nacional de Direitos Humanos assinado por Lula, dos itens que podem questionar a impunidade dos crimes hediondos da repressão na ditadura. Uma delas é de que Lula recue do seu decreto e dele retire a pretendida Comissão da Verdade, além de outros itens; ou adote uma fórmula que evite a retirada explícita, mas resulte na mesma invalidade. O que restar da imagem de Lula no exterior e do conceito do Brasil será millagre, só por restar.

A outra possibilidade é de que, sem recuo ou fórmula ilusória de Lula que satisfaça os comandantes militares, os três e seu ministro demitam-se em represália. Os substitutos escolhidos para os três não aceitem, nem os novos escolhidos, por esperável solidariedade corporativa, decorrente de que a impunidade dos autores de crimes hediondos da ditadura tornou-se um princípio militar brasileiro. É o impasse. E então, o que virá, o que farão os chefes militares e seu estimulante advogado Nelson Jobim?

O impasse será a crise da democracia brasileira. Forças Armadas sem convivência com o governo e o governo sem poder de impor-se. A "solução", em qualquer de suas variadas formas, é nossa velha conhecida. Mas as Forças Armadas não aderiram às convicções democráticas? Bem, tempo para isso não faltou, no quarto de século desde que constataram a impossibilidade de dominar pela força o seu próprio país.

É verdade que a Anistia, como dizem os militares, foi entendida e aceita em sua promulgação como plena e igual para os "dois lados". Foi uma concessão dos militares e da direita civil em proveito seu, por temor aos tribunais, e aceita pela esquerda e pela demais oposição para aplacar a sua ansiedade, bem brasileira, de ver os exilados e os presos de volta ao ninho. O PMDB, Ulysses Guimarães à frente, cuidou do entendimento para aprovação da Lei da Anistia. Os militares tiveram mais dificuldade de concordância entre si do que as oposições, porque a ideia de esquerdistas em liberdade excitava o ódio de um sem-número deles. Por isso toda a protelação veio dos militares, não de maior reflexão ou condições dos oposicionistas.

Mas, como diz o lugar comum do direito, sobrevieram fatos novos. A reinstalação do regime civil aumentou o desejo e as condições de conhecer o que foi, por dentro, o exercício da repressão pelos militares. Horrores jorraram de narrativas e descobertas por anos e anos, e não cessaram ainda. E esta foi a constatação primordial: ao passo que, por ocasião da Anistia, tudo era sabido das ações contra o poder militar, aos militares foi anistiado sobretudo o que deles não era sabido.

Concluir esse conhecimento é indispensável para encerrar a herança da ditadura, embora não seja a única necessidade. No entanto estamos postos diante, não desse conhecimento terminal, mas do risco de voltar à instabilidade das instituições democráticas e, daí, a um passado sem anistia possível. Com o Brasil de volta a republiqueta.

Elio Gaspari ::Não foi o PT nem o PSDB, foram os dois

DEU EM O GLOBO

Desde 1996 a linha da melhoria da vida do andar de baixo é contínua, sem inflexões

O professor Claudio Salm investigou os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1996 e 2002 (anos tucanos) e daí a de 2008 (anos petistas). Ele verificou que a ideia segundo a qual Nosso Guia mudou radicalmente a vida do andar de baixo nacional é propaganda desonesta. Estimando-se que no andar de baixo estejam cerca de 50 milhões de pessoas (25% da população), o que se vê nas três Pnads estudadas por Salm é uma linha de progresso contínuo, sem inflexão petista.

Em 1996, quando Fernando Henrique Cardoso tinha um ano de governo, 48,5% dos domicílios pobres tinham água encanada. Em 2002, ao fim do mandato tucano, a percentagem subiu para 59,6%. Uma diferença de 11,1 pontos percentuais. Em 2008, no mandato petista, chegou-se a 68,3% dos domicílios, com uma alta de 8,7 pontos.

Coisa parecida sucedeu com o avanço no saneamento. Durante o tucanato, os domicílios pobres com acesso à rede de esgoto chegaram a 41,4%, com uma expansão de 9,1 pontos percentuais. Nosso Guia melhorou a marca, levando-a para 52,4%, avançando 11,3 pontos.

O acesso à luz elétrica passou de 79,9% em 1996 para 90,8% em 2002. Em 2008, havia luz em 96,2% dos domicílios pobres.

Esses três indicadores refletem políticas públicas. Indo-se para itens que resultam do aumento da renda e do acesso ao crédito, o resultado é o mesmo.

Durante o tucanato, os telefones em domicílios do andar de baixo pularam de 5,1% para 28,6%. Na gestão petista, chegaram a 64,8% das casas. Geladeira? 46,9% em 1996, 66,1% em 2002 e 80,1% em 2008.

O indicador da coleta de lixo desestimula exaltações partidárias. A percentagem de domicílios pobres servidos pela coleta pulou de 36,9% em 1996 para 64,4% em 2008. Glória tucana ou petista? Nem uma nem outra. O lixo é um serviço municipal.

Nunca antes na história deste país um governante se apropriou das boas realizações alheias e nunca antes na história deste país um partido político envergonhou-se de seus êxitos junto ao andar de baixo com a soberba do tucanato.

Suely Caldas :: 'FT': mérito de Lula é continuar FHC

EU EM O ESTADO DE S. PAULO

A cotação do presidente Lula está em alta na Europa. Escolhido o "Homem do Ano" pelos jornais Le Monde (francês) e El País (espanhol), o inglês Financial Times (FT) listou-o entre as 50 personalidades que moldaram a primeira década do século 21. Ao justificar a sua escolha, o jornal britânico tratou de dividir o sucesso de Lula com seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Sobre sua popularidade, destaca: "O que faz os brasileiros amarem Lula é a baixa inflação" - herança do Plano Real da era FHC. E lembra que, quando oposição, Lula criticou duramente as ações da política econômica do antecessor, "mas foi esperto o suficiente para mantê-las".

Faltou ao FT dizer que no Congresso, nos comícios, nas campanhas eleitorais, nos sindicatos e nas ruas Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) trabalhavam para derrubar, uma a uma, as ações de política econômica que eles trataram de preservar quando chegaram ao governo. Quem viu Lula e o PT em campanha contra as privatizações, com xingamentos agressivos, não o imaginava dois anos depois desautorizando o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, a tentar reestatizar a Vale. "Não quero que meu governo passe a imagem de que somos contra e vamos desfazer as privatizações", advertiu Lula em 2003.

Mas o FT está certo em cutucar Lula naquilo que ele jamais admitiu e, pior, nega quando fala a respeito. Por mais oposição que tenha praticado antes, nenhum líder político começa a governar seu país com atitudes de ruptura com o que encontrou. "Vamos mudar tudo que está aí", prometiam Lula e companheiros. A expressão não diz nada, é oca, vazia, não especifica o que vai mudar, mas é boa de marketing popular e péssima como mensagem de governo. Deu no que deu em 2002, com o dólar beirando R$ 4 e o risco País chegando a 3 mil pontos.

"Nunca antes na história deste país", continuou Lula depois que virou presidente. Arrogante, esquece que apenas deu continuidade àquilo que herdou. Ele costuma glorificar os avanços de seu governo na área social. Realmente o Bolsa-Família é um programa social bem-sucedido, elogiado por outros governantes, pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas Lula omite que o programa foi criado no governo anterior e que a sua mais genial inventividade - a estrutura de um cadastro das famílias de alcance nacional e o cartão bancário que eliminou a secular e corrupta intermediação dos políticos - foi concebida por uma equipe de economistas, entre eles Ricardo Paes de Barros, que os petistas rotulavam de tucanos neoliberais. Na época, o Instituto da Cidadania, ligado ao PT, apresentava ao País um es-drúxulo plano para eliminar a fome, com um fundo alimentado por uma taxa cobrada em gorjetas de restaurantes. Lula podia criticar a quantia de apenas R$ 15 que FHC dispensava às famílias por filho na escola e lembrar, com justiça, que sua gestão elevou o valor e ampliou o cadastro de famílias, mas não é ético tomar a si a autoria do programa, que não lhe pertence.

Ainda na série "nunca antes na história deste país", sua única concessão foi dirigida ao ditador João Baptista Figueiredo, ao afirmar que só o general construiu mais casas do que ele, mas omite e não reconhece um fato bem mais recente vivido na democracia: é o sistema de câmbio flutuante e metas de inflação, criado na gestão Armínio Fraga no Banco Central, e com sabedoria mantido por ele e Henrique Meirelles, que mantém a inflação baixinha e garante sua popularidade.

É justo constatar que o País progrediu no governo Lula. Ele e sua equipe de petistas demoraram a aprender, tropeçaram nas Parcerias Público-Privadas, tomaram decisões erradas quando tentavam inventar - caso do programa Meu Primeiro Emprego. E levaram o País ao retrocesso político ao tolerarem, não punirem e até incentivarem a corrupção, ao lotearem cargos técnicos com apadrinhados despreparados e mal-intencionados, ao interferirem politicamente em funções do Estado que existem para servir ao cidadão, e não aos interesses do governo. Não fizeram as reformas, na política diplomática não chegaram a contar vitórias e continuam errando no plano político-institucional.

Mas é legítimo reconhecer os méritos: a economia cresceu e milhares de empregos foram criados, a área social ganhou impulso, surpreendentemente o País saiu da crise antes do esperado e a última pesquisa do IBGE sobre o Produto Interno Bruto (PIB) trouxe a boa notícia: o investimento produtivo voltou e tudo indica que de forma sustentada. O futuro, portanto, é promissor e Lula ajudou a construí-lo. Mas não só ele. Ninguém é onipotente, muito menos quem tem responsabilidade de governar e preservar o que foi feito antes. O Brasil perdeu a década de 1980 inteira, sofrendo com uma inflação absurda que emperrava o progresso, impedia investimentos, concentrava a renda. Derrubar a inflação foi o primeiro passo para reverter esse quadro e começar a construir um novo País. E isso ocorreu com o Plano Real, em 1994, em pleno ano eleitoral e apesar da oposição de Lula e do PT, que decretavam vida curta a "este plano eleitoreiro".

Argentina - Ao contrário do Brasil, superar a crise não está fácil para a Argentina. É certo que foi afastado o fantasma da moratória (e todas as suas mazelas), que rondou o governo de Cristina Kirchner até meados de 2009, mas o acesso ao crédito internacional continua fechado e ajudando a alongar os efeitos da crise. Com a economia em recessão e a receita tributária em queda, o governo ampliou sua intervenção em negócios privados para buscar dinheiro e atenuar seu déficit fiscal, mas criou ambiente de insegurança e risco jurídico que causa fuga dos investimentos e impede a economia de decolar.

Sob intervenção há três anos, ninguém acredita nos indicadores econômicos do Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec). A previsão do governo de inflação entre 6% e 7% em 2010 é ignorada pelo mercado, que espera repetir os 15% de 2009. Fazer recuar a inflação a menos de dois dígitos, conseguir abrir as portas do crédito internacional e atrair investimentos são desafios que Cristina Kirchner vai enfrentar com dificuldades em 2010.

*Suely Caldas é jornalista e professora de Comunicação da PUC-Rio

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Rubens Ricupero :: Cair na real

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se algo ficou claro em 2009, foi que o ideal de uma efetiva governança mundial está tão longe quanto sempre esteve

Iniciado sob o signo da esperança da eleição de Obama, o ano termina com a realidade impondo de novo seus limites. O desemprego custa a baixar, apesar dos bilhões de dólares de estímulo; cada senador norte-americano exerce poder de veto para aprovar uma reforma modestíssima no sistema de saúde; o terrorismo e a guerra devoram vidas e fortunas no Afeganistão e no Paquistão; o conflito israelense-palestino se afunda no desespero; em Copenhague, diante de ameaça à civilização e à própria vida, políticos e diplomatas confirmam sua incurável mediocridade moral e humana.

Se algo ficou claro no ano de 2009, foi que o ideal de uma efetiva governança mundial está tão longe quanto sempre esteve. O fiasco de Copenhague é apenas o mais grave de uma longa série: a impossibilidade de um acordo de regulação financeira para evitar a próxima crise, a persistente incapacidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais, o fracasso das tentativas de solução dos conflitos do Oriente Médio. Se a ONU (Organização das Nações Unidas) emerge da conferência sobre o clima mais arranhada do que antes, o G20 e o G2, candidatos a substituí-la, não se saíram muito melhor.

Outra coisa que se tornou clara é que, contrariando a expectativa geral, Obama se revelou um presidente voltado essencialmente para temas domésticos. Seu apetite para liderar a reforma da governança global é, na melhor das hipóteses, intermitente e mais retórico do que real. Será em parte porque a crise não lhe deixa outra escolha. Ou por estar consciente de que a retomada da liderança norte-americana passa pela reconstrução de suas bases internas: economia, coesão social, qualidade da educação, saúde, pesquisa científica, autonomia energética. No fundo, não age muito diferente da China, empenhada em cuidar da própria casa.

Nesse vácuo, os problemas mundiais evoluem com lentidão exasperadora, os insignificantes como Honduras, os graves como o comércio, até os gravíssimos como o aquecimento global.

Mesmo em assunto estratégico de interesse de segurança dos Estados Unidos, como a nuclearização do Irã, Washington estaria inclinada a "terceirizar" a solução, isto é, a transferir, de modo tácito ou explícito, a um ataque israelense a responsabilidade de romper o impasse.

A decepção com Obama nasce, sobretudo, da tendência a desaprender que a inércia caracteriza a realidade social. Fora instantes raros em que onda irresistível varre a história, os problemas maiores só avançam em meio a retrocessos e a resistências. O fim do comunismo e da Guerra Fria, os Cem Dias de Roosevelt constituem exceções. O importante é que o sentido geral do processo seja positivo. É o que se vê na reforma da saúde, na recuperação gradual da economia, no desengajamento do Afeganistão com data marcada.

Até no clima, o que conta é que China e Estados Unidos não negam mais a ameaça, apesar de que precisam avançar muito para chegar a um ponto satisfatório. Aliás, exceto nas questões iraniana e israelense-palestina, as mudanças de 2009 encaminharam os desafios principais na direção certa. Os problemas deixaram de piorar como na era Bush e começam a mudar para melhor, embora pouco e devagar. Devia-se mudar o hábito verbal de dizer que se cai na real, como se fosse uma armadilha. À verdade só se pode subir, pois ela é que nos liberta de sonhos entorpecedores, dando-nos a lucidez e a coragem para ver e resolver os problemas.

Rubens Ricupero , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Celso Ming :: Gastança federal

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma das incógnitas para avaliar o desempenho da economia brasileira em 2010 é o comportamento das despesas públicas. Ninguém sabe até que ponto a gastança praticada a partir de 2009 pode desencadear ou a inflação ou um surto de desconfiança na capacidade do governo de segurar as rédeas da economia.

A decisão de prorrogar para o final de março a redução ou até mesmo a isenção de IPI para os setores de veículos, móveis e materiais de construção não teve a ver com políticas anticíclicas nem com a necessidade de manutenção do emprego. Foram providências notoriamente eleitoreiras, tomadas num momento de forte recuperação da economia.

Como o segundo turno das eleições acontece só em novembro, parece pouco provável que, até lá, esses estímulos sejam removidos. Mas não é aí que se concentra a disparada das despesas correntes do governo federal, que cresceram em 2009 cerca de 16% (dados até novembro), num ambiente de queda da arrecadação (de 4% no ano até novembro).

Os indicadores fiscais do País pioraram em 2009. O superávit primário (sobra de arrecadação para o pagamento da dívida) baixou de 3,7% do PIB em 2008 para alguma coisa próxima de 1,0%. Pode-se observar que, ainda assim, é um superávit. O problema é que o déficit nominal (que inclui os juros da dívida pública) aumentou de 1,47% do PIB em 12 meses até novembro de 2008 para 4,14% até novembro passado. E a dívida líquida subiu de 36,3% do PIB, seu ponto mais baixo, em novembro de 2008, para 43,0% do PIB em novembro de 2009.

Mas as estatísticas sobre a dívida bruta podem impressionar negativamente bem mais do que as da dívida líquida. Ela tem tudo para passar dos 70% do PIB, nível próximo dos 73% atingidos nos dias turbulentos de 2003.

Pior ainda, o aumento das despesas públicas não foi de uma vez, como acontece com os investimentos que, geralmente, não se repetem (como, por exemplo, os feitos numa hidrelétrica). Os investimentos do governo não passaram de 1% do PIB, ou pouco mais de 5% de todos os seus gastos (dados de 2008). Estão concentrados em despesas permanentes, que podem ser consideradas uma deformação do keynesianismo: salários, aposentadorias e assistência social.

Uma das razões pelas quais esse panorama não provocou forte reação negativa dos mercados é a de que, comparados com os números de alguns países ricos (dívida pública próxima dos 100% do PIB), os do Brasil são mais confortáveis. Além disso, a blindagem de US$ 240 bilhões em reservas externas tende a desencorajar a fuga de investidores.

Dois serão os focos a serem perseguidos pelos analistas em 2010: o comportamento da arrecadação e do superávit primário. Ao longo de 2009, a receita de impostos deve ter caído algo em torno de 3,7% em termos reais (descontada a inflação). A reativação da economia tende a provocar a reação das receitas.

No entanto, o governo se vê diante da necessidade de reduzir a carga tributária para restituir um mínimo de competitividade ao produto nacional, excessivamente onerado pelo custo Brasil.

O outro item a acompanhar é a capacidade de recompor o superávit fiscal. O fim da festa depende unicamente do governo. E, em ano eleitoral, esse é um projeto difícil de ser levado adiante.

Confira

Certo ou errado? Roberto Coutinho observa que, no dia 31, esta Coluna apresentou três números diferentes para a valorização do Índice Bovespa (mercado de ações): 82,70%, 136,57% e 142,75%. E pergunta: onde está o erro?

Os três estão certos. O que muda é a medida de valor. Estão, respectivamente, em reais, em euros e em dólares.

Quando se comparam os desempenhos entre as bolsas, não é adequado apresentar cada um em sua moeda. Mas quando se compara a evolução dos preços das ações da Bovespa com outras aplicações é melhor fazê-lo em reais.

Miriam Leitão:: Os dez chineses

DEU EM O GLOBO

A China estará no centro dos acontecimentos dos próximos dez anos. Isso é certo. Mas o que isso significa? Que a economia que mais cresce no mundo passará o Japão, mas não passará os Estados Unidos. Algumas das suas contradições ficarão mais agudas. Na cena política global, a China será a força que vai se contrapor aos Estados Unidos, numa nova bipolaridade.

Em 26 anos, entre 1978 e 2004, a China multiplicou por dez seu tamanho. O Império Britânico levou 70 anos — de 1830 a 1900 — para multiplicar o seu PIB por quatro. Quem registra a comparação é o historiador Niall Ferguson em artigo no “Financial Times”. No começo da década passada a economia americana era oito vezes maior do que a chinesa e no fim da década é de apenas quatro vezes. Jim O’Neill do Goldman Sachs, que criou a ideia dos BRICs, acha que em 2027 a China passa os Estados Unidos.

Entretanto, o mistério chinês não é apenas uma questão de projeção estatística.

O país tem dilemas agudos a enfrentar na década de 10.

Será possível continuar crescendo sem mudar o sistema político ditatorial? Se for, o mundo será mais imprevisível e perigoso.

O economista Marcelo Nonnenberg, do Ipea, acha que nesta década a China vai intensificar a mudança geopolítica global. Desde o fim da Segunda Grande Guerra, os países que mais ganharam importância geopolítica estavam ligados aos Estados Unidos: o Japão e a Alemanha, não por coincidência, os derrotados da guerra.

— A ascensão da China é um caso inédito. É um país com interesses próprios na Ásia e conflitos com seus vizinhos. O crescimento da China vai incomodar cada vez mais os Estados Unidos, mas isso não significa que ela vai substituir os Estados Unidos.

Falaram isso do Japão há 20 anos e a economia japonesa vem patinando — pondera Nonnenberg.

O especialista em comércio exterior Joseph Tutundjian acha que nos anos 10 a China vai superar o Japão, depois de ter superado a Alemanha em 2007 tornandose a terceira maior economia do mundo.

— O Japão é um país sem horizontes porque é uma população com idade avançada, muita poupança e que conquistou o que queria da vida. Os chineses, por outro lado, são os capitalistas mais vorazes da atualidade.

São jovens e querem ficar ricos o mais rapidamente possível — diz.

Esse enriquecimento tem sido concentrador de renda e baseado na espantosa falta de garantias trabalhistas mínimas. Tutundjian lembra que a primeira legislação trabalhista em três décadas, implantada em 2008, transformou acordos verbais entre empregadores e empregados em contratos formais e aumentou a proteção aos trabalhadores.

Resultado: em menos de um ano 67 mil pequenos negócios desapareceram.

Parte da competitividade dos produtos chineses vem da falta de garantias individuais dos trabalhadores.

Parte vem da manipulação cambial de um sistema de paridade informal entre o yuan e o dólar. Como o dólar se desvalorizou frente a todas as outras moedas no último ano, o yuan acompanhou os passos.

Essa política cambial é um fato perturbador no comércio internacional. O assunto tem incomodado cada vez mais os países e os especialistas, o que faz com que economistas como Paul Krugman, conhecido por defender o livre comércio, defendam barreiras contra produtos chineses.

Rodrigo Maciel, secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, diz que reformas trabalhistas e tributárias iniciadas a partir de 2000 vão se aprofundar nos próximos anos encarecendo a mão-de-obra chinesa e mudando a forma de produzir, com mais tecnologia e valor agregado.

No meio de tudo isso, lembra Maciel, o país passará por uma sucessão presidencial em 2013 quando termina o mandato de Hu Jintao. O sucessor seria Xi Jinping, atual vice-presidente que seria, segundo Maciel, menos conservador e que deve incentivar maior cuidado com questões ambientais.

Há certas leis das quais mesmo uma ditadura não consegue fugir. Uma população que se torna mais rica quer maior poder político.

O crescimento econômico acelerado traz danos ambientais que se tornarão limites ao crescimento. A tecnologia torna mais difícil controlar o fluxo de informações.

É neste ambiente de maiores tensões que a China vai realizar sua ascensão para segunda potência mundial nos anos 10.

Uma das consultorias mais respeitadas quando o assunto é China é a Dragonomics.

Ela aposta num cenário em que a China cresce a 8% ao ano na década de 10. Menos do que o crescimento recente. Nonnenberg acha que o país terá que se voltar mais para o mercado interno. Tutundjian acha que o mundo não verá um Nobel de literatura ou uma tecnologia de ponta vindos da China na próxima década porque falta a ela uma educação de qualidade.

Há uma dificuldade adicional em relação à China, lembrou, em artigo, Nouriel Roubini: suas estatísticas.

De repente eles fazem uma revisão do PIB de anos anteriores totalmente inesperada que altera todas as contas. Em artigo recente, o professor Victor Shih, professor da Northwestern, diz que os empréstimos não recuperáveis podem ter chegado a 31% do PIB no ano passado, com os estímulos para sair da crise.

Opaco, autoritário, quantitativo: esse é o poder que avançará ainda mais nos anos 10. Niall Ferguson diz que pode estar acontecendo o começo do fim da ascendência ocidental, iniciada há 500 anos com o renascimento, a reforma protestante e depois o iluminismo. Pode ser, mas para isso a China precisará mais do que um multiplicador de PIB. Iluminismos nascem das luzes do pensamento livre.

Com Bruno Villas Bôas

Silvio Tendler vai filmar a vida de Sarney, mas sem "perguntas inconvenientes"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Rodrigo Vizeu
Da Agência Folha


O presidente do Senado Federal, José Sarney (PMDB-AP), 79, deu sinal verde para o início da produção de um documentário sobre a sua vida.

O filme será dirigido pelo cineasta Silvio Tendler, que já levou às telas as biografias dos presidentes Juscelino Kubitschek (1956-1961) e João Goulart (1961-1964). Para Tendler, será "inevitável" abordar temas espinhosos da biografia do senador, mas não há intenção de acuar o entrevistado.

"Não vou fazer perguntas inconvenientes. O cinema não é obrigado a tocar nessas questões conjunturais, porque são passageiras", afirmou Tendler, que, ao mesmo tempo, promete não ser "chapa-branca" no filme. "Não é para encobrir, é para revelar", disse ele.

A Folha apurou que Sarney pediu ao cineasta, há cerca de um mês, que levasse sua história aos cinemas. A conversa ocorreu durante a gravação do depoimento do senador para o documentário que Tendler está fazendo sobre o presidente Tancredo Neves (1910-1985). Sarney -retratado em outro documentário, de 1966, por Glauber Rocha -insistiu no projeto nas últimas semanas.

Tanto o diretor quanto a assessoria do senador negam que a ideia tenha partido de Sarney.

"Estou querendo mapear a política brasileira sem preconceitos", disse o diretor.Tendler afirmou que ideologicamente se alinha mais a JK, mas que respeita Sarney.

"Fiquei fascinado com as coisas que ele sabe. É o político mais antigo do país. Vem do Maranhão e vira presidente. Em Brasília, vai conviver com reis, rainhas e presidentes", disse o diretor. Tendler disse que não vê problema em recorrer a financiamento público para fazer o documentário: "Vou entrar nos editais".

Sobre eventuais críticas a Sarney no filme, a assessoria do senador disse que as decisões cabem a Tendler, mas disse que, "se for para fazer chapa-branca, o presidente não está interessado, porque é um tiro no pé". A assessoria ressaltou, porém, que a história de Sarney tem um "saldo positivo" que "boa parte dos brasileiros não conhece".

Graziela Melo :: Brincadeira de fim da ano

Se foi o ano velho
que, de tão velho
já nem andar,
podia!

Deixou
Muita lama
confusão,
mistério!!!

Chuvas
Torrenciais
nevascas
glaciais

Muitos
no cemitério!!!

Alguma
Parca
alegria...

O ano novo
Está confuso

O que cá viu,
já pressentiu

Está quase tudo
Já fora de uso!!!

Além do mais
Muita coisa feia
Aluguel de perereca

Dinheiro na cueca
E também
dinheiro em meia!!!

O ano velho
pecou,
debochou,
mentiu, sacaneou e
cometeu abuso!!!


Rio de Janeiro, 02/01/10

Bom dia! - Escola Portatil de Música -Gilvan Filho/Descendo a Serra

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mauro Chaves :: Acreditar

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Neste comecinho de ano, muitos arrastam seu caminhão repleto de esperanças por uma estrada esburacada de decepções. Decepção quanto à demolição de valores a que se assiste na vida pública brasileira, na qual as ambições e os interesses individuais sufocam qualquer perspectiva de engajamento em benefício real da sociedade. Decepção quanto ao desprezo ao esforço do aprendizado e ao reconhecimento do mérito, já que o que mais vale, para crescer e ter as melhores oportunidades, é ligar-se às panelas de apaniguados e manipular o tráfico de influência.
Decepção quanto à facilidade com que se diz e desdiz, se condena e se absolve, se repudia e se bajula, como se os que ouvem afirmações - ou as assistem ao vivo e em cores - não tivessem capacidade alguma de retenção, de memória e muito menos de juízo moral. Mas, apesar de tudo, o negócio é acreditar.

Acreditar que ainda existem pessoas públicas decentes neste país - e que nem tudo o que existe se vê. Acreditar que há quem se preocupe, de fato, em diminuir a dor dos que sofrem, tanto quanto em deixar o caminho, livre de inveja, para os que vencem. Acreditar que o meio político brasileiro não é apenas o espaço das ambições individuais descontroladas, o campo de caça das vantagens escusas ou o depósito de acumulação de prebendas. Acreditar que o cenário político é também um espaço de beneficio coletivo - desde que os cidadãos exijam que o seja. Que é uma alavanca de crescimento, de desenvolvimento, de enriquecimento comum - desde que os cidadãos exijam que o seja. Então, acreditar no poder de exigência da sociedade.

Acreditar que os que passaram mais de duas décadas fingindo ser o que nunca foram e, depois, usurparam a paternidade do que pretendiam destruir finalmente se mostrarão por inteiro, sem disfarces, assumindo ao menos parte da culpa pelo que deixou de ser feito. Acreditar que a responsabilidade do poder, que experimentaram, os fará recuperar alguns pedaços de sua antiga integridade, que o exercício do poder, que praticaram, poderá gerar-lhes algo que os entusiasme acima do simples desfrute - ou seja, o verdadeiro prazer de se colocar a serviço dos necessitados cidadãos contribuintes. Acreditar que cessará a cultura do despreparo, a arrogância da ignorância e o orgulho da insuficiência. Acreditar que o estrago ético que causaram não é irreversível e que os bons padrões de comportamento haverão de retornar ao espaço público. Acreditar que o Executivo recuperará a majestade da imagem de chefia de Estado e governo, que o Legislativo se desfará de suas quadrilhas e o Judiciário acabará encontrando a arca perdida de sua credibilidade. Acreditar, então - por mais difícil que isso seja - que acabará a impunidade.

Acreditar no efeito multiplicador dos pequenos ânimos que restam: de luta, de sobrevivência, de recuperação, de cura. Acreditar no impulso impossível, no salto que se dá do fundo do poço quando se pensa que nem dá mais para pular. Acreditar nas reservas vitais esquecidas, no pequeno estoque de energia espiritual que sobrou, mas que ainda é suficiente para provocar a maior das viradas. Acreditar naquela misteriosa capacidade de resistir, que nos faz rezar para que não nos testem, pois, se nos testarem, aguentamos. Acreditar contra a evidência de que não tem mais jeito, a descambada é irrefreável, o mergulho é abissal, o plano inclinado é mais liso do que pau de sebo e não segura nada - acreditar, então, que o plano é móvel, que antes do fim ele pode erguer-se, reverter o curso da queda, reequilibrar-se. Acreditar na possibilidade de inverter o curso da guerra, mesmo sentindo-se as defesas desbaratadas - mas ainda contando com um último baluarte. Acreditar na teimosia dos resistentes, dos não desistentes, dos que não desertam. Acreditar até no acaso, se a expectativa deste é o fator único de esperança de vitória.

Acreditar neste sistema chamado democracia, assentado em arraigadas convicções, de liberdades civis, de direitos humanos inalienáveis, de consciência de cidadania, de representatividade política, social e regional, de escolha eleitoral, de respeito ao pensamento plural, à divergência, à legitimidade de voto e voz das minorias e, sobretudo, de acato à livre expressão e ao sagrado direito à informação. Acreditar que a excrescência da censura não sobreviverá, apesar de tanto se nutrir da adiposa covardia cívica. Acreditar que a democracia é capaz de produzir instituições duradouras, à prova de sobas e tiranetes, destinadas a atravessar séculos e forjar civilizações, com já faz em algumas partes do mundo.

Acreditar que um certo arqueólogo interplanetário, em alguma remota era futura, descobrirá, num ponto do universo, um grande monumento: a imagem desta criatura chamada ser humano, tão dolorosamente frágil e finita quanto imensamente forte e extensa. Acreditar que nossa espécie não terá sonhado em vão com a transcendência e a imortalidade, pois esta já existe no esforço de permanência das sucessivas gerações. Acreditar, então, que, apesar da devastação que temos causado, do consumo predatório e alucinado, do irresponsável desperdício, das agressões incontroláveis que temos praticado ao planeta, ainda temos condições de nos disciplinarmos para o mantermos, mesmo meio capenga, girando em algum ponto do universo. Acreditar que nos manteremos nele - pelo menos até podermos nos transferir para algum outro, por perto.

Sim. Acima de tudo, acreditar no recomeço.

Feliz ano-novo.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor.

Leandro Konder::O enigma da modernidade

DEU EM IDEIAS & LIVROS / JORNAL DO BRASIL

Livro que reabilita Marx discute a política como atividade própria do homem

Na área das ciências sociais, uma das novidades mais surpreendentes é o livro “o enigma do político”, com o subtítulo “Marx contra a política moderna”, de autoria de Thamy Pogrebinschi.

A autora mergulha fundo no texto de Karl Marx e, remando sempre contra a corrente, acentua os extraordinários méritos do pensador alemão. Na nossa época atual, não é pouca coisa alguém se dedicar a explorar as qualidades do filósofo socialista.

A idéia central exposta por Pogrebinschi é a de que em Marx se desenvolve uma crítica implicável à economia, tal como ela funciona a partir do modo de produção capitalista. Mas Marx não é hostil a um reconhecimento efetivo e radicalmente crítico dos valores políticos, no plano ontológico.

Segundo a interpretação de Pogrebinschi, há uma questão que nos desafia, a qual Marx teve a lucidez de abordar, porém não resolveu completamente em que consiste o político, como dimensão da atividade própria do gênero humano.

Quando a lógica do seu pensamento o conduz a enfrentar a questão da eliminação do Estado, fica no ar a dúvida: o que ocupará o lugar do Estado? Marx está consciente de que, extinto o Estado, os seres humanos continuarão a buscar elementos institucionais necessários à existência dos indivíduos nas sociedades.

Nas condições da modernidade, a sociedade civil opõe resistência tanto ao poder do Estado como à dinâmica perversa da associação que lhes é imposta. A divergência entre Marx e os anarquistas tem sido reconhecida como um debate que se prolonga em torno do tempo histórico da revolução: a sociedade será transformada do dia para a noite ou necessitará de todo um processo para transformá-la.

A autora empreende uma minuciosa pesquisa em torno das divergências de Marx com Bakunin. Mas seu trabalho ganha maior densidade quando se ocupa das formas de organização coletiva que os seres humanos vêm adotando em seus esforços para promover as modificações necessárias.

Para chegarem ao imprescindível comunismo, os estudos de Pogrebinschi mostra que o movimento da história surge como associação (Vereinigung) e não como união (Verein).

Por meio dessas categorias, a autora sustenta que Marx, pensando a simultaneidade da permanência e da mudança, momentos, dernidadeidade.nque Marx realizou no plano te.
anca de professores que a julgou. resgatou a categoria de superação/conservação do velho Hegel e foi capaz de esclarecer alguns aspectos significativos da concepção das transformações históricas – ao que tudo indica, um tanto graduais - promovidas de acordo com uma categoria proposta pela própria autora do livro: o desvanecimento do Estado.

Em sua origem, o livro foi uma tese de doutorado, elogiada merecidamente pela banca de professores que a julgou. Houve, porém, críticas que devem ser lembradas. È difícil enfrentar o desafio de analisar a teoria marxista do Estado, mantendo-se sistematicamente à margem dos escritos de Antonio Gramsci (e isso numa banca da qual participava o filósofo Carlos Nelson Coutinho, grande conhecedor da obra do marxista italiano).

Os leitores mais experientes também sentirão falta de uma contextualização das idéias de Marx que foram sendo, em alguns momentos, retrabalhadas pelo próprio Marx. A autora brasileira teve a perspicácia de aproveitar a contribuição do jovem Marx, mas não teve a precaução de assinalar pontos importantes das mudanças que Marx realizou no plano teórico.

Há certos aspectos de nossa realidade que, na análise crítica de Pogrebinschi, são um tanto enigmáticas. Marx não os resolve, porém nos ajuda a encarar o enigma da modernidade.

* Filósofo, colunista mensal deste Ideia.
O enigma do político
Thamy Pogrebischi
Civilização Brasileira
392 páginas
R$ 44,90