sexta-feira, 17 de agosto de 2018

José de Souza Martins: O Brasil do general

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Na opinião do general Mourão, candidato a vice-presidente da República na chapa do capitão Bolsonaro, em discurso num almoço na Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul (RS), o Brasil herdou a "indolência" dos indígenas, a "malandragem" dos africanos e o afã de "privilégios" dos ibéricos. Um negro e brancos ouviram essa fala em silêncio.

Na atual composição do povo brasileiro, isso nos diz que um eventual governo do capitão e do general minimizará uns 75% desse povo, pois no ver do general estamos aquém do que deveríamos ser. Sobram-lhe só 25% para governar, aqueles que o candidato não estigmatiza com os defeitos que nos atribui.

O general se reconhece pardo. Mas a "antropologia" do general é pobre e nada antropológica. Ele repete os estereótipos estigmatizantes que nos vêm desde o período colonial, o que era uma técnica de degradação para dominação da pessoa do cativo. Já desmentidos por nossa realidade histórica. Questionado, disse que sua concepção dos brasileiros não é preconceituosa. Mas não disse que é desconhecimento da história social do Brasil.

Muita coisa ficou fora do elenco de suas concepções sobre o nosso povo. Para não parecer preconceituoso, ele poderia ter dito que no rol dos denunciados e processados no escândalo do mensalão não há pardos nem negros. E que foi um culto magistrado negro que levou o processo até o fim, o ministro do STF, Joaquim Barbosa. Como não há nem pardos nem negros entre investigados, processados e condenados da Lava-Jato.

É uma pena que ele não lembre que numerosos negros lutaram pelo Brasil na Guerra do Paraguai. Oferecidos pelos brancos senhores de escravos no lugar de seus filhos brancos, convocados. Escravos não podiam ser soldados. Eram, então, alforriados para lutar pela pátria no lugar de sinhozinhos privilegiados. Nessa iniquidade, a Guerra do Paraguai criou no Brasil a equivalência de branco e negro: um negro valia um branco. A única malandragem do negro, nessa guerra, foi a de lutar e até a de morrer em lugar de filhos de senhores de escravos. O general tampouco disse qual era a malandragem nos canaviais e no eito dos cafezais em que o tronco e a chibata misturavam suor e sangue para produzir a doçura do açúcar e o ouro do café.

Só chegamos à agricultura e à indústria modernas graças ao legado do ranger de dentes de seres humanos transformados em coisas e em semoventes, arrolados nas listas de população como equivalentes de animais de trabalho. Ainda nos restam senzalas, em exíguos quartos de empregadas domésticas negras e mulatas que dormem o sono cansado de vítimas históricas da cruel malandragem do escravismo.

Durante dois séculos e meio, milhares de índios capturados no sertão foram reduzidos ao cativeiro. Pagaram em servidão vitalícia o preço de sua conversão forçada ao cristianismo. Qual preguiça, cara-pálida? Nossa literatura do século XIX reconheceu-lhes a paternidade simbólica da pátria. Durante esse longo tempo, nossos índios carregaram nas costas o pesado Brasil da preguiça branca.

Um dos maiores nomes do Exército brasileiro, o marechal Candido Mariano da Silva Rondon, era de ascendência bororo. Um dos nossos maiores jogadores de futebol, Garrincha, era um índio fulniô. O xavante Juruna foi a consciência étnica da nação na Câmara dos Deputados.

O general não falou no legado dos mulatos do barroco mineiro, na música, na pintura, na arquitetura. Não falou no padre José Maurício, mulato, compositor erudito que fora professor de música de dom Pedro I. Nem nos escritores Machado de Assis, Lima Barreto, Luís Gama e Ruth Guimarães.

O general não poderia fazer política sem falar o português mestiço de língua nheengatu. A língua portuguesa que o general fala e eu falo tornou-se mestiça preguiçosa com o enxerto de palavras tupi no seu vocabulário. Mas sobretudo pela abundante invasão de vogais que a tornaram lenta e brandas as consoantes. Os índios forçados a falar português só o conseguiram dulcificando-o com vogais de abrandamento. Nem pipoca o general poderia comer se não falasse o preguiçoso nheengatu dessa palavra.

Minimizar o índio como pessoa e como autor de cultura, reduzirá o Brasil a uma ilhota desfigurada e sem brasilidade, a uma pátria impatriótica. Quem recortar o negro da história, dos costumes e da identidade do brasileiro, que é antes de tudo um mestiço, também de mestiçagem cultural, nunca se encontrará com o Brasil. A pena de morte ideológica, a do preconceito, mata a pátria, não as iniquidades que a crucificam. Pátria não é delegacia de polícia nem é quartel. Pátria é sociologicamente o nós das nossas diferenças e do nosso encontro. Sem esse nós, pode haver governo, mas não haverá a quem governar.
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José de Souza Martins é sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “A Política do Brasil Lúmpen e Místico” (Contexto).

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